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Ouro, vozes e fronteiras: Migração brasileira e identidade linguística no Suriname | ANTONIO L. DORMAL CALLEJA | Febrero 2026

Por: Antonio L. Dormal Calleja

Ouro, vozes e fronteiras: Migração brasileira e identidade linguística no Suriname

Chegar ao Suriname é cruzar mais do que uma fronteira geográfica; é adentrar um território onde as vozes se entrelaçam: do brasileiro falado pelos migrantes brasileiros às línguas surinamesas dos maroons (des - cendentes dos primeiros africanos escravizados que se libertaram do jugo escravocrata europeu), que ecoam como testemunhos vivos de resistência ancestral. Ao lado do sranan tongo das ruas (literalmente: língua do Suriname ou surinamês) e do neerlandês oficial, essas línguas guardam histórias de fuga, liberdade e reinvenção. Nesse país de muitas línguas, a língua brasileira (ou como denominamos, neste trabalho, brasileiro) circula entre garimpos, mercados e celebrações, costurando iden - tidades em um espaço que fala muito, mas ainda não escuta todas as vozes.

A presença brasileira no Suriname não é nova, mas continua invisível aos olhos das instituições. Invisível nos documentos, nas políticas públicas, nas escolas e nos hospitais. Mas não nas ruas, nas feiras, nos cultos religiosos e nas redes de apoio que se formam entre migrantes. É nesse espaço informal que o brasileiro falado se afirma como território de pertencimento, mesmo sem reconhecimento oficial.

SURINAME: TERRITÓRIO DE VOZES E MEMÓRIAS 

O Suriname é um país singular na América do Sul. Com raízes coloniais holandesas e uma população marcada por fluxos migra - tórios diversos: africanos, indianos, javaneses, chineses, judeus, brasileiros; e com uma população pré-colonial presente até hoje, os indígenas, povos originários que já habitavam a região há mais de 4mil anos. Em um território de aproximadamente 164 mil km², com pouco mais de 600 mil habitantes, o país abriga uma ecologia linguística pouco comum; são mais de 20 línguas em uso cotidiano, entre elas o neerlandês (língua oficial), o surinamês (língua franca), o inglês, o sarnami (língua dos imigrantes provenientes da Índia), o javanês, o chinês, as línguas indígenas (o aruak, o karib e o warão) e as línguas maroons (o saramakan, o matauai, o nadijuka, o Kuinti, o Paramakan e o Aluku).

Essa diversidade não é apenas estatística: ela compõe o tecido vivo da sociedade surinamesa, onde cada língua carrega histórias de migração, resistência e pertencimento.

As línguas faladas no Suriname não apenas coexistem: elas se entrelaçam, se adaptam, se reinventam. As línguas maroons, por exemplo, são heranças vivas de comunidades maroons ou quilombolas (no Brasil), que resistiram à escravidão e criaram formas próprias de organização, cultura e expressão; carregam memórias de luta e pertencimento e que continuam sendo faladas em aldeias, rituais e espaços comunitários.

O surinamês, por sua vez, é uma língua crioula que surgiu do contato entre africanos escravizados e colonizadores europeus no centro urbano de Paramaribo, capital do país. Hoje, é amplamente falada nas ruas, nos mercados e nas interações cotidianas. Embora não tenha status oficial, é reconhecida como língua de convergência nacional e símbolo de identidade surinamesa.

Nesse cenário, a presença da língua brasileira, falada por migrantes que chegam ao país em busca de trabalho, especialmente no garimpo, é uma adição recente, mas significativa. Embora não reconhecida oficialmente, a língua brasileira se faz ouvir nos cantos da cidade, especialmente no bairro brasileiro de Belenzinho ou Klein Belém (em neerlandês), nas trocas comerciais, nas celebrações religiosas e nas redes de apoio entre compatriotas. Essa língua dos brasileiros se insere no mosaico linguístico surinamês como língua de migrantes, marcada por deslocamento, adaptação e sobrevivência.

MIGRAÇÃO BRASILEIRA E A LÍNGUA EM TRÂNSITO

A migração brasileira para o Suriname é marcada por informalidade, precariedade, resistência e insistência. Muitos migrantes chegam a partir do aeroporto de Belém, no Pará; outros, pela fronteira fluvial com o estado do Amapá ou Pará. Todos os brasileiros estão em busca de oportunidades no garimpo ou em atividades comerciais. São trajetórias que envolvem deslocamentos físicos e simbólicos: cruzar a fronteira ou o rio é também cruzar línguas, culturas e territórios de pertencimento.

Nesse processo, o (português) brasileiro se torna mais do que meio de comunicação: é abrigo, memória e identidade. Falado em contextos de trabalho, fé, afeto e sobrevivência, o brasileiro se adapta ao ambiente multilíngue do Suriname. Mistura-se ao surinamês, incorpora palavras do neerlandês, e, em muitos casos, até se aproxima das línguas maroons, alternando seus códigos nas falas, tanto dos garimpeiros brasileiros como dos maroons.

Essa variedade linguística, que os pesquisadores têm chamado de português brasileiro (PB), nós a denominamos, como já escrito acima, de brasileiro falado no Suriname (BFS) ou brasileiro. O BFS é marcado por traços fonológicos, morfossintáticos, semântico- -pragmáticos e lexicais próprios, embora não tenha sido possível atestar, até então, um largo conjunto desses fenômenos. Chamamos a atenção, no entanto, para: o uso do rótico /r/ do holandês em posição final de sílaba nas palavras do BFS, o empréstimo de termos locais, a alternância de códigos linguísticos de duas ou mais línguas em contato (codeswitching multidirecional) em um único enunciado. Todos esses aspectos já apontados em pesquisas sobre o BFS corroboram a existência de uma variedade da língua brasileira em trânsito, viva e resistente.

Mais do que uma variação do português brasileiro, o BFS parece se tratar de um ‘código híbrido’, moldado pela experiência migrante. O BFS carrega marcas de deslocamento, adaptação e criatividade; é uma ‘variedade’ da língua brasileira que se transforma para sobreviver, mas que também afirma uma identidade coletiva que não se define apenas pela origem brasileira, mas pela vivência compartilhada em território estrangeiro surinamês.

AS LÍNGUAS SURINAMESAS MAROONS E O DIÁLOGO INVISÍVEL

As línguas maroons são parte fundamental do tecido cultural surinamês. Faladas por comunidades descendentes de africanos escravizados que escaparam das plantações coloniais e formaram sociedades autônomas, essas línguas são expressão de liberdade, ancestralidade e resistência.

No contato com os migrantes brasileiros, as línguas maroons criam pontes invisíveis, não necessariamente de compreensão linguística, mas de reconhecimento histórico. Tanto as línguas marrons como o BFS carregam marcas de exclusão, de marginalização institucional, de sobrevivência fora dos centros de poder. São línguas de resistência. O BFS e as línguas maroons compartilham uma condição: são línguas que vivem à margem das políticas oficiais, mas que sustentam comunidades inteiras. São línguas que não aparecem nos documentos, mas que constroem vínculos, narrativas e afetos.

Esse diálogo invisível entre línguas periféricas é também um convite à escuta. Escutar o BFS é escutar histórias de migração, de trabalho, de fé. Escutar as línguas maroons é escutar histórias de fuga, de resistência, de ancestralidade, de liberdade. Essas línguas em conjunto merecem ser reconhecidas como parte legítima do patrimônio cultural surinamês e da identidade dos territórios onde elas sobrevivem, mesmo que em muitos casos, sejam minoritárias, em termos demográficos.

DIREITOS LINGUÍSTICOS E EXCLUSÃO INSTITUCIONAL

A invisibilidade do BFS (falado por aproximadamente 5% da população total do Suriname), por parte das instituições oficiais surinamesas é uma questão de direitos humanos. O acesso à informação, à saúde, à educação e à justiça em uma língua falada em um dado território é um direito reconhecido por diversos acordos internacionais, como a Declaração Universal dos Direitos Linguísticos (UNESCO), o Pacto Global para Migração Segura (ONU) e os princípios da ONU sobre inclusão linguística. No entanto, esses princípios se chocam com a prática. Migrantes brasileiros no Suriname enfrentam barreiras linguísticas em hospitais, escolas e delegacias. Muitos não compreendem o neerlandês escrito nas instituições oficiais e acabam excluídos de serviços básicos. Ainda que, redes de solidariedade entre brasileiros auxiliem bastante na compreensão do neerlandês, a ausência de intérpretes ou de materiais informativos em BFS, reforça a vulnerabilidade dos brasileiros no Suriname.

A falta de reconhecimento do BFS como parte do mosaico linguístico surinamês revela uma lacuna entre o discurso internacional e a realidade local. Enquanto os acordos falam em inclusão, na prática, a exclusão é mantida. Enquanto se celebra a diversidade, a presença concreta de línguas migrantes é ignorada. 

Reconhecer o BFS como parte legítima do território linguístico surinamês é um passo fundamental para garantir dignidade, inclusão e justiça. Não se trata apenas de traduzir documentos, mas de reconhecer trajetórias, vozes e identidades. É preciso que a escuta institucional acompanhe a escuta comunitária, aquela que já acontece nas ruas, nos cultos e nas redes de solidariedade.

CULTURA, FÉ E RESISTÊNCIA

Apesar da exclusão institucional, o BFS encontra espaços de resistência na cultura popular; nos cultos religiosos, nas festas comunitárias, nas músicas tocadas nos mercados, nos espaços públicos, o BFS dos brasileiros se afirma como expressão de fé, afeto e pertencimento.  

Migrantes brasileiros criam redes de apoio, compartilham saberes, constroem espaços de convivência onde a língua é celebrada. A oralidade é central no contar histórias, na criação das relações, no ensino de receitas, no cuidar do corpo, na construção de famílias, nos conselhos, nas expressões de gratidão, de amor ou de reverência; tudo isso se dá por meio do BFS, com suas variações, sotaques e influências locais surinamesas, próprias das comunidades onde as brasileiras e os brasileiros convivem nessa área caribenha e amazônica.

O BFS não é apenas a língua dos brasileiros no Suriname falando entre si. É também a língua dos brasileiros no encontro com outras línguas. O surinamês aparece na interação dos brasileiros falantes de BFS nas trocas comerciais e nas relações sociais; o encontro entre as falas em neerlandês e em BFS se dá nas tentativas dos brasileiros acessarem os serviços públicos ou as escolas dos filhos. Quanto às línguas maroons, embora menos compreendidas pelos brasileiros, são compartilhadas, em todo o Suriname, por exemplo, nas regiões de garimpo, no interior da selva amazônica surinamesa, onde as expressões lexicais de línguas marrons são incorporadas no dia a dia do BFS com bastante vigor.

O BFS, no contexto de garimpo surinamês não é apenas sobrevivência, é criação, é cultura, é identidade. O BFS se transforma em canto, em lamento, em gesto, em alegria, em reunião. Essa língua se afirma como território simbólico, mesmo quando não reconhecida oficialmente. E é nesse gesto de afirmação que reside sua força: a capacidade de existir mesmo quando não é legitimada.

ESCUTAR TODAS AS VOZES

Se o Suriname é um país de muitas línguas, o que falta para que todas as suas línguas sejam ouvidas? 

Reconhecer a língua brasileira, o BFS, como parte legítima do território linguístico surinamês é mais do que uma política pública: é um gesto de escuta, de acolhimento, de reconhecimento. É entender que a linguagem não é apenas código: é memória, é identidade, é pertencimento, é troca constante.

Entre o ouro que atrai, as fronteiras que se cruzam e as vozes que resistem, o BFS é uma língua invisível que insiste em existir. E talvez seja justamente essa insistência que nos convide a escutar com mais atenção, não apenas o que é dito, mas o que ainda não foi legitimado.

A escuta verdadeira começa quando deixamos de perguntar “qual é a língua oficial?”. A escuta se dá quando perguntamos: “quem está falando, e por que não está sendo ouvido?”. Nesse gesto, reconhecemos que toda língua carrega uma história, e que toda história merece espaço para ser contada.

A língua brasileira, o BFS, com suas variações, influências e afetos, é uma dessas histórias. Uma história que atravessa fronteiras, que se mistura com outras vozes, que resiste no silêncio institucional. E que, ao ser reconhecida, transforma o mapa, não apenas o geográfico, mas o humano. É território: espaço vivo.

Antonio L. Dormal Calleja 

Doutorando em Linguística pela Universidade de São Paulo (USP) e membro do Grupo de Estudos de Línguas em Contato (GELIC). Nascido em Bruxelas, criado nas Astúrias, adulto em Amsterdam e residente no Brasil desde 1999, transita entre territórios e línguas. É mestre pela USP, com pesquisa sobre o contato linguístico da língua brasileira em Paramaribo, Suriname, e apresenta seus trabalhos em congressos internacionais sobre linguística de contato, línguas crioulas e direitos linguísticos. Professor de espanhol, tradutor, intérprete e formador de professores, também é DJ nas horas que a língua dança, capoeirista em pausa e iniciante no surf. Pai de uma carioca e marinheiro linguístico por vocação, para ele toda língua é migrante.

Márcia Santos Duarte de Oliveira 

Professora doutora da Universidade de São Paulo (USP) atuando na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas desde 2005. É uma das principais referências em linguística de contato no Brasil, com foco em variedades do português, especialmente em Angola (África). Munida de uma sólida formação, com dois pós-doutorados que a levaram da histórica Universidade de Coimbra, em Portugal, ao vibrante Instituto Politécnico do Libolo, em Angola, Márcia Oliveira expande sua pesquisa para desvendar as complexas dinâmicas linguísticas do português. Autora de diversos textos acadêmicos e organizadora de livros, Márcia Oliveira tece conexões vitais entre o Brasil, o continente africano e, em uma importante parceria com Antonio Lorenzo Dormal Calleja, explora o português brasileiro em “paisagens linguísticas caribenhas” do Suriname.

Oro, voces y fronteras: Migración brasileña e identidad lingüistica en Surinam

Llegar a Surinam es cruzar más que una frontera geográfica; es adentrarse en un territorio donde las voces se entrelazan: desde el brasileño hablado por los migrantes brasileños hasta las lenguas surinamesas de los maroons (descendien - tes de los primeros africanos esclavizados que se liberaron del yugo colonial europeo), que resuenan como testimonios vivos de resistencia ancestral. Junto al sranan tongo de las calles (lite - ralmente: lengua de Surinam o surinamés) y al neerlandés oficial, estas lenguas guardan historias de fuga, libertad y reinvención. En este país de muchas lenguas, el brasileño (como denominamos al portugués brasileño) circula entre minas de oro a cielo abierto, mercados y celebraciones, hilando identidades en un espacio que habla mucho, pero que aún no escucha todas las voces.

La presencia brasileña en Surinam no es nueva, pero sigue siendo invisible ante los ojos de las instituciones. Invisible en los documentos, en las políticas públicas, en las escuelas y en los hospitales. Pero no en las calles, en las ferias, en los cultos religiosos ni en las redes de apoyo que se forman entre migrantes. Es en ese espacio informal donde el (portugués) brasileño se afirma como territorio de pertenencia, incluso sin reconocimiento oficial.

SURINAM: TERRITORIO DE VOCES Y MEMORIAS

Surinam es un país singular en América del Sur. Con raíces colo - niales neerlandesas y una población marcada por diversos flujos migratorios: africanos, indios, javaneses, chinos, judíos, brasileños; además de una población precolonial aún presente: los pueblos indígenas, pueblos originarios que ya habitaban la región hace más de cuatro mil años. En un territorio de aproximadamente 164 mil km², con poco más de 600 mil habitantes, el país alberga una ecología lingüística poco común. Se hablan más de veinte lenguas en el uso cotidiano, entre ellas: el neerlandés (lengua oficial), el surinamés (sranan o sranan tongo) como lengua franca, el inglés, el sarnami (lengua de los inmigrantes provenientes de la India), el javanés, el chino, lenguas indígenas como el aruak, el karib y el warao, y las lenguas maroons, entre ellas el saramakano, el matauai, el nadiyuka, el kuinti, el paramakano y el aluku. Esta diversidad no es solo estadística: constituye el tejido vivo de la sociedad surinamesa, donde cada lengua lleva consigo historias de migración, resistencia y pertenencia.

Las lenguas habladas en Surinam no solo coexisten: se entrelazan, se adaptan, se reinventan. Las lenguas maroons, por ejemplo, son herencias vivas de comunidades cimarrones, palenques o quilombos (en Brasil), que resistieron la esclavitud y crearon formas propias de organización, cultura y expresión. Estas lenguas conservan memorias de lucha y pertenencia, y siguen siendo habladas en aldeas, rituales y espacios comunitarios.

El surinamés (sranan tongo o sranan), por su parte, es una lengua criolla que surgió del contacto entre africanos esclavizados y colonizadores europeos en el centro urbano de Paramaribo, la capital del país. Hoy en día, se habla ampliamente en las calles, en los mercados y en las interacciones cotidianas. Aunque no tiene estatus oficial, es reconocida como lengua de convergencia nacional y símbolo de identidad surinamesa.

En este escenario, la presencia de la lengua brasileña, hablada por migrantes que llegan al país en busca de trabajo, especialmente en la minería de oro a cielo abierto, es una incorporación reciente pero significativa. Aunque no reconocida oficialmente, la lengua brasileña se escucha en los rincones de la ciudad, especialmente en el barrio brasileño de Belenzinho o Klein Belém (en neerlandés), en los intercambios comerciales, en las celebraciones religiosas y en las redes de apoyo entre compatriotas. Esta lengua de los brasileños se inserta en el mosaico lingüístico surinamés como lengua migrante, marcada por el desplazamiento, la adaptación y la supervivencia.

MIGRACIÓN BRASILEÑA Y LA LENGUA EN TRÁNSITO

La migración brasileña hacia Surinam está marcada por la informalidad, la precariedad, la resistencia y la insistencia. Muchos migrantes llegan desde el aeropuerto de Belém, en el estado de Pará (Brasil); otros cruzan la frontera fluvial desde el estado de Amapá o Pará (también en Brasil). Todos buscan oportunidades en la extracción de oro o en actividades comerciales. Son trayectorias que implican desplazamientos físicos y simbólicos: cruzar la frontera o el río es también cruzar lenguas, culturas y territorios de pertenencia. 

En ese proceso, el (portugués) brasileño se convierte en algo más que un medio de comunicación: es refugio, memoria e identidad. Hablado en contextos de trabajo, fe, afecto y supervivencia, el brasileño hablado se adapta al entorno multilingüe de Surinam. Se mezcla con el surinamés, incorpora palabras del neerlandés y, en muchos casos, incluso se aproxima a las lenguas maroons, alternando sus códigos en los discursos tanto de los garimpeiros (buscadores de oro) brasileños como de los maroons.

Esta variedad lingüística, que algunos investigadores han denominado portugués brasileño (PB), la llamamos aquí de brasileño hablado en Surinam (las iniciales en brasileño - BFS) o brasileño. El BFS está marcado por rasgos fonológicos, morfosintácticos, semántico-pragmáticos y léxicos propios, aunque hasta ahora no ha sido posible documentar un conjunto amplio de estos fenómenos. Señalamos, sin embargo, el uso del sonido /r/ del neerlandés en posición final de sílaba en palabras del BFS, el préstamo de términos locales, y la alternancia de códigos lingüísticos de dos o más lenguas en contacto (code-switching multidireccional) en un mismo enunciado. Todos estos aspectos, ya señalados en investigaciones sobre el BFS, corroboran la existencia de una variedad de la lengua brasileña en tránsito, viva y resistente.

Más que una variación del portugués brasileño, el BFS parece ser un “código híbrido”, moldeado por la experiencia migrante. El BFS lleva marcas de desplazamiento, adaptación y creatividad; es una “variedad” de la lengua brasileña que se transforma para sobrevivir, pero que también afirma una identidad colectiva que no se define únicamente por el origen brasileño, sino por la vivencia compartida en territorio surinamés.

LAS LENGUAS MAROONS DE SURINAM Y EL DIÁLOGO INVISIBLE

Las lenguas maroons son parte fundamental del tejido cultural surinamés. Habladas por comunidades descendientes de africanos esclavizados que escaparon de las plantaciones coloniales y formaron sociedades autónomas, estas lenguas son expresión de libertad, ancestralidad y resistencia.

En el contacto con los migrantes brasileños, las lenguas maroons crean puentes invisibles, no necesariamente de comprensión lingüística, sino de reconocimiento histórico. Tanto las lenguas maroons como el BFS (brasileño hablado en Surinam) llevan consigo marcas de exclusión, de marginación institucional, de supervivencia fuera de los centros de poder. Son lenguas de resistencia. El BFS y las lenguas maroons comparten una misma condición: son lenguas que viven al margen de las políticas oficiales, pero que sostienen comunidades enteras. Son lenguas que no aparecen en los documentos, pero que construyen vínculos, narrativas y afectos.

Este diálogo invisible entre lenguas periféricas es también una invitación a la escucha. Escuchar el BFS es escuchar historias de migración, de trabajo, de fe. Escuchar las lenguas maroons es escuchar relatos de fuga, de resistencia, de ancestralidad, de libertad. Estas lenguas, en conjunto, merecen ser reconocidas como parte legítima del patrimonio cultural surinamés y de la identidad de los territorios donde sobreviven, aunque en muchos casos sean minoritarias en términos demográficos.

DERECHOS LINGÜÍSTICOS Y EXCLUSIÓN INSTITUCIONAL

La invisibilidad del BFS (brasileño hablado en Surinam), que representa aproximadamente el 5 % de la población total del país, por parte de las instituciones oficiales surinamesas, constituye una cuestión de derechos humanos. El acceso a la información, a la salud, a la educación y a la justicia en una lengua hablada en un determinado territorio es un derecho reconocido por diversos acuerdos internacionales, como la Declaración Universal de los Derechos Lingüísticos (UNESCO), el Pacto Mundial para una Migración Segura (ONU) y los principios de la ONU sobre inclusión lingüística. Sin embargo, estos principios chocan con la práctica cotidiana. Los migrantes brasileños en Surinam enfrentan barreras lingüísticas en hospitales, escuelas y comisarías. Muchos no comprenden el neerlandés escrito utilizado en las instituciones oficiales y acaban excluidos de servicios básicos. Aunque las redes de solidaridad entre brasileños ayudan considerablemente en la comprensión del neerlandés, la ausencia de intérpretes o de materiales informativos en BFS refuerza la vulnerabilidad de la comunidad brasileña en Surinam.

La falta de reconocimiento del BFS como parte del mosaico lingüístico surinamés revela una brecha entre el discurso internacional y la realidad local. Mientras los acuerdos promueven la inclusión, en la práctica se mantiene la exclusión. Mientras se celebra la diversidad, se ignora la presencia concreta de lenguas migrantes.

Reconocer el BFS como parte legítima del territorio lingüístico surinamés es un paso fundamental para garantizar dignidad, inclusión y justicia. No se trata únicamente de traducir documentos, sino de reconocer trayectorias, voces e identidades. Es necesario que la escucha institucional acompañe la escucha comunitaria, esa que ya ocurre en las calles, en los cultos religiosos y en las redes de solidaridad.

CULTURA, FE Y RESISTENCIA

A pesar de la exclusión institucional, el BFS (brasileño hablado en Surinam) encuentra espacios de resistencia en la cultura popular, en los cultos religiosos, en las fiestas comunitarias, en las músicas que suenan en los mercados y en los espacios públicos, donde el BFS se afirma como expresión de fe, afecto y pertenencia.

Los migrantes brasileños crean redes de apoyo, comparten saberes, construyen espacios de convivencia donde la lengua es celebrada. La oralidad es central: contar historias, crear vínculos, enseñar recetas, cuidar el cuerpo, formar familias, dar consejos, expresar gratitud, amor o reverencia; todo eso ocurre a través del BFS, con sus variaciones, acentos e influencias locales surinamesas, propias de las comunidades donde brasileñas y brasileños conviven en esta región caribeña y amazónica.

El BFS no es solo la lengua que los brasileños hablan entre sí en Surinam. Es también la lengua del encuentro con otras lenguas. El surinamés aparece en las interacciones comerciales y sociales; el neerlandés, en los intentos de acceder a servicios públicos o a las escuelas de sus hijos. En cuanto a las lenguas maroons, aunque menos comprendidas por los brasileños, son compartidas en todo el país, especialmente en las zonas de minería, en el interior de la selva amazónica surinamesa, donde expresiones léxicas de estas lenguas son incorporadas con fuerza en el día a día del BFS.

En el contexto del garimpo surinamés, el BFS no es solo supervivencia: es creación, es cultura, es identidad. Se transforma en canto, en lamento, en gesto, en alegría, en reunión. Esta lengua se afirma como territorio simbólico, incluso cuando no es reconocida oficialmente. Y es en ese gesto de afirmación donde reside su fuerza: en la capacidad de existir, incluso cuando no es legitimada.

ESCUCHAR TODAS LAS VOCES

Si Surinam es un país de muchas lenguas, ¿qué falta para que todas sean realmente escuchadas?

Reconocer la lengua brasileña, el BFS, como parte legítima del territorio lingüístico surinamés es más que una política pública: es un gesto de escucha, de acogida, de reconocimiento. Es comprender que el lenguaje no es solo código: es memoria, es identidad, es pertenencia, es intercambio constante. 

Entre el oro que atrae, las fronteras que se cruzan y las voces que resisten, el BFS es una lengua invisible que insiste en existir. Y quizás sea justamente esa insistencia la que nos invita a escuchar con más atención, no solo lo que se dice, sino lo que aún no ha sido legitimado.

La escucha verdadera comienza cuando dejamos de preguntar “¿cuál es la lengua oficial?” y empezamos a preguntar “¿quién está hablando, y por qué no está siendo escuchado?”. En ese gesto, reconocemos que toda lengua lleva consigo una historia, y que toda historia merece espacio para ser contada.

La lengua brasileña, el BFS, con sus variaciones, influencias y afectos, es una de esas historias. Una historia que atraviesa fronteras, que se mezcla con otras voces, que resiste en el silencio institucional. Y que, al ser reconocida, transforma el mapa, no solo el geográfico, sino el humano. Es territorio: espacio vivo.

Antonio L. Dormal Calleja 

Doctorando en Lingüística por la Universidad de São Paulo (USP) y miembro del Grupo de Estudios de Lenguas en Contacto (GELIC). Nacido en Bruselas, criado en Asturias, adulto en Ámsterdam y residente en Brasil desde 1999, transita entre territorios y lenguas. Es magíster por la USP, con investigación sobre el contacto lingüístico de la lengua brasileña en Paramaribo, Surinam, y presenta sus trabajos en congresos internacionales sobre lingüística de contacto, lenguas criollas y derechos lingüísticos. Profesor de español, traductor, intérprete y formador de docentes, también es DJ en las horas en que la lengua baila, capoeirista en pausa e iniciado en el surf. Padre de una carioca y marinero lingüístico por vocación, cree que toda lengua es migrante. 

Márcia Santos Duarte de Oliveira 

Profesora, doctora por la Universidad de São Paulo (USP), y trabaja en la Facultad de Filosofía, Letras y Ciencias Humanas desde 2005. Es una de las figuras más destacadas de la lingüística de contacto en Brasil, especializada en las variedades del portugués, especialmente en Angola (África). Con una sólida trayectoria, que incluye dos estudios posdoctorales realizados entre la histórica Universidad de Coimbra en Portugal y el dinámico Instituto Politécnico de Libolo en Angola, Márcia Oliveira amplía su investigación para desentrañar la compleja dinámica lingüística del portugués. Autora de numerosos textos académicos y editora de libros, Márcia Oliveira establece conexiones esenciales entre Brasil, el continente africano y, en una importante colaboración con Antonio Lorenzo Dormal Calleja, explora el portugués brasileño en los paisajes lingüísticos caribeños de Surinam.