- Obtener vínculo
- X
- Correo electrónico
- Otras apps
- Obtener vínculo
- X
- Correo electrónico
- Otras apps
Por: Sylvia Dobry
Moradia e favela
Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço. (Palavras finais de Ítalo Calvino, em As cidades invisíveis).
Javier Villanueva: A arquiteta Sylvia Dobry, argentina radicada no Brasil desde 1979, nos comenta sobre um tema que interessa profundamente a quem mora nas periferias, bairros marginais e favelas das grandes cidades brasileiras e no mundo: a moradia. Junto com o emprego e a saúde, são temas tão urgente quanto a educação.
MÁQUINA, NATUREZA E SOCIEDADE
Sylvia Dobry: Segundo Freud, a cultura inclui todas as atividades e valores úteis ao homem - já que colocam a terra a seu serviço e o protegem contra a violência das forças da natureza-, inclusive a invenção das ferramentas, que potencializam os próprios órgãos e acrescentam-lhes forças gigantescas.1 Pode-se dizer que se fez realidade o mito grego de Prometeu, que roubou o fogo dos deuses, para transformar o destino dos homens. Não estranha, diz Freud, que o homem possa considerar-se quase um deus onipotente: realizou tantas conquistas – por meio da ciência e tecnologia –, que aparecem como a materialização dos contos de fadas, principalmente ao se comparar com o fato de ter iniciado sua vida sobre a Terra como um débil organismo animal, um recém-nascido desamparado, porém “não esqueçamos que o homem atual não se sente feliz em sua semelhança com Deus”2. Uma explicação plausível para esse desconforto pode ser atribuída à relação do homem moderno com a máquina, que ocupa o mesmo lugar semântico que a natureza teve para o homem do século 18: uma relação marcada pelas oscilações entre o entusiasmo e o temor.3
Javier Villanueva: E como estas ideias que poderiam parecer aplicáveis a quase todas as ciências e artes criadas pelas sociedades humanas podem ser focadas nos problemas urbanos -e sobretudo nas mazelas suburbanas- de moradia para as populações mais carentes?
Sylvia Dobry: Na arquitetura, as novas tecnologias poderiam dar oportunidade a desenvolver a ansiada liberdade criativa, porém esta era, em certos aspectos, incompatível comas demandas prementes de produção pré-fabricada racional, que tinha como base as urgentes necessidades sociais que deveriam ser atendidas, nos primeiros anos do século 20 e na pós-Primeira Guerra Mundial. Isto é expresso nas ideias debatidas por Taut e pelos arquitetos expressionistas da Corrente de Cristal (1910-1925), nos manifestos racionalistas do grupo D ́Stijl (1917-1931), nas visões do Futurismo Italiano (1909-1914), do Construtivismo Russo (1918- 1932), nas ideias da escola Bauhaus (19119-1932), de Ernest May, de Hannes Meyer, entre outros arquitetos.4 A máquina era também a materialização do símbolo de uma nova realidade: a da racionalidade técnico-científica.
PROGRESSO E ANGÚSTIA FRENTE À DESTRUIÇÃO
O clima da pós-Primeira Guerra Mundial sinalizou uma mudança no imaginário e na percepção: as ilusões de progresso, que a técnica e a ciência traziam no final do século 19 e início do 20, transformaram-se em profundo pessimismo, frente ao caráter mortífero e destruidor das máquinas. A técnica e as máquinas passaram a ser vistas também em sua dimensão de instrumentos da opressão e da morte, lançando sobre a experiência cotidiana uma sombra maligna5. No entanto, nesse período, o surgimento de grandes invenções não só transformara a vida urbana, como contribuíra para a formação, em grande parte, das imagens da arte mais original dessa época. Tanto Kandinsky, professor da escola Bauhaus, quanto Mondrian, um dos fundadores do Grupo D ́Stijl, visualizavam a ordem racional e a espiritualidade cultural.
Em estreita e explícita vizinhança com visões do caos e da destruição. Ambos os mundos, o de uma ordem racional fundada na razão técnico- -científica e o da destruição e da angústia chegam a se relacionar intimamente nos [...] expoentes da arte e da arquitetura das vanguardas. São exemplos disto as formulações críticas da arquitetura expressionista.6
Como diz Subirats, na realidade social e política das cidades, a contradição entre a ideia de progresso e o sentimento de angústia não conseguiu conciliação, permanecendo atual. A isto, soma se o fato de que essa cultura, pretensamente autônoma e independente, persiste, na contemporaneidade, submetida a contradições similares às vivenciadas frente à natureza, que oscilam entre a admiração à sua beleza e ao terror, à angústia produzida por sua força incontrolável, como no caso dos maremotos, furacões, terremotos e outros desastres naturais, que se fazem presentes, cada vez com mais frequência, em decorrência, entre outras coisas, do aquecimento global. Porém, na atualidade, como afirma Slavoj Zizek, “mais que a brutalidade de um furacão e uma suposta natureza humana, o colapso social da cidade revela a força sublime da dinâmica capitalista”. 7
Esse autor, ao analisar o caos que se verificou em 2005, em Nova Orleans –durante e depois da passagem do furacão Katrina –, compara-o com fenômenos vistos e/ou relatados em outros lugares, sobretudo no chamado Terceiro Mundo, e/ou nas guerras civis, por exemplo, em Bagdá, Cabul, Somália e Libéria. O que sucede comumente nesses lugares apresentou- -se imprevistamente no chamado Primeiro Mundo, nos EUA, em Louisiana, apelidada a parte terceiro-mundista do país. Ainda na visão de Zizek, a catástrofe natural – o furacão Katrina –desvendou a dimensão social de várias formas: de um lado, com o desabamento de parte dos muros construídos para proteger a cidade; de outro, com a desintegração da ordem social.
O efeito do furacão deixou a cidade submersa soba água, no que se inclui erro técnico, já que os diques protetores falharam, e as autoridades não estavam preparadas para responder com rapidez às urgências decorrentes do desastre. No entanto, o choque mais forte aconteceu depois, como se a catástrofe natural se repetisse sob a forma de catástrofe social. O caos ocorrido na cidade tornou ainda mais visível a divisão racial persistente nos EUA, já que 68% da população de Nova Orleans – negra, pobre e marginalizada –,por não possuírem meios de deixar a cidade, ficaram sem assistência e com fome, o que originou a explosão social violenta.8
Como afirma Zizek, a tensão que levou a essa explosão em Nova Orleans é a existente entre a natureza humana e a força da civilização, que a mantém sob controle. No entanto cabe aqui a pergunta: Se, ao procurar controlar explosões como as da cidade citada, as forças da lei e da ordem se vissem diante da natureza do capitalismo em sua forma mais pura, a lógica da competição individual, da autoafirmação impiedosa gerada pela dinâmica capitalista, uma natureza muito mais ameaçadora e violenta que todos os furacões e terremotos?9.
A catástrofe de Nova Orleans provocada pelo furacão Katrina oferece um exemplo similar do sublime: “Por mais brutal que seja o vórtice do furacão, ele não é capaz de subverter o vórtice da dinâmica capitalista”10. Pode-se perceber que, muitas vezes, a angústia frente ao poder incontrolável da natureza ou às forças irracionais dos homens foi transferida, partir do século 19, também para a tecnologia, simbolizada pela máquina.
O terror que Voltaire descreve sentir, ante um terremoto, pode ser comparado ao medo que a consciência contempo rânea manifesta frente a muitos produtos da tecnologia, por seu potencial agressivo, tema desenvolvido pelo cinema e pela literatura – entre outras artes –, em diversos momentos históricos e lugares.
Javier Villanueva: Como você acha que sentem a mulher, o homem e as crianças dos centros urbanos, sobretudo nas periferias dos grandes conurbanos estas angústias das mazelas da cidade moderna?
OLHAR DISTRAÍDO... OLHAR DA SOLIDÃO...
Sylvia Dobry: Muitas vezes, o homem contemporâneo percebe sem questionamento –como se fosse natural – que rios de carros congestionam as avenidas de fundo de vale, ignorando que eram rios carregados de peixes, com amplas encostas cobertas de vegetação, protegendo a água e nos protegendo das enchentes. Ou que cadeias de altos edifícios, na maioria das cidades litorâneas, como novas barreiras montanhosas, impedem a visão do mar e dificultam a passagem dos ventos. Estreitíssimas calçadas, muros conformando corredores opressivos passam despercebidos, para grande parte da população que por eles transita. Na atual percepção da cidade, o privado predomina sobre o público, e essa relação pode ser notada, ao considerarmos o uso dos espaços: as ruas, as praças, os parques, muitas vezes, deixam de ser usufruídos, e a residência passa a prevalecer como o espaço urbano da intimidade, o esconderijo; situações reforçadas por grades, portões, altos muros e até arame farpado e eletrificado, verdadeira arquitetura de guerra. A cidade deixa de ser o lugar da sociabilidade, para transformarse no lugar da solidão. Muitos de seus moradores refugiam-se em hábitos de autoproteção, incentivados e mitificados pelos objetos da publicidade, tais como a condução própria, o sítio de fim de semana, a casa de praia, o condomínio fechado; esses objetos ultrapassam seu valor de uso, e são valorizados também pelo que representam e expressam,11 incluindo-se no que Marx chamou de fetichismo da mercadoria.12
E aqui vem a lembrança de Tamara, uma das “cidades invisíveis”, de Ítalo Calvino:
Penetra- se por ruas cheias de placas que pendem das paredes. Os olhos não veem coisas, mas figuras de coisas que significam outras coisas. [...] Se um edifício não contém nenhuma insígnia ou figura, a sua forma e o lugar que ocupa na organização da cidade bastam para indicar sua função: o palácio real, a prisão, a casa de moeda, a escola pitagórica, o bordel. Mesmo as mercadorias que os vendedores expõem nas bancas valem não por si próprias, mas como símbolo de outras coisas: a tira bordada para a testa significa elegância; a liteira dourada, poder; os volumes de Averróis, sabedoria; a pulseira para o tornozelo, voluptuosidade”.13
Javier Villanueva: No teu artigo original, você fala de cinema e lembra um filme forte, contundente ao tratar as questões da moradia que é reservada aos setores mais empobrecidos da população, às vezes, inclusive, como “soluções” pelo poder público e/ ou pelo lucro desmedido do setor privado. Que filme é esse?
Sylvia Dobry: No filme Redentor, escuta-se a voz over pertencente a Célio, o jovem jornalista que assume a missão de salvar a família arruinada pelo golpe de um empreiteiro de imóveis que recolheu as prestações, mas não entregou os apartamentos do Edifício Paraíso e nem sequer pagou os operários. Estes formaram uma favela ao lado do prédio inacabado, terminando por invadi-lo, para desespero dos compradores logrados.14
Otávio, um dos personagens, decide ir para Brasília, pedir ajuda a um ministro, enquanto os invasores são expulsos pela polícia. “O tom das imagens conecta Brasília com a especulação imobiliária, tomada como um emblema da corrupção nacional”, ainda segundo Xavier.15
Essa especulação imobiliária pode também ser constatada na complexa situação de que metade das favelas de São Paulo fica às margens dos reservatórios que fornecem água à cidade. A crescente expansão periférica da metrópole paulistana até as represas Guarapiranga e Billings, nas últimas décadas, traz a marca da desigualdade social associada à degradação ambiental da região, que deveria ser protegida, por sua função de produção e reservatório de água.
Embora a legislação de proteção aos mananciais vigore há mais de 30 anos, como não se estabeleceram mecanismos de gestão e controle, permitiram-se aos perversos mecanismos do mercado desvalorizar a região e, consequentemente, acolher as populações pobres expulsas de lugares mais valorizados. Estes filmes marcaram visualmente o fato de que, no Brasil, como em outros países, as cidades contêm partes que podem ser classificadas, como diz Ermínia Maricato, como não cidades: as extensas periferias, que, além das casas autoconstruídas, contam apenas com o precário transporte, a luz e a água.16
O contraste entre os bairros “de primeiro mundo” e as extensas periferias faveladas remete à noção de que o processo de desenvolvimento capitalista é desigual e combinado. A realidade apresenta uma unidade de contrários, uma simbiose, em que o “atrasado” alimenta o “moderno”, ou, dito de outra forma, o subdesenvolvimento está incluído na formação capitalista.17
As moradias urbanas de periferia, em grande parte, são autoconstruídas em mutirão, no marco da ilegalidade que é sustentada sobre uma estrutura fundiária arcaica, contribuindo para o baixo custo de reprodução da força de trabalho e formando uma paisagem favelada, com pouco fornecimento de infraestrutura.
Frente a essa realidade, é notável, como diz Ermínia Maricato, como o pensar a cidade e as soluções propostas para seus problemas permanecem, com exceções, alienadas da realidade.18
Por isso, a importância de encontrar brechas que, na contracorrente do processo de alienação – de que faz parte o sentimento de não pertencimento aos lugares de vida –, permita encontrar proposições positivas às problemáticas atuais das cidades, lugar das contradições contrastantes. Nesse contexto, destaca-se a relevância de que o ensino de arquitetura e urbanismo participe da mesma intenção, dando visibilidade às contradições da paisagem, condição indispensável à produção de uma reflexão crítica, que permita elucidar soluções criativas. Nesse sentido, vêm à lembrança as palavras finais de Ítalo Calvino, em As cidades invisíveis,
Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.
Bibliografía
ANDERSON, Perry. As origens da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 1999. 165p.
ARANTES, Otilia; MARICATO, Ermínia; VAINER, Carlos. A cidade do pensamento único. 2º.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000. 192p.
CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. São Paulo: Biblioteca da Folha, s/d. Disponível em http://ppta.dominiotemporario.com/doc/ Italo-Calvino-As-Cidades-Invisiveis.pdf Acesso em 01/11/2010 As cidades invisíveis. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1999. 150p.
CHAUÍ, Marilena. Janela da alma, espelho do mundo. In: NOVAES, Adauto et al. O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. p.31-63.
DAVIS, Mike, Planeta favela. São Paulo: Boitempo, 2006. 272 p. Miedo y dinero en Dubai. in New Left Review en español. Madrid: Akal, n. 41, nov. dic. 2006. Páginas: 43-66. Disponível em: www.newleftreview. org/?getpdf=NLR27503;pdflang=es Acesso em 20/10/2010.
DOBRY PRONSATO, Sylvia Adriana. Arquitetura e paisagem: projeto participativo e criação coletiva. São Paulo: Annablume, Fupam, FAPESP, 2005. 148p. Para quem e com quem: ensino de arquitetura e urbanismo. 2008. 319p. Tese (Doutorado) - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.
FAGGIN PEREIRA LEITE, M. Ângela. Memorial de atividades. São Paulo: FAUUSP, 1999. 106p. Uma história de movimentos In: SANTOS, Milton e SILVEIRA, M. L., O Brasil, território e sociedade no início do século XXI. São Paulo: Ed. Record, 2002.
FERRERA, Lucrecia D’Alessio. O olhar periférico: informação, linguagem, percepção ambiental. São Paulo: Edusp-Fapesp, 1999. 277p.
Vivienda y favela
Hay dos maneras de evitar el sufrimiento. La primera es fácil para la mayoría: aceptar el infierno y formar parte de él hasta el punto de dejar de notarlo. La segunda es arriesgada y requiere atención y aprendizaje continuos: intentar saber quién y qué, en medio del infierno, no es infierno, preservarlo y hacerle espacio. (Palabras finales de Ítalo Calvino, en Las ciudades invisibles).
Javier Villanueva: La arquitecta Sylvia Dobry, argentina residente en Brasil desde 1979, nos habla de un tema que preocupa profundamente a quienes viven en las periferias, barrios marginales y favelas de las grandes ciudades brasileñas y del mundo: la vivienda. Junto con el empleo y la salud, estos problemas son tan urgentes como la educación.
MÁQUINA, NATURALEZA Y SOCIEDAD
Sylvia Dobry: Según Freud, la cultura abarca todas las actividades y valores útiles al hombre, ya que ponen la tierra a su servicio y lo protegen de la violencia de las fuerzas de la naturaleza, incluyendo la invención de herramientas que potencian nuestros órganos y los dotan de una fuerza gigantesca.1 Podría decirse que el mito griego de Prometeo, quien robó el fuego a los dioses para transformar el destino de la humanidad, se ha hecho realidad. No es de extrañar, dice Freud, que el hombre pueda considerarse casi un dios omnipotente: ha logrado tantas conquistas —mediante la ciencia y la tecnología— que parecen la materialización de cuentos de hadas, especialmente si se compara con haber comenzado su vida en la Tierra como un organismo animal débil, un recién nacido indefenso. Sin embargo, “no olvidemos que el hombre moderno no se siente feliz en su parecido con Dios”. 2 Una explicación plausible de esta incomodidad puede atribuirse a la relación del hombre moderno con las máquinas, que ocupa el mismo lugar semántico que la naturaleza ocupaba para el hombre del siglo XVIII: una relación marcada por oscilaciones entre el entusiasmo y el miedo. 3
Javier Villanueva: ¿Y cómo pueden estas ideas, que podrían parecer aplicables a casi todas las ciencias y artes creadas por las sociedades humanas, centrarse en los problemas urbanos —y especialmente en los suburbios— de la vivienda para las poblaciones más pobres?
Sylvia Dobry: En arquitectura, las nuevas tecnologías podían brindar oportunidades para el desarrollo de la anhelada libertad creativa, pero esto era, en ciertos aspectos, incompatible con las apremiantes demandas de la producción racional de prefabricados, basadas en las urgentes necesidades sociales que debían satisfacerse a principios del siglo XX y en el período posterior a la Primera Guerra Mundial. Esto se expresa en las ideas debatidas por Taut y los arquitectos expresionistas de la Corriente Cristal (1910-1925), en los manifiestos racionalistas del grupo D’Stijl (1917-1931), en las visiones del futurismo italiano (1909-1914), el constructivismo ruso (1918-1932) y en las ideas de la escuela Bauhaus (1911-1932), Ernest May, Hannes Meyer y otros arquitectos.4
La máquina fue también la materialización del símbolo de una nueva realidad: la de la racionalidad técnico-científica.
1
FREUD, Sigmund, 2010, p.
87 e 90
2
FREUD, S., 2010, p. 92.
3 SUBIRATS, Eduardo, 1987, p. 43.
4 Para mais detalhes, ver FRAMPTON, Kenneth,1983.
3 SUBIRATS, Eduardo, 1987, p. 43.
4 Para mais detalhes, ver FRAMPTON, Kenneth,1983.
PROGRESO Y ANGUSTIA ANTE LA DESTRUCCIÓN
El clima posterior a la Primera Guerra Mundial marcó un cambio en la imaginación y la percepción: las ilusiones de progreso que la tecnología y la ciencia trajeron a finales del siglo XIX y principios del XX se transformaron en un profundo pesimismo ante la naturaleza mortal y destructiva de las máquinas. La tecnología y las máquinas pasaron a ser vistas también en su dimensión de instrumentos de opresión y muerte, proyectando una sombra malévola sobre la experiencia cotidiana. Sin embargo, durante este período, la aparición de grandes inventos no solo transformó la vida urbana, sino que también contribuyó, en gran medida, a la formación de las imágenes artísticas más originales de la época. Tanto Kandinsky, profesor de la escuela Bauhaus, como Mondrian, uno de los fundadores del grupo De Stijl, imaginaron el orden racional y la espiritualidad cultural.
En estrecha y explícita proximidad con visiones de caos y destrucción. Ambos mundos —el de un orden racional fundado en la razón técnico-científica y el de a destrucción y la angustia— se relacionan íntimamente en [...] los exponentes del arte y la arquitectura de vanguardia. Ejemplos de ello son las formulaciones críticas de la arquitectura expresionista.6
Como afirma Subirats, en la realidad social y política de las ciudades, la contradicción entre la idea de progreso y la angustia no se ha conciliado y sigue vigente hoy en día. A esto se suma el hecho de que esta cultura, supuestamente autónoma e independiente, persiste en la época contemporánea, sujeta a contradicciones similares a las experimentadas frente a la naturaleza, que oscilan entre la admiración por su belleza y el terror, hasta la angustia producida por su fuerza incontrolable, como en el caso de tsunamis, huracanes, terremotos y otros desastres naturales, cada vez más presentes debido, entre otras cosas, al calentamiento global. Sin embargo, hoy, como afirma Slavoj Zizek, “más que la brutalidad de un huracán y una supuesta naturaleza humana, el colapso social de la ciudad revela la fuerza sublime de la dinámica capitalista”.7
Este autor, al analizar el caos ocurrido en 2005 en Nueva Orleans —durante y después del huracán Katrina—, lo compara con fenómenos observados o reportados en otros lugares, especialmente en el llamado Tercer Mundo o durante guerras civiles, como en Bagdad, Kabul, Somalia y Liberia. Lo que suele ocurrir en estos lugares apareció inesperadamente en el llamado Primer Mundo, en Estados Unidos, en Luisiana, apodada la parte del país del Tercer Mundo. Desde la perspectiva de Zizek, el desastre natural —el huracán Katrina— reveló la dimensión social de varias maneras: por un lado, con el derrumbe de parte de los muros construidos para proteger la ciudad; por otro, con la desintegración del orden social.
Los efectos del huracán dejaron la ciudad sumergida bajo el agua, incluyendo un error técnico, ya que los diques de protección fallaron, y las autoridades no estaban preparadas para responder con rapidez a las emergencias derivadas del desastre.
Sin embargo, el impacto más fuerte llegó después, como si el desastre natural se repitiera en forma de catástrofe social. El caos que se desató en la ciudad hizo aún más visible la persistente división racial en Estados Unidos, ya que el 68% de la población de Nueva Orleans —negra, pobre y marginada— carecía de medios para salir de la ciudad, dejándola sin asistencia y hambrienta, lo que desencadenó la violenta explosión social.8
Como afirma Zizek, la tensión que condujo a esta explosión en Nueva Orleans es la tensión entre la naturaleza humana y la fuerza de la civilización que la mantiene bajo control. Sin embargo, surge la pregunta: ¿Qué pasaría si, al intentar controlar explosiones como las de la ciudad mencionada, las fuerzas del orden se encontraran confrontadas con la naturaleza del capitalismo en su forma más pura, la lógica de la competencia individual, la despiadada autoafirmación generada por la dinámica capitalista, una naturaleza mucho más amenazante y violenta que todos los huracanes y terremotos?9
La catástrofe de Nueva Orleans causada por el huracán Katrina ofrece un ejemplo similar de lo sublime: “Por brutal que sea el vórtice del huracán, es incapaz de subvertir el vórtice de la dinámica capitalista”10. Se puede observar que, a menudo, la angustia ante el poder incontrolable de la naturaleza o las fuerzas irracionales del hombre también se trasladó, a partir del siglo XIX, a la tecnología, simbolizada por la máquina.
El terror que Voltaire describe sentir ante un terremoto puede compararse con el miedo que la conciencia contemporánea manifiesta hacia muchos productos tecnológicos, debido a su potencial agresivo, un tema desarrollado por el cine y la literatura —entre otras artes— en diversos momentos y lugares históricos.
Javier Villanueva: ¿Cómo cree usted que las mujeres, los hombres y los niños de los centros urbanos, especialmente en las afueras de las grandes conurbaciones, sienten estas ansiedades sobre los males de la ciudad moderna?
6 SUBIRATS, E., 1987, p. 45
7 ZIZEK, Slavoj, 2005, p. 05.
8 IBID.
9 IBID.
10 IBID. Nesta ideia, o autor remete à filosofia kantiana.
7 ZIZEK, Slavoj, 2005, p. 05.
8 IBID.
9 IBID.
10 IBID. Nesta ideia, o autor remete à filosofia kantiana.
MIRADA DISTRAÍDA... MIRADA DE SOLEDAD...
Sylvia Dobry: A menudo, el hombre contemporáneo observa sin rechistar, como si fuera natural, que ríos de coches obstruyen las avenidas en el fondo de los valles, ignorando que antaño fueron ríos cargados de peces, con amplias laderas cubiertas de vegetación, que protegían el agua y nos resguardaban de las inundaciones. O que las cadenas de altos edificios, en la mayoría de las ciudades costeras, como nuevas barreras montañosas, bloquean la vista del mar y dificultan el paso del viento. Aceras extremadamente estrechas, muros que forman corredores opresivos, pasan desapercibidos para gran parte de la población que las transita. En la percepción actual de la ciudad, lo privado predomina sobre lo público, y esta relación se aprecia al considerar el uso de los espacios: calles, plazas y parques a menudo quedan sin uso, sin poder ser disfrutadas Y el hogar se convierte en el espacio urbano de la intimidad, el escondite; situaciones reforzadas por vallas, portones, altos muros e incluso alambres de púas y electrificados, una auténtica arquitectura de guerra. La ciudad deja de ser un lugar de sociabilidad para convertirse en un lugar de soledad. Muchos de sus residentes se refugian en hábitos de autoprotección, fomentados y mitificados por objetos publicitarios, como coches particulares, casas de fin de semana, casas de playa y urbanizaciones cerradas; estos objetos trascienden su valor de uso y también se valoran por lo que representan y expresan11, abarcando lo que Marx llamó el fetichismo de la mercancía.12
Y aquí viene el recuerdo de Tamara, una de las “ciudades invisibles” de Ítalo Calvino:
Uno entra en calles flanqueadas por placas que cuelgan de las paredes. Los ojos no ven cosas, sino figuras de cosas que significan otras cosas. [...] Si un edificio no lleva insignias ni figuras, su forma y lugar en la organización de la ciudad bastan para indicar su función: el palacio real, la prisión, la casa de la moneda, la escuela pitagórica, el burdel. Incluso las mercancías que los vendedores exhiben en sus puestos tienen valor no en sí mismas, sino como símbolos de otras cosas: la frontalera bordada significa elegancia; la litera dorada, poder; los volúmenes de Averroes, sabiduría; la tobillera, voluptuosidad.¹³
J. V.: En su artículo original, Ud. menciona el cine y recuerda una película impactante y contundente que aborda el problema de la vivienda reservada a los sectores más pobres de la población, a veces incluso considerada como “soluciones” por el gobierno o el afán de lucro excesivo del sector privado. ¿De qué película se trata?
Sylvia Dobry: En la película “Redentor”, escuchamos la voz en off de Célio, el joven periodista que asume la misión de salvar a una familia arruinada por una estafa de un promotor inmobiliario que cobró las cuotas, pero no entregó los apartamentos del Edificio Paraíso ni pagó a los trabajadores. Los trabajadores crearon una favela junto al edificio inacabado y finalmente la invadieron, para gran consternación de los compradores engañados.14
Otávio, uno de los personajes, decide ir a Brasilia a pedir ayuda a un ministro, mientras la policía expulsa a los invasores. «El tono de las imágenes conecta a Brasilia con la especulación inmobiliaria, vista como un símbolo de la corrupción nacional», según Xavier.15
Esta especulación inmobiliaria también se refleja en la compleja situación en la que la mitad de las favelas de São Paulo se ubican a orillas de los embalses que abastecen de agua a la ciudad. La creciente expansión periférica de la metrópoli paulista hacia los embalses de Guarapiranga y Billings en las últimas décadas lleva la marca de la desigualdad social, sumada a la degradación ambiental de la región, que debería ser protegida por su papel como productora y reservatorio de agua.
Aunque la legislación que protege las fuentes de agua lleva más de 30 años en vigor, al no haberse establecido mecanismos de gestión y control, se ha permitido que mecanismos perversos del mercado devalúen la región y, en consecuencia, alberguen a poblaciones pobres desplazadas de zonas más valiosas. Estas películas destacaron visualmente que, en Brasil, como en otros países, las ciudades contienen partes que pueden clasificarse, como lo expresa Ermínia Maricato, como no-ciudades: las extensas periferias, que, además de viviendas autoconstruidas, solo cuentan con transporte, electricidad y agua precarios.16
El contraste entre los barrios del “primer mundo” y las extensas periferias similares a favelas evoca la idea de que el proceso de desarrollo capitalista es desigual y combinado.
La realidad presenta una unidad de opuestos, una simbiosis en la que lo “atrasado” alimenta lo “moderno” o, dicho de otro modo, el subdesarrollo se integra en la formación capitalista.17
La vivienda urbana en la periferia se construye en gran medida mediante esfuerzos colectivos, en un marco de ilegalidad sustentado por una estructura territorial arcaica, lo que contribuye al bajo coste de la reproducción laboral y crea un paisaje de barrios marginales con escasa infraestructura.
Frente a esta realidad, es notable, como afirma Ermínia Maricato, cómo la forma en que pensamos la ciudad y las soluciones propuestas para sus problemas siguen, salvo excepciones, alejadas de la realidad.18
Por lo tanto, es importante encontrar brechas que, a contracorriente del proceso de alienación —del cual forma parte el sentimiento de no pertenecer al propio lugar de vida—, permitan encontrar propuestas positivas para los problemas actuales de las ciudades, un espacio de contradicciones contrastantes.
11 FERRARA D’ALESSIO,
Lucrecia, 1999, p. 222.
12 Para mais detalhes, ver MARX, K. O capital, V. Seção 4. Várias edições.
13 CALVINO, Ítalo, s/data:p.08 - 09, disponível em:http:// ppta.dominiotemporario. com/doc/Italo-Calvino-AsCidades-Invisiveis.pdfacesso em 01/11/2010. Fig. 6. Tamara (uma das “cidades invisíveis”, de Ítalo Calvino). Ilustração realizada por Sylvia Dobry, publicada por Faggin Pereira Leite, Maria Ângela, 1999: 49
12 Para mais detalhes, ver MARX, K. O capital, V. Seção 4. Várias edições.
13 CALVINO, Ítalo, s/data:p.08 - 09, disponível em:http:// ppta.dominiotemporario. com/doc/Italo-Calvino-AsCidades-Invisiveis.pdfacesso em 01/11/2010. Fig. 6. Tamara (uma das “cidades invisíveis”, de Ítalo Calvino). Ilustração realizada por Sylvia Dobry, publicada por Faggin Pereira Leite, Maria Ângela, 1999: 49
En este contexto, es importante que la formación en arquitectura y urbanismo comparta este mismo objetivo, destacando las contradicciones del paisaje, condición indispensable para la producción de una reflexión crítica que permita la elucidación de soluciones creativas. En este sentido, me vienen a la mente las palabras finales de Italo Calvino en Ciudades Invisibles:
Hay dos maneras de evitar el sufrimiento. La primera es fácil para la mayoría: aceptar el infierno y formar parte de él hasta el punto de dejar de notarlo. La segunda es arriesgada y requiere atención y aprendizaje continuos: intentar saber quién y qué, en medio del infierno, no es infierno, preservarlo y hacerle espacio.
- Obtener vínculo
- X
- Correo electrónico
- Otras apps