Moradia e favela | SYLVIA DOBRY | Febrero 2026

A Ceilândia, uma favela em Brasília | JAVIER VILLANUEVA | Febrero 2026

Por: Javier Villanueva

A Ceilândia, uma favela em Brasília 

A tragédia acontecida nos dias finais de outubro nas favelas da Penha e do Alemão, na cidade do Rio de Janeiro, com a morte de mais de 120 pessoas (números ainda não oficializados) numa megaoperação militar contra o narcotráfico deixa claro que as comunidades mais carentes não recebem o respeito e os cuidados necessários num momento tão grave como esse.

Os amargos acontecimentos nos levam a aprofundar no tema das favelas como comunidades nas quais moram milhões de brasileiras e brasileiros e que apenas são menos esquecidos que a também enorme população de moradores de rua, os chamados sem-teto.

O conceito de favela nasceu no Rio de Janeiro a partir da ocupação dos morros por ex-soldados da Guerra de Canudos, que batizaram o local de “Morro da Favela” em homenagem ao nome de uma planta que crescia na região da guerra. O conflito armado tinha sido motivado pela miséria e a brutal desigualdade social no sertão nordestino, onde Antônio Conselheiro liderou uma comunidade que buscava uma vida mais digna e lutava contra os latifundiários e a República. 

Terminada a guerra com a derrota e Canudos, os soldados que lutaram no sertão não receberam seus soldos. Essa situação gerou protestos após o conflito, com os soldados desmobilizados indo protestar ao Rio de Janeiro, capital da república na época, onde acabaram acampando no Morro da Providência,

Esse evento inicial foi seguido por outros processos sociais graves, como a desocupação de moradias muito pobres -chamadas de cortiços- durante as reformas urbanas que seguiram, e também a falta de habitação para as mulheres e homens libertos após a abolição da escravatura, o que foi empurrando a população mais pobre para as encostas dos morros.

Já a Ceilândia surgiu em 1971 em Brasília -nova capital da república desde abril de 1960- a partir da Campanha de Erradicação de Invasões (CEI) como um plano do governo para realocar pessoas que viviam em áreas irregulares, as chamadas “invasões”, no centro de Brasília. O nome CEI + lândia (cidade) deu origem a Ceilândia. As primeiras famílias foram transferidas para a nova região em março de 1971. Apesar de iniciar com precariedade, a Ceilândia tornou-se a cidade mais populosa do Distrito Federal, com uma rica cultura.  

Ocorre que a no final dos anos 1960, a realidade da população do Distrito Federal era bem diferente do que os idealizadores de Brasília imaginavam ou tinham sonhado nas suas pranchetas. Muito provavelmente o urbanista Lúcio Costa, que criou o Plano Piloto, e o arquiteto Oscar Niemeyer, responsável pelo projeto arquitetônico dos principais edifícios e monumentos da cidade, ou o engenheiro Joaquim Cardozo, jamais teriam imaginado que em menos de uma década já haveria cerca de 20% dos habitantes morando em ocupações irregulares e sem uma infraestrutura básica para a sobrevivência. 

De fato, nove anos depois da sua fundação, a capital federal tinha 79 mil pessoas em situação de pobreza extrema, em quase 15 mil barracos nos que se amontoavam os migrantes que chegavam e se encontravam com a falta total de habitações populares. Esta situação extrema levou à construção de moradias em áreas desabitadas e em ocupações descontroladas. 

Para minimizar a situação, o governador Hélio Prates criou a Campanha de Erradicação de Invasões (CEI), o primeiro projeto de erradicação de favelas do Distrito Federal.

CONTEXTO HISTÓRICO

Diferente dos anos da construção e inauguração de Brasília, que foi uma época de desenvolvimento e democracia, a criação de Ceilândia ocorreu durante a ditadura militar de 1964-85. O então governador Hélio Prates, e sua esposa Vera Silveira, queriam resolver o problema das ocupações irregulares e da precariedade das moradias nas proximidades do centro de Brasília. Em março de 1971, as primeiras famílias foram transferidas da Vila do IAPI e de outras áreas para Ceilândia, um projeto assinado pelo arquiteto Ney Gabriel de Sousa.    

Comandada pela primeira-dama Vera Silveira, a CEI começou a atuar em 1969 e demarcou 18 mil lotes em uma área de 20 mil km2 ao norte de Taguatinga. Para lá seriam transferidos mora - dores das favelas da Vila do IAPI, Tenório, Esperança, Bernardo Sayão e do Morro do Querosene.

No início, porém, a cidade não tinha infraestrutura básica, com o abastecimento de água encanada só sendo implementado anos depois.  Contudo, ao longo dos anos, a área urbana se expan - diu com a criação de novos bairros e quadras, como Ceilândia Norte, Sul e o Setor O. Ceilândia só foi oficializada como Região Administrativa (IX) em outubro de 1989, mais de 18 anos após a sua fundação. 

IDENTIDADE CULTURAL

A cidade tem uma forte identidade nordestina, com muitos migrantes do Nordeste, e por isso abriga a Casa do Cantador, um espaço importante para a cultura nordestina, e a Feira Central, um centro de artesanato e culinária regional. O que não tira a primeira impressão em relação ao seu nascimento, que lembra tristemente das misérias da África do Sul, no pior período do apartheid.

Desde os anos de 1960, o nome CEI ficava em uma placa que era a referência para quem chegava ao loteamento, e foi tão popular, que terminou por batizar uma nova cidade: Ceilândia, oficialmente criada em março de 1971, quando as primeiras famílias começaram a transferência para o local.

Já a caixa d’água, símbolo da cidade, foi inaugurada no ter - ceiro aniversário de Ceilândia, 27 de março de 1974, tornando-se imediatamente um ponto de referência da cidade que funciona até hoje.

Passando os anos e com a quantidade crescente de moradores, novas áreas foram criadas em Ceilândia. Em 1976, foi inaugurada a QNO (Quadra Norte “O”) e, em 1977, o Núcleo Guariroba, situado em Ceilândia Sul. Depois foi a vez dos Setores “P” Norte e “P” Sul (1979). Em 1985, foi expandido o Setor “O”, em 1988 houve o acréscimo do Setor “N”, em 1989, a QNQ e, em 1992, o Setor “R”.

Atualmente, Ceilândia tem mais de 400 mil habitantes e é a região administrativa com o maior número de nordestinos e de comerciários do DF. Também é a única cidade do Distrito Federal, fora do Plano Piloto, que exibe uma obra de Oscar Niemeyer, a Casa do Cantador, inaugurada em novembro de 1986.

Além de ser das maiores cidades do Distrito Federal em número de habitantes também tem altos índices de criminalidade e uma grande quantidade de usuários de drogas circulando pelas ruas até com uma quadra atrás da Caixa D’Água com uma rua que é a cracolândia ceilandense.

O profesor Creomar de Souza, da Fundação Dom Cabral, explica que “Juscelino Kubistchek foi muito bem-sucedido em transformar Brasília em uma terra de sonhos e oportunidades no imaginário popular”, mas não conseguiu dar soluções para o enorme fluxo de população que essas promessas atraíram.

Por sua vez, o professor Rogério Lustosa Victor afirma que Brasília conseguiu em 60 anos sintetizar a “tragédia brasileira”, evidenciando os enormes abismos sociais em pouquíssimo tempo. “Temos o Plano Piloto, como região com renda per capita altís - sima para a realidade brasileira, nível de escolaridade também alto, ambiência urbana, muito verde etc. E temos a Ceilândia –o oposto: renda baixa, desemprego alto, escolaridade baixa”.

Hoje, a Ceilândia é, segundo a Codeplan -Companhia de Planejamento do Distrito Federal-, a maior e mais populosa região administrativa da capital federal, com meio milhão de habitantes. A 30km do centro de Brasília, há diversos problemas de infraestrutura, educação e, principalmente, de mobilidade, com um transporte público caro e ineficiente.

Porém, a 35km do centro, a maior favela de Brasília, e uma das maiores do Brasil, é a Favela Sol Nascente, localizada na região oeste da capital federal. Conforme o Censo IBGE 2024, a população da Sol Nascente ultrapassa os 100 mil habitantes, com cerca de 101.866 moradores e mais de 32 mil domicílios, superando a Rocinha, no Rio de Janeiro, e dobrando a população de Heliópolis, a maior de São Paulo, e Paraisópolis, a segunda.

Esse é o panorama e os números frios que tapam as dores de milhares de vidas ao longo do país e que, na última semana de outubro passado mostrou toda a crueldade, o racismo e a falta de respeito mais elementar perante essa enorme porção da nossa nação.

A Ceilãndia, una favela en brasilia

La tragedia ocurrida a finales de octubre en las favelas de Penha y Alemão, en Río de Janeiro, con la muerte de más de 120 personas (las cifras exactas aún no han sido confirmadas oficialmente) en un operativo militar contra el narcotráfico, evidencia que las comunidades más pobres no reciben el respeto ni la atención necesarios en un momento tan crítico. Estos amargos sucesos nos llevan a profundizar en el tema de las favelas, comunidades donde viven millones de brasileños, y que solo son menos olvidadas que la igualmente enorme población de personas sin hogar, los sintecho o en situación de calle.

El concepto de favela se originó en Río de Janeiro a partir de la ocupación de las colinas por exsoldados de la Guerra de Canudos, quienes bautizaron el lugar como “Morro da Favela” en homenaje a una planta que crecía en la región. El conflicto armado fue motivado entre 1896 y 97 por la miseria y la brutal desigualdad social en el interior del noreste, donde Antônio Conselheiro lideraba una comunidad que buscaba una vida más digna y luchaba contra los terratenientes y la recién instalada República.

Tras el fin de la guerra con la derrota de Canudos, los soldados que lucharon en el interior no recibieron su paga. Esta situación generó protestas, y los soldados desmovilizados se dirigieron a Río de Janeiro, la capital de la República en aquel entonces, para manifestarse, donde acamparon en el Morro da Providência.

A este acontecimiento inicial le siguieron otros procesos sociales graves, como el desalojo de viviendas precarias —conocidas como vecindades en México o conventillos en el Río de la Plata— durante las reformas urbanísticas posteriores, y la falta de vivienda para las mujeres y los hombres liberados tras la abolición de la esclavitud, lo que obligó a la población más pobre a asentarse en las laderas de las colinas circundantes.

Por su parte, Ceilândia surgió en 1971 en Brasilia —la nueva capital de la república desde abril de 1960— a partir de la Campaña para la Erradicación de las Invasiones (CEI), un plan gubernamental para reubicar en el centro de Brasilia a las personas que vivían en asentamientos irregulares, las llamadas «invasiones». El nombre CEI + lândia (ciudad) dio origen a Ceilândia. Las primeras familias fueron trasladadas a la nueva región en marzo de 1971. A pesar de sus inicios bastante precarios, Ceilândia se convirtió en la ciudad más poblada del Distrito Federal, con una rica cultura propia.

Resulta que, a finales de la década de 1960, la realidad de la población del Distrito Federal era muy distinta de lo que los planificadores de Brasilia habían imaginado o soñado en sus planos, encima de sus mesas de dibujo. Probablemente, ni el urbanista Lúcio Costa, creador del Plan Piloto, ni el arquitecto Oscar Niemeyer, responsable del diseño arquitectónico de los principales edificios y monumentos de la ciudad, ni el ingeniero Joaquim Cardozo, habrían imaginado que, en menos de una década, cerca del 20% de los habitantes ya viviría en asentamientos irregulares sin la mínima infraestructura básica para sobrevivir.

De hecho, nueve años después de su fundación, la capital federal contaba con 79 mil personas viviendo en extrema pobreza, en casi 15 mil chozas en donde los migrantes recién llegados se hacinaban, enfrentando una situación de total falta de viviendas asequibles. Esta condición extrema propició la construcción de viviendas en zonas antes deshabitadas y en asentamientos irregulares e ilegales. Para mitigar la situación, el gobernador Hélio Prates creó la Campaña para la Erradicación de las Invasiones (CEI), el primer proyecto de supresión de barrios marginales en el Distrito Federal.

CONTEXTO HISTÓRICO

A diferencia de los años de construcción e inauguración de Brasilia, que fue una época de desarrollo y democracia, la creación de Ceilândia tuvo lugar durante la dictadura militar de 1964-1985. El entonces gobernador Hélio Prates y su esposa, Vera Silveira, buscaban solucionar el problema de las ocupaciones irregulares y la precariedad habitacional cerca del centro de Brasilia. En marzo de 1971, las primeras familias fueron trasladadas desde Vila do IAPI y otras zonas a Ceilândia, un proyecto diseñado por el arquitecto Ney Gabriel de Sousa.

Dirigida por la Primera Dama Vera Silveira, la CEI comenzó a operar en 1969 y delimitó 18.000 lotes en un área de 20 mil km² al norte de Taguatinga. Allí se reubicarían los residentes de las favelas de Vila do IAPI, Tenório, Esperança, Bernardo Sayão y Morro do Querosene.

Inicialmente, la ciudad carecía de infraestructura básica, y el suministro de agua potable por tubería no se implementó hasta años después. Sin embargo, con el paso del tiempo, el área urbana se expandió con la creación de nuevos barrios y manzanas, como Ceilândia Norte, Sul y Setor O. Ceilândia fue reconocida oficialmente como Región Administrativa (IX) recién en octubre de 1989, más de 18 años después de su fundación.

IDENTIDAD CULTURAL

La ciudad posee una fuerte identidad que refleja al pueblo del nordeste brasileño, con muchos migrantes de esa región. Por ello, alberga la Casa do Cantador, un importante espacio para la cultura del nordeste, y la Feira Central, un centro de artesanía y gastronomía regional. Esto no desmerece la dura impresión inicial de sus orígenes.

Desde la década de 1960, el nombre CEI figura en un letrero que sirve de referencia para quienes llegan a la urbanización. Su popularidad fue tal que terminó dando nombre a una nueva ciudad: Ceilândia, creada oficialmente en marzo de 1971, cuando las primeras familias comenzaron a mudarse al lugar.

La torre de agua, símbolo de la ciudad, fue inaugurada en el tercer aniversario de Ceilândia, el 27 de marzo de 1974, convirtiéndose de inmediato en un punto de referencia que se mantiene en uso hasta el día de hoy.

Con el paso de los años, y el creciente número de residentes, se crearon nuevas zonas en Ceilândia. En 1976 se inauguró el QNO (Quadra Norte “O”) y en 1977 se estableció el Núcleo Guariroba, ubicado en Ceilândia Sul. Posteriormente, en 1979, se crearon los Sectores Norte y Sul “P”. En 1985 se amplió el Sector “O”, en 1988 se añadió el Sector “N”, en 1989 el QNQ y en 1992 el Sector “R”.

Actualmente, Ceilândia cuenta con más de 400 mil habitantes y es la región administrativa con mayor número de personas provenientes del Nordeste de Brasil y de trabajadores del sector comercial en el Distrito Federal. Es también la única ciudad del Distrito Federal, fuera del Plano Piloto, que cuenta con una obra de Oscar Niemeyer: la Casa do Cantador, inaugurada en noviembre de 1986.

Además de ser una de las ciudades más pobladas del Distrito Federal, presenta altos índices de criminalidad y una gran cantidad de dependientes químicos en sus calles, incluyendo una cuadra detrás del depósito de agua donde se encuentra una calle conocida por el consumo de crack o “paco” en Ceilândia.

El profesor Creomar de Souza, de la Fundación Dom Cabral, explica que “Juscelino Kubitschek logró transformar Brasilia en una tierra de sueños y oportunidades en el imaginario popular”, pero no supo dar respuesta a la enorme afluencia de personas que atrajeron estas promesas.

Por su parte, el profesor Rogério Lustosa Victor afirma que Brasilia, en 60 años, logró sintetizar la “tragedia brasileña”, evidenciando las enormes divisiones sociales en muy poco tiempo. “Tenemos el Plano Piloto, una región con una renta per cápita muy alta para la realidad brasileña, un alto nivel educativo, un entorno urbano, muchos espacios verdes, etc. Y tenemos Ceilândia, todo lo contrario: bajos ingresos, alto desempleo, baja escolaridad”.

Hoy, según Codeplan, la empresa de planificación del Distrito Federal, Ceilândia es la región administrativa más grande y poblada de la capital federal, con medio millón de habitantes. Ubicada a 30 km del centro de Brasilia, la ciudad presenta varios problemas de infraestructura, educación y, sobre todo, movilidad, con un transporte público caro e ineficiente. Sin embargo, a 35 km del centro, la favela más grande de Brasilia y una de las más grandes de Brasil, es Sol Nascente, ubicada en la zona oeste de la capital federal. Según el Censo IBGE de 2024, la población de Sol Nascente supera los 100 mil habitantes, con aproximadamente 101.866 residentes y más de 32 mil hogares, superando a la Rocinha en Río de Janeiro y duplicando la población de Heliópolis, la más grande de São Paulo, y de Paraisópolis, la segunda más grande de esa ciudad.

Este es el panorama y las frías cifras que ocultan el sufrimiento de miles de personas en todo el país y que, en la última semana de octubre, pusieron de manifiesto toda la crueldad, el racismo y la más básica falta de respeto en relación a estas enormes regiones de nuestra nación.