A educação que transforma | PROFª SIMONE REGO | Ocubre 2026

O búfalo | CLARICE LISPECTOR | Octubre 2026

Por: Clarice Lispector


O búfalo

O leão lambeu a 
testa da leoa. Dois ani-
mais louros. A mulher 
desviou os olhos da 
jaula, onde só o cheiro 
lembrava a carnificina 
que ela viera buscar 
no Zoológico.

Mas era primavera. Até o leão lambeu a testa glabra da leoa. Os dois animais louros. A mulher desviou os olhos da jaula, onde só o cheiro quente lembrava a carnificina que ela viera buscar no Jardim Zoológico. Depois o leão passeou enjubado e tranquilo, e a leoa lentamente reconstituiu sobre as patas estendidas a cabeça de uma esfinge. “Mas isso é amor, é amor de novo”, revoltou-se a mulher tentando encontrar-se com o próprio ódio, mas era primavera e dois leões se tinham amado. Com os punhos nos bolsos do casaco, olhou em torno de si, rodeada pelas jaulas, enjaulada pelas jaulas fechadas. Continuou a andar. Os olhos estavam tão concentrados na procura que sua vista às vezes se escurecia num sono, e então ela se refazia como na frescura de uma cova.

Mas a girafa era uma virgem de tranças recém-cortadas. Com a tola inocência do que é grande e leve e sem culpa. A mulher do casaco marrom desviou os olhos, doente, doente. Sem conseguir — diante da aérea girafa pousada, diante daquele silencioso pássaro sem asas — sem conseguir encontrar dentro de si o ponto pior de sua doença, o ponto mais doente, o ponto de ódio, ela que fora ao Jardim Zoológico para adoecer. Mas não diante da girafa que mais era paisagem que um ente. Não diante daquela carne que se distraíra em altura e distância, a girafa quase verde. Procurou outros animais, tentava aprender com eles a odiar. O hipopótamo, o hipopótamo úmido. O rolo roliço de carne, carne redonda e muda esperando outra carne roliça e muda. Não. Pois havia tal amor humilde em se manter apenas carne, tal doce martírio em não saber pensar.

Mas era primavera, e, apertando o punho no bolso do casaco, ela mataria aqueles macacos em levitação pela jaula, macacos felizes como ervas, macacos se entrepulando suaves, a macaca com olhar resignado de amor, e a outra macaca dando de mamar. Ela os mataria com quinze secas balas: os dentes da mulher se apertaram até o maxilar doer. A nudez dos macacos. O mundo que não via perigo em ser nu. Ela mataria a nudez dos macacos. Um macaco também a olhou segurando as grades, os braços descarnados abertos em crucifixo, o peito pelado exposto semorgulho. Mas não era no peito que ela mataria, era entre os olhos do macaco que ela mataria, era entre aqueles olhos que a olhavam sem pestanejar. De repente a mulher desviou o rosto: é que os olhos do macaco tinham um véu branco gelatinoso cobrindo a pupila, nos olhos a doçura da doença, era um macaco velho — a mulher desviou o rosto, trancando entre os dentes um sentimento que ela não viera buscar, apressou os passos, ainda voltou a cabeça espantada para o macaco de braços abertos: ele continuava a olhar para a frente. “Oh não, não isso”, pensou. E enquanto fugia, disse: “Deus, me ensine somente a odiar.”

“Eu te odeio”, disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la. “Eu te odeio”, disse muito apressada. Mas não sabia sequer como se fazia. Como cavar na terra até encontrar a água negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma? Andou pelo Jardim Zoológico entre mães e crianças. Mas o elefante suportava o próprio peso. Aquele elefante inteiro a quem fora dado com uma simples pata esmagar.

Mas que não esmagava. Aquela potência que, no entanto, se deixaria docilmente conduzir a um circo, elefante de crianças. E os olhos, numa bondade de velho, presos dentro da grande carne herdada. O elefante oriental. Também a primavera oriental, e tudo nascendo, tudo escorrendo pelo riacho.

A mulher então experimentou o camelo. O camelo em trapos, corcunda, mastigando a si próprio, entregue ao processo de conhecer a comida. Ela se sentiu fraca e cansada, há dois dias mal comia. Os grandes cílios empoeirados do camelo sobre olhos que se tinham dedicado à paciência de um artesanato interno. A paciência, a paciência, a paciência, só isso ela encontrava na primavera ao vento. Lágrimas encheram os olhos da mulher, lágrimas que não correram, presas dentro da paciência de sua carne herdada. Somente o cheiro de poeira do camelo vinha de encontro ao que ela viera: ao ódio seco, não a lágrimas. Aproximou-se das barras do cercado, aspirou o pó daquele tapete velho onde sangue cinzento circulava, procurou a tepidez impura, o prazer percorreu suas costas até o mal-estar, mas não ainda o mal-estar que ela viera buscar. No estômago contraiu-se em cólica de fome a vontade de matar. Mas não o camelo de estopa. “Oh, Deus, quem será meu par neste mundo?”

Então foi sozinha ter a sua violência. No pequeno parque de diversões do Jardim Zoológico esperou meditativa na fila de namorados pela sua vez de se sentar no carro da montanha-russa.

E ali estava agora sentada, quieta no casaco marrom. O banco ainda parado, a maquinaria da montanha-russa ainda parada. Separada de todos no seu banco parecia estar sentada numa Igreja. Os olhos baixos viam o chão entre os trilhos. O chão onde simplesmente por amor — amor, amor, não o amor! — onde por puro amor nasciam entre os trilhos ervas de um verde leve tão tonto que a fez desviar os olhos em suplício de tentação. A brisa arrepiou-lhe os cabelos da nuca, ela estremeceu recusando, em tentação recusando, sempre tão mais fácil amar.

Mas de repente foi aquele voo de vísceras, aquela parada de um coração que se surpreende no ar, aquele espanto, a fúria vitoriosa com que o banco a precipitava no nada e imediatamente a soerguia como uma boneca de saia levantada, o profundo ressentimento com que ela se tornou mecânica, o corpo automaticamente alegre — o grito das namoradas! — seu olhar ferido pela grande surpresa, a ofensa, “faziam dela o que queriam”, a grande ofensa — o grito das namoradas! — a enorme perplexidade de estar espasmodicamente brincando, faziam dela o que queriam, de repente sua candura exposta. Quantos minutos? os minutos de um grito prolongado de trem na curva, e a alegria de um novo mergulho no ar insultando-a como um pontapé, ela dançando descompassada ao vento, dançando apressada, quisesse ou não quisesse o corpo sacudia-se como o de quem ri, aquela sensação de morte às gargalhadas, morte sem aviso de quem não rasgou antes os papéis da gaveta, não a morte dos outros, a sua, sempre a sua. Ela que poderia ter aproveitado o grito dos outros para dar seu urro de lamento, ela se esqueceu, ela só teve espanto.

“O búfalo” é parte do livro Laços de Família.

E agora este silêncio também súbito. Estavam de volta a terra, a maquinaria de novo inteiramente parada. Pálida, jogada fora de uma Igreja, olhou a terra imóvel de onde partira e aonde de novo fora entregue.

Ajeitou as saias com recato. Não olhava para ninguém. Contrita como no dia em que no meio de todo o mundo tudo o que tinha na bolsa caíra no chão e tudo o que tivera valor enquanto secreto na bolsa, ao ser exposto na poeira da rua, revelara a mesquinharia de uma vida íntima de precauções: pó de arroz, recibo, caneta- -tinteiro, ela recolhendo do meio-fio os andaimes de sua vida. Levantou-se do banco estonteada como se estivesse se sacudindo de um atropelamento. Embora ninguém prestasse atenção, alisou de novo a saia, fazia o possível para que não percebessem que estava fraca e difamada, protegia com altivez os ossos quebrados. Mas o céu lhe rodava no estômago vazio; a terra, que subia e descia a seus olhos, ficava por momentos distante, a terra que é sempre tão difícil. Por um momento a mulher quis, num cansaço de choro mudo, estender a mão para a terra difícil: sua mão se estendeu como a de um aleijado pedindo. Mas como se tivesse engolido o vácuo, o coração surpreendido.

Só isso? Só isto. Da violência, só isto.

Recomeçou a andar em direção aos bichos. O quebranto da montanha-russa deixara-a suave. Não conseguiu ir muito adiante: teve que apoiar a testa na grade de uma jaula, exausta, a respiração curta e leve. De dentro da jaula o quati olhou-a. Ela o olhou. Nenhuma palavra trocada. Nunca poderia odiar o quati que no silêncio de um corpo indagante a olhava. Perturbada, desviou os olhos da ingenuidade do quati. O quati curioso lhe fazendo uma pergunta como uma criança pergunta. E ela desviando os olhos, escondendo dele a sua missão mortal. A testa estava tão encostada às grades que por um instante lhe pareceu que ela estava enjaulada e que um quati livre a examinava.

A jaula era sempre do lado onde ela estava: deu um gemido que pareceu vir da sola dos pés. Depois outro gemido.

Então, nascida do ventre, de novo subiu, implorante, em onda vagarosa, a vontade de matar — seus olhos molharam-se gratos e negros numa quase felicidade, não era o ódio ainda, por enquanto apenas a vontade atormentada de ódio como um desejo, à promessa do desabrochamento cruel, um tormento como de amor, a vontade de ódio se prometendo sagrado sangue e triunfo, a fêmea rejeitada espiritualizara-se na grande esperança.

Mas onde, onde encontrar o animal que lhe ensinasse a ter o seu próprio ódio? o ódio que lhe pertencia por direito mas que em dor ela não alcançava? onde aprender a odiar para não morrer de amor? E com quem? O mundo de primavera, o mundo das bestas que na primavera se cristianizam em patas que arranham mas não dói... oh não mais esse mundo! não mais esse perfume, não esse arfar cansado, não mais esse perdão em tudo o que um dia vai morrer como se fora para dar-se. Nunca o perdão, se aquela mulher perdoasse mais uma vez, uma só vez que fosse, sua vida estaria perdida — deu um gemido áspero e curto, o quati sobressaltou- -se — enjaulada olhou em torno de si, e como não era pessoa em quem prestassem atenção, encolheu-se como uma velha assassina solitária, uma criança passou correndo sem vê-la. Recomeçou então a andar, agora apequenada, dura, os punhos de novo fortificados nos bolsos, a assassina incógnita, e tudo estava preso no seu peito. No peito que só sabia resignar-se, que só sabia suportar, só sabia pedir perdão, só sabia perdoar, que só aprendera a ter a doçura da infelicidade, e só aprendera a amar, a amar, a amar. Imaginar que talvez nunca experimentasse o ódio de que sempre fora feito o seu perdão, fez seu coração gemer sem pudor, ela começou a andar tão depressa que parecia ter encontrado um súbito destino. Quase corria, os sapatos a desequilibravam, e davam-lhe uma fragilidade de corpo que de novo a reduzia a fêmea de presa, os passos tomaram mecanicamente o desespero implorante dos delicados, ela que não passava de uma delicada. Mas, pudesse tirar os sapatos, poderia evitar a alegria de andar descalça? como não amar o chão em que se pisa? Gemeu de novo, parou diante das barras de um cercado, encostou o rosto quente no enferrujado frio do ferro. De olhos profundamente fechados procurava enterrar a cara entre a dureza das grades, a cara tentava uma passagem impossível entre barras estreitas, assim como antes vira o macaco recém-nascido buscar na cegueira da fome o peito da macaca. Um conforto passageiro veio-lhe do modo como as grades pareceram odiá-la opondo-lhe a resistência de um ferro gelado.

Abriu os olhos devagar. Os olhos vindos de sua própria escuridão nada viram na desmaiada luz da tarde.

Ficou respirando. Aos poucos recomeçou a enxergar, aos poucos as formas foram se solidificando, ela cansada, esmagada pela doçura de um cansaço. Sua cabeça ergueu-se em indagação para as árvores de brotos nascendo, os olhos viram as pequenas nuvens brancas. Sem esperança, ouviu a leveza de um riacho. Abaixou de novo a cabeça e ficou olhando o búfalo ao longe. Dentro de um casaco marrom, respirando sem interesse, ninguém interessado nela, ela não interessada em ninguém.

Certa paz enfim. A brisa mexendo nos cabelos da testa como nos de pessoa recém-morta, de testa ainda suada. Olhando com isenção aquele grande terreno seco rodeado de grades altas, o terreno do búfalo. O búfalo negro estava imóvel no fundo do terreno. Depois passeou ao longe com os quadris estreitos, os quadris concentrados. O pescoço mais grosso que as ilhargas contraídas. Visto de frente, a grande cabeça mais larga que o corpo impedia a visão do resto do corpo, como uma cabeça decepada. E na cabeça os cornos. De longe ele passeava devagar com seu torso. Era um búfalo negro. Tão preto que a distância a cara não tinha traços.

Sobre o negror a alvura erguida dos cornos.

A mulher talvez fosse embora, mas o silêncio era bom no cair da tarde.

E no silêncio do cercado, os passos vagarosos, a poeira seca sob os cascos secos. De longe, no seu calmo passeio, o búfalo negro olhou-a um instante. No instante seguinte, a mulher de novo viu apenas o duro músculo do corpo. Talvez não a tivesse olhado. Não podia saber, porque das trevas da cabeça ela só distinguia os contornos. Mas de novo ele pareceu tê-la visto ou sentido.

A mulher aprumou um pouco a cabeça, recuou-a ligeiramente em desconfiança. Mantendo o corpo imóvel, a cabeça recuada, ela esperou.

E mais uma vez o búfalo pareceu notá-la. Como se ela não tivesse suportado sentir o que sentira, desviou subitamente o rosto e olhou uma árvore. 

Seu coração não bateu no peito, o coração batia oco entre o estômago e os intestinos.

O búfalo deu outra volta lenta. A poeira. A mulher apertou os dentes, o rosto todo doeu um pouco.

O búfalo com o torso preto. No entardecer luminoso era um corpo enegrecido de tranquila raiva, a mulher suspirou devagar. Uma coisa branca espalhara-se dentro dela, branca como papel, fraca como papel, intensa como uma brancura. A morte zumbia nos seus ouvidos. Novos passos do búfalo trouxeram-na a si mesma e, em novo longo suspiro, ela voltou à tona. Não sabia onde estivera. Estava de pé, muito débil, emergida daquela coisa branca e remota onde estivera.

E de onde olhou de novo o búfalo.

O búfalo agora maior. O búfalo negro. Ah, disse de repente com uma dor. O búfalo de costas para ela, imóvel. O rosto esbranquiçado da mulher não sabia como chamá-lo. Ah! disse provocando. Ah! disse ela. Seu rosto estava coberto de mortal brancura, o rosto subitamente emagrecido era de pureza e veneração. Ah! instigou-o com os dentes apertados. Mas de costas para ela, o búfalo inteiramente imóvel.  

Apanhou uma pedra no chão e jogou para dentro do cercado. A imobilidade do torso, mais negra ainda se aquietou: a pedra rolou inútil.

Ah! disse sacudindo as barras. Aquela coisa branca se espa - lhava dentro dela, viscosa como uma saliva. O búfalo de costas.

Ah, disse. Mas dessa vez porque dentro dela escorria enfim um primeiro fio de sangue negro.

O primeiro instante foi de dor. Como se para que escorresse este sangue se tivesse contraído o mundo.

Ficou parada, ouvindo pingar como numa grota aquele primeiro óleo amargo, a fêmea desprezada. Sua força ainda estava presa entre barras, mas uma coisa incompreensível e quente, enfim incompreensível, acontecia, uma coisa como uma alegria sentida na boca. Então o búfalo voltou-se para ela.

O búfalo voltou-se, imobilizou-se, e a distância encarou-a.

Eu te amo, disse ela então com ódio para o homem cujo grande crime impunível era o de não querê-la. Eu te odeio, disse implo - rando amor ao búfalo.

Enfim provocado, o grande búfalo aproximou-se sem pressa.

Ele se aproximava, a poeira erguia-se. A mulher esperou de braços pendidos ao longo do casaco. Devagar ele se aproximava. Ela não recuou um só passo. Até que ele chegou às grades e ali parou. Lá estavam o búfalo e a mulher, frente a frente. Ela não olhou a cara, nem a boca, nem os cornos. Olhou seus olhos.

E os olhos do búfalo, os olhos olharam seus olhos. E uma palidez tão funda foi trocada que a mulher se entorpeceu dormente. De pé, em sono profundo. Olhos pequenos e vermelhos a olhavam. Os olhos do búfalo. A mulher tonteou surpreendida, lentamente meneava a cabeça. O búfalo calmo. Lentamente a mulher meneava a cabeça, espantada com o ódio com que o búfalo, tranquilo de ódio, a olhava.

Quase inocentada, meneando uma cabeça incrédula, a boca entreaberta. Inocente, curiosa, entrando cada vez mais fundo dentro daqueles olhos que sem pressa a fitavam, ingênua, num suspiro de sono, sem querer nem poder fugir, presa ao mútuo assassinato. Presa como se sua mão se tivesse grudado para sempre ao punhal que ela mesma cravara. Presa, enquanto escorregava enfeitiçada ao longo das grades. Em tão lenta vertigem que antes do corpo baquear macio a mulher viu o céu inteiro e um búfalo.  

El Búfalo

El león lamió la fren-
te de la leona. Dos ani-
males rubios. La mujer 
apartó la mirada de 
la jaula, donde el olor 
recordaba la carnicería 
que había venido a bus-
car en el zoológico.

Pero era primavera. Incluso el león lamió la frente de la leona. La mujer apartó la mirada de la jaula, donde el olor recordaba la carnicería que había venido a buscar en el zoológico. Después el león paseó, melenudo y con calma, y la leona lentamente se reconstituyó sobre sus patas extendidas en la cabeza de una esfinge. “Pero es amor, es un nuevo amor”, se rebeló la mujer, tratando de encontrarse a sí misma en su propio odio, pero era primavera y dos leones se habían amado. Con los puños en los bolsillos de la chaqueta, miraba a su alrededor, rodeada de jaulas, enjaulada por jaulas cerradas. Siguió caminando. Su mirada estaba tan concentrada en la búsqueda que a veces su visión se oscurecía con sueño, y luego se aclaraba como si estuviera en la frescura de una cueva.

Pero la jirafa era virgen, con trenzas recién cortadas. Con la ingenua inocencia de lo grande, ligero y sin culpa. La mujer del abrigo marrón apartó la mirada, enferma, enferma. Incapaz —ante la etérea jirafa posada, ante aquel pájaro silencioso y sin alas— de encontrar en sí misma el punto más crítico de su enfermedad, el punto más vil, el punto del odio, ella que había ido al zoológico para enfermar. Pero no ante la jirafa, que era más paisaje que ser. No ante aquella carne que se había distraído con la altura y la distancia, la jirafa casi verde. Buscó otros animales, intentó aprender de ellos a odiar. El hipopótamo, el hipopótamo húmedo. El regordete rollo de carne, carne redonda y muda esperando otra carne regordeta y muda. No. Porque había un amor tan humilde en permanecer solo carne, un dulce martirio en no saber pensar.

Pero era primavera, y, apretando el puño en el bolsillo de su abrigo, mataría a esos monos que levitaban en la jaula, monos felices como la hierba, monos que saltaban suavemente, la mona con una mirada de amor resignado, y la otra mona amamantando. Los mataría con quince balas secas: la mujer apretó los dientes hasta que le dolió la mandíbula. La desnudez de los monos. El mundo que no veía peligro en estar desnudo. Ella mataría la desnudez de los monos. Un mono también la miró, agarrado a los barrotes, con sus brazos demacrados extendidos en forma de crucifijo, su pecho desnudo expuesto sin orgullo. Pero no era el pecho lo que mataría, era entre los ojos del monolo que mataría, era entre esos ojos que la miraban sin pestañear. De repente, la mujer apartó el rostro: los ojos del mono tenían un velo blanco gelatinoso que cubría la pupila, en los ojos la dulzura de la enfermedad, era un mono viejo... la mujer apartó el rostro, apretando entre los dientes una sensación que no había venido a buscar, aceleró el paso, todavía girando su cabeza asombrada hacia el mono con los brazos abiertos: este seguía mirando al frente. “Oh, no, eso no”, pensó. Y mientras huía, dijo: “Dios, enséñame solo a odiar”.

“Te odio”, le dijo a un hombre cuyo único crimen era no amarla. “Te odio”, dijo muy apresuradamente. Pero ni siquiera sabía cómo hacerlo. ¿Cómo cavar en la tierra hasta encontrar el agua negra, cómo atravesar la tierra dura y nunca alcanzarse a uno mismo? Caminó por el zoológico entre madres y niños. Pero el elefante soportaba su propio peso. Todo ese elefante que había sido entregado para aplastar con una sola pata.

Pero no la aplastó. Aquel poder que, sin embargo, se dejaba llevar dócilmente a un circo, a un elefante de juguete. Y los ojos, con la bondad de un anciano, atrapados en la gran carne heredada. El elefante oriental. También la primavera oriental, y todo lo que nace, todo lo que fluye por el arroyo.

La mujer probó entonces el camello. El camello harapiento, jorobado, masticando, entregado al proceso de familiarizarse con la comida. Se sentía débil y cansada; apenas había comido en dos días. Las largas y polvorientas pestañas del camello sobre unos ojos que se habían consagrado a la paciencia de un arte interior. Paciencia, paciencia, paciencia, eso era todo lo que encontraba en el viento primaveral. Las lágrimas llenaron los ojos de la mujer, lágrimas que no fluían, atrapadas en la paciencia de su carne heredada. Solo el olor a polvo de camello acudió a su encuentro: odio seco, no lágrimas. Se acercó a los barrotes del recinto, inhaló el polvo de aquella vieja alfombra donde circulaba sangre gris, buscó el calor impuro, el placer le recorrió la espalda hasta que la inquietud se apoderó de ella, pero aún no era la inquietud que había venido a buscar. En su estómago, un ansia de hambre se contrajo, el impulso de matar. Pero no al camello hecho de estopa. “Oh, Dios, ¿quién será mi igual en este mundo?”.

“El búfalo” es parte del libro Lazos de familia de Clarice Lisoector.

Así que fue sola a experimentar su violencia. En el pequeño parque de atracciones del zoológico, esperó pensativa en la fila de los enamorados su turno para subir a la montaña rusa.

Y allí estaba, sentada en silencio con su abrigo marrón. El asiento inmóvil, la maquinaria de la montaña rusa detenida. Separada de todos los demás, su asiento parecía estar en una iglesia. Bajó la mirada y vio el suelo entre las vías. El suelo donde, simplemente por amor —¡amor, amor, no amor!— donde, por puro amor, brotaban hierbas de un verde claro tan vertiginoso entre las vías, obligándola a apartar la vista, atormentada por la tentación. La brisa le revolvió el vello de la nuca; tembló, resistiéndose, resistiéndose a la tentación, siempre tan fácil de amar.

Pero de repente fue ese vuelo visceral, esa parada de un corazón sorprendido en el aire, ese asombro, la furia victoriosa con la que el asiento la arrojó a la nada e inmediatamente la levantó como una muñeca con la falda alzada, el profundo resentimiento con el que se volvió mecánica, su cuerpo automáticamente alegre: ¡el grito de las novias! — Su mirada herida por la gran sorpresa, la ofensa, “le hicieron lo que quisieron”, la gran ofensa — ¡el grito de las amigas! — la enorme perplejidad de jugar espasmódicamente, le hicieron lo que quisieron, de repente su inocencia expuesta. ¿Cuántos minutos? Los minutos de un prolongado silbido del tren en la curva, y la alegría de una nueva zambullida en el aire que la insultaba como una patada, su baile descolocado con el viento, bailando apresuradamente, quisiera o no, su cuerpo temblaba como alguien riendo, esa sensación de muerte en la risa, muerte sin previo aviso de alguien que no rompió los papeles del cajón de antemano, no la muerte de otros, la suya, siempre suya. Ella que podría haber aprovechado los gritos de los demás para dar su aullido de lamento, lo olvidó, solo sintió asombro.

Y ahora también este repentino silencio. Estaban de vuelta en tierra, la maquinaria completamente detenida de nuevo. Pálida, expulsada de una iglesia, contempló la tierra inmóvil de donde había partido y adonde había regresado.

Se ajustó la falda con modestia. No miró a nadie. Contrita como aquel día en que, entre la multitud, todo lo que llevaba en el bolso cayó al suelo, y todo lo que había tenido valor mientras permanecía oculto en él, al quedar expuesto en el polvo de la calle, reveló la mezquindad de una vida íntima llena de precauciones: arroz en polvo, recibos, pluma estilográfica; recogiendo los cimientos de su vida de la acera. Se levantó del banco, aturdida como si se sacudiera un accidente de coche. Aunque nadie le prestó atención, se alisó la falda de nuevo, esforzándose por ocultar su debilidad y deshonra, protegiendo con orgullo sus huesos rotos. Pero el cielo daba vueltas en su estómago vacío; la tierra, que subía y bajaba ante sus ojos, permaneció distante por un instante, la tierra que siempre es tan difícil. Por un momento, en un cansancio de llanto silencioso, la mujer quiso extender la mano hacia la tierra difícil: su mano se extendió como la de una lisiada mendigando. Pero como si hubiera tragado un vacío, su corazón fue tomado por sorpresa.

¿Eso es todo? Eso es todo. De la violencia, eso es todo

Empezó a caminar de nuevo hacia los animales. El agotamiento de la montaña rusa la había dejado exhausta. No podía avanzar mucho más: tuvo que apoyar la frente contra los barrotes de una jaula, exhausta, con la respiración corta y superficial. Desde dentro de la jaula, el coatí la miró. Ella lo miró. No intercambiaron palabra. Jamás podría odiar al coatí que, en el silencio de un cuerpo inquisitivo, la observaba. Inquieta, apartó la mirada de la ingenuidad del coatí. El coatí curioso le hacía una pregunta como la de un niño. Y ella apartaba la mirada, ocultándole su mortal misión. Tenía la frente tan pegada a los barrotes que por un instante le pareció estar enjaulada y que un coatí libre la estuviera examinando.

La jaula siempre estaba del lado donde ella se encontraba: dejó escapar un gemido que pareció provenir de las plantas de sus pies. Luego, otro gemido.

Entonces, nacida del vientre materno, la voluntad de matar resurgió, implorando, en una lenta oleada; sus ojos humedecidos por la gratitud y oscuros por una felicidad casi absoluta; aún no era odio, por el momento solo la atormentada voluntad de odiar, como un deseo, una promesa de florecimiento cruel, un tormento como el del amor, la voluntad de odiar prometiéndose a sí misma sangre sagrada y triunfo, la mujer rechazada se había espiritualizado con gran esperanza. Pero dónde, ¿dónde encontrar al animal que le enseñaría a tener su propio odio? ¿El odio que le pertenecía por derecho pero que no podía alcanzar en el dolor? ¿Dónde aprender a odiar para no morir de amor? ¿Y con quién? El mundo de la primavera, el mundo de las bestias que en primavera se cristianizan en patas que arañan, pero no duelen... ¡oh, no más de ese mundo! no más de ese perfume, no más de ese jadeo cansado, no más de ese perdón en todo lo que un día morirá como si fuera a entregarse. Nunca perdón, si esa mujer perdonara una vez más, aunque solo fuera una vez, su vida estaría perdida —dio un gemido áspero y corto, el coatí se sobresaltó— enjaulado, miró a su alrededor, y como no era alguien a quien prestaran atención, se encogió como una vieja asesina solitaria, un niño pasó corriendo sin verla. Entonces volvió a caminar, ahora pequeña, rígida, con los puños de nuevo apretados en los bolsillos, el asesino desconocido, y todo estaba atrapado en su pecho.

En su corazón, que solo conocía la resignación, que solo sabía soportar, que solo sabía pedir perdón, que solo sabía perdonar, que solo había aprendido la dulzura de la infelicidad, y que solo había aprendido a amar, amar, amar. Imaginar que tal vez nunca experimentaría el odio del que siempre había estado hecho su perdón, hizo que su corazón gimiera desvergonzadamente; comenzó a caminar tan rápido que parecía haber encontrado un destino repentino. Casi corría, sus zapatos la desequilibraban y le daban una fragilidad corporal que la reducía de nuevo a la presa de una hembra; sus pasos adquirieron mecánicamente la implorante desesperación de la delicada, ella que no era más que un ser delicado. Pero, si podía quitarse los zapatos, ¿podría evitar la alegría de caminar descalza? ¿Cómo no iba a amar el suelo que pisaba? Gimió de nuevo, se detuvo ante los barrotes de un recinto, presionó su rostro cálido contra el frío oxidado del hierro. Con los ojos fuertemente cerrados, intentó hundir el rostro entre la dureza de los barrotes, buscando un paso imposible entre ellos, tal como había visto al mono recién nacido, cegado por el hambre, buscar el pecho de su madre. Un fugaz consuelo le llegó al sentir que los barrotes la odiaban, ofreciéndole la resistencia del hierro frío. Lentamente abrió los ojos. Sus ojos, emergiendo de su propia oscuridad, no vieron nada en la tenue luz de la tarde.

Respiró hondo. Gradualmente, comenzó a ver de nuevo; poco a poco, las formas se solidificaron. Cansada, abatida por la dulzura del agotamiento, alzó la cabeza en busca de los árboles que brotaban. Sus ojos divisaron las pequeñas nubes blancas. Sin esperanza, escuchó el murmullo de un arroyo. Bajó la cabeza de nuevo y contempló al búfalo a lo lejos. Debajo de un pelaje marrón, respirando sin interés, nadie se interesaba en ella, ella no se interesaba en nadie. Por fin, una cierta paz. La brisa le agitaba el cabello de la frente como si fuera el de una persona recién fallecida; su frente aún estaba sudorosa. Observaba objetivamente aquel extenso campo seco rodeado de altas vallas, el territorio del búfalo.

El búfalo negro permanecía inmóvil al fondo del recinto. Luego, se alejó caminando con sus caderas estrechas y firmes. Su cuello era más grueso que sus flancos contraídos. Visto de frente, su gran cabeza, más ancha que su cuerpo, ocultaba la vista del resto, como una cabeza cercenada. Y sobre su cabeza, los cuernos. Desde lejos, caminaba lentamente con su torso. Era un búfalo negro. Tan negro que, desde la distancia, su rostro carecía de rasgos.

Sobre la negrura, la blancura erguida de sus cuernos. La mujer podía marcharse, pero el silencio del crepúsculo era agradable.

Y en el silencio del recinto, los pasos lentos, el polvo seco bajo las pezuñas secas. Desde lejos, en su tranquilo paseo, el búfalo negro la miró por un instante. Al instante siguiente, la mujer volvió a ver solo la dura musculatura de su cuerpo. Quizás no la había mirado. No podía saberlo, porque desde la oscuridad de su cabeza solo podía distinguir sus contornos. Pero, una vez más, pareció haberla visto o percibido.

La mujer enderezó ligeramente la cabeza, echándola un poco hacia atrás con desconfianza. Manteniendo el cuerpo inmóvil, la cabeza echada hacia atrás, esperó. Y una vez más, el búfalo pareció notarla. Como si no pudiera soportar sentir lo que había sentido, de repente apartó la mirada y fijó la vista en un árbol.

Su corazón no latía en su pecho, latía hueco entre su estómago y sus intestinos.

El búfalo volvió a girar lentamente. El polvo. La mujer apretó los dientes, le dolía un poco todo el rostro.

El búfalo con el torso negro. En el crepúsculo luminoso era un cuerpo ennegrecido por una rabia silenciosa; la mujer suspiró lentamente. Algo blanco se había extendido en su interior, blanco como el papel, débil como el papel, intenso como una blancura. La muerte zumbaba en sus oídos. Los nuevos pasos del búfalo la trajeron de vuelta a sí misma y, con otro largo suspiro, resurgió. No sabía dónde había estado. Estaba de pie, muy débil, habiendo emergido de aquel lugar blanco y distante donde había estado.

Y desde allí volvió a mirar al búfalo.

El búfalo, ahora más grande. El búfalo negro. ¡Ah!, exclamó de repente con dolor. El búfalo, de espaldas a ella, inmóvil. El pálido rostro de la mujer no sabía cómo llamarlo. ¡Ah!, exclamó,

provocándolo. ¡Ah!, repitió. Su rostro se cubrió de una blancura mortal, su rostro repentinamente demacrado, uno de pureza y veneración. ¡Ah!, lo incitó con los dientes apretados. Pero de espaldas a ella, el búfalo permaneció completamente inmóvil.

Recogió una piedra del suelo y la arrojó al recinto. La inmovilidad de su torso, aún más negro, se calmó: la piedra rodó inútilmente.

¡Ah!, exclamó, sacudiendo los barrotes. Aquella cosa blanca se extendió dentro de ella, viscosa como la saliva. El búfalo, de espaldas.

¡Ah!, exclamó. Pero esta vez, porque dentro de ella, por fin, un primer hilo de sangre negra corría.

El primer instante fue de dolor. Como si el mundo se hubiera contraído para que pudiera fluir esta sangre.

Se quedó inmóvil, escuchando aquel primer goteo de aceite amargo, como en una gruta, la mujer despreciada. Su fuerza seguía atrapada entre barrotes, pero algo incomprensible y cálido, en última instancia incomprensible, estaba sucediendo, algo parecido a una alegría que sentía en la boca. Entonces el búfalo se volvió hacia ella.

El búfalo se giró, se quedó paralizado y la miró fijamente desde la distancia.

Te amo —dijo entonces con odio hacia el hombre cuyo gran crimen impune era no desearla—. Te odio —dijo, implorándole amor al búfalo.

Finalmente provocado, el gran búfalo se acercó sin prisa.

Se acercó, y el polvo se levantó. La mujer esperó con los brazos colgando a la altura de su abrigo. Lentamente se acercó. Ella no retrocedió ni un paso. Hasta que llegó a los barrotes y se detuvo allí. Allí estaban el búfalo y la mujer, cara a cara. Ella no miró su rostro, ni su boca, ni sus cuernos. Lo miró a los ojos.

Y los ojos del búfalo, los ojos la miraron a sus ojos. Y se intercambió tal palidez profunda que la mujer quedó entumecida y somnolienta. De pie, en un sueño profundo. Unos pequeños ojos rojos la miraban fijamente. Los ojos del búfalo. La mujer aturdida por la sorpresa, sacudió lentamente la cabeza. El búfalo tranquilo. Lentamente la mujer sacudió la cabeza, asombrada por el odio con el que el búfalo, tranquilo por el odio, la miraba. Casi inocente, sacudiendo una cabeza incrédula, con la boca ligeramente abierta. Inocente, curiosa, adentrándose cada vez más en esos ojos que la miraban sin prisa, ingenua, en un suspiro de sueño, sin querer ni poder escapar, atrapada en el asesinato mutuo. Atrapada como si su mano se hubiera pegado para siempre a la daga en la que ella misma se había clavado. Atrapada, mientras se deslizaba, hechizada, a lo largo de los barrotes. En un movimiento tan lento y vertiginoso que antes de que su cuerpo se desplomara suavemente, la mujer vio todo el cielo y un búfalo.