Por: Profª Simone Rego / Fundadora da Academia Carolinas e Coordenadora do Cursinho Popular Carolina de Jesus
A educação que transforma
Relatos de Luta e Dignidade das Periferias do Brasil
A educação, quando construída a partir do diálogo profundo com a realidade das comunidades, transcende os muros institucionais e torna-se um instrumento poderoso de emancipação. Esta constatação ganha vida ao percorrermos o Brasil invisível das periferias, onde a alfabetização de jovens e adultos tem resgatado histórias silenciadas e reescrito trajetórias marcadas pela exclusão.
No final de março, durante o I Encontro Nacional do “Mãos Solidárias” em Recife, presenciamos a formatura de alunos do programa “Sim, eu posso alfabetizar nas periferias” e a avaliação das cozinhas solidárias. Estas iniciativas, apoiadas pelo governo federal em parceria com movimentos sociais como o MST e o Movimento Brasil Popular, revelam o impacto transformador de políticas públicas alinhadas às demandas populares. O Nordeste destacou-se com cerca de 7 mil pessoas adultas, tanto do campo quanto da cidade, que substituíram a enxada, as panelas e o trabalho braçal pelo lápis e pelo caderno. O sonho em comum? Escrever a sua própria leitura de mundo.
No estádio Geraldão, o clima era de celebração. Caravanas de diversos estados chegaram com pessoas arrumadas e transbordando orgulho de seus diplomas. A emoção era palpável nos olhares e nos relatos. Um senhor compartilhou seu desejo de aprender a escrever para que o neto sentisse orgulho dele. A resposta a esse anseio reflete a essência do projeto: “As suas mãos calejadas já são uma referência de resistência e luta; agora, ele terá mais um motivo para continuar a se orgulhar”. Vê-lo segurar um livro, encantado por reconhecer as letras, as cores e os números, remete à memória de tantos retirantes nordestinos que sempre incentivaram a valorização do estudo como via de ascensão social.
A imersão na periferia de Recife revelou ainda mais camadas dessa resistência. Em um bar no pé do morro, transformado em espaço multicultural, e na praia do Pina, o acolhimento da comunidade evidenciou o impacto das políticas de inclusão. Histórias de locais que antes eram palafitas e hoje representam moradia digna se misturam com o orgulho de pais que homenageiam lideranças políticas nos nomes de seus filhos, com a promessa de que o estudo honrará a história da família.
Essa realidade de superação, no entanto, não é exclusiva do Nordeste. No extremo leste de São Paulo, na periferia de um dos bairros mais populosos e conhecido como “bairro dormitório”, a distância das políticas públicas agrava a vulnerabilidade social. O índice de analfabetismo na região é alarmante. Dados indicam que a Zona Leste concentra altas taxas de analfabetismo, chegando a índices históricos de 27% em algumas áreas, o que evidencia uma profunda barreira social [1].
Além disso, a proporção de analfabetos funcionais nas periferias atinge 25%, demonstrando a urgência de intervenções educacionais eficazes [2].
No Projeto Carolinas, a constatação dessa realidade é diária. Além da entrega de refeições, o projeto apoia a comunidade na busca por direitos fundamentais.
Contudo, a luta por direitos esbarra na ausência de leitura e letramento. Diariamente, a equipe é procurada para auxiliar na leitura de documentos, pois mesmo aqueles com alguma instrução enfrentam severas dificuldades de interpretação. Diante desse cenário, a chegada do programa “Sim, eu posso alfabetizar nas periferias” trouxe uma nova perspectiva.
A procura pelo programa em São Paulo foi expressiva, especialmente entre mulheres acima de 50 anos com trajetórias semelhantes: trabalharam na roça desde cedo, foram impedidas de estudar por seus pais e entregues a casamentos arranjados.
Mulheres com muitos filhos e sem perspectivas de futuro além do ciclo imposto de submissão e maternidade compulsória. Apesar dessas violências, elas não desistiram. O sonho de aprender a ler para pegar um ônibus, ir ao banco e compreender melhor o mundo as impulsionou.
Durante seis meses, as salas de aula tornaram-se espaços de compartilhamento de histórias e memórias. O processo não foi isento de desafios; muitas pensaram em desistir por não se sentirem capazes, reflexo de anos de violências verbais e da internalização do estigma de incapacidade. No entanto, a cada dia, uma nova conquista: uma letra, uma sílaba, uma palavra. A construção coletiva, pautada nos saberes prévios dos alunos, foi essencial para o sucesso do método.
A Academia Carolinas, que surgiu em 2020 em meio à crise pandêmica com uma biblioteca improvisada para crianças, hoje tem o privilégio de ver mulheres e crianças passando pelo projeto para saciar a fome de saber. A conquista mais recente é a formalização do cursinho popular. Antes realizado de forma totalmente voluntária, o projeto agora conta com o apoio da Rede Nacional de Cursinhos Populares (CPOP) do Ministério da Educação (MEC). Lançado com investimentos significativos para apoiar mais de 1.200 iniciativas em todo o país, o CPOP fornece suporte técnico e financeiro, incluindo bolsas para educadores e auxílio-transporte para os alunos, democratizando o acesso ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e ao ensino superior [3].
Estas experiências, de Recife a São Paulo, comprovam que a educação, a luta por direitos e a defesa da democracia são indissociáveis na devolução da dignidade ao povo brasileiro. A verdadeira transformação ocorre quando o processo educativo reconhece e valoriza a vivência do educando, promovendo não apenas a alfabetização, mas a conscientização cidadã.
Como ensinou o patrono da educação brasileira, Paulo Freire, em sua reflexão sobre a educação popular e libertadora:
“Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.” [4]
O Brasil, em toda a sua diversidade e desafios, revela-se um país intrinsecamente lindo e potente.
Referências:
[1] Acervo Paulo Freire. 60 mil adultos. Disponível em: https://www.acervo. paulofreire.org/bitstreams/ dbc95adb-e767-42b8-a7df6ae9fe529 789/download
[2] CNN Brasil. Estudo destaca avanços da escolaridade e alfabetização nas periferias. Disponível em: https://www.cnnbrasil. com.br/educacao/ estudo-destaca-avancosda-escolaridade-ealfabetizacao-nasperiferias/
[3] Ministério da Educação. CPOP — Portal Gov.br. Disponível em: https://www.gov.br/mec/ pt-br/cpop
[4] Freire, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
Por: Profesora Simone Rego / Fundadora de la Academia Carolinas y Coordinadora del Curso Preparatorio Popular Carolina de Jesús.
Educación que transforma
La educación, cuando se construye sobre un diálogo profundo con la realidad de las comunidades, trasciende las barreras institucionales y se convierte en un poderoso instrumento de emancipación. Esta observación cobra vida al recorrer el Brasil invisible de las periferias, donde los programas de alfabetización para jóvenes y adultos han rescatado historias silenciadas y reescrito trayectorias marcadas por la exclusión.
A finales de marzo, durante el 1er Encuentro Nacional de “Mãos Solidárias” (Manos Solidarias) en Recife, presenciamos la capacitación de estudiantes del programa “Sí, puedo enseñar a leer y escribir en las periferias” y la evaluación de las cocinas solidarias. Estas iniciativas, reforzadas por el gobierno federal en colaboración con movimientos sociales como el MST (Movimiento de Trabajadores Sin Tierra) y el Movimiento Brasil Popular, revelan el impacto transformador de las políticas públicas alineadas con las demandas populares. El noreste destacó con aproximadamente 7.000 adultos, tanto del campo como de la ciudad, que cambiaron la azada, las ollas y el trabajo manual por lápices y cuadernos. ¿Es común este sueño? Escribir su propia interpretación del mundo.
En el estadio Geraldão, el ambiente era de celebración. Llegaron caravanas de varios estados con personas vestidas de gala que exhibían con orgullo sus diplomas. La emoción era palpable en sus ojos y en sus historias. Un señor competente expresó su deseo de aprender a escribir para que su nieto se sintiera orgulloso de él. La respuesta a este anhelo refleja la esencia del proyecto: “Sus manos callosas ya son un símbolo de resistencia y lucha; ahora tendrá un motivo más para seguir sintiéndose orgulloso”. Verlo sostener un libro, cautivado por las letras, los símbolos y los números, evoca el recuerdo de tantos inmigrantes del noreste que siempre fomentaron el valor de la educación como camino hacia el progreso social.
La inmersión en las afueras de Recife reveló aún más facetas de esta resistencia. En un bar al pie de la colina, transformado en un espacio multicultural, y en la playa de Pina, la hospitalidad de la comunidad puso de manifiesto el impacto de las políticas de inclusión. Historias de lugares que antes eran casas sobre pilotes y ahora representan viviendas dignas se entrelazan con el orgullo de padres que honran a líderes políticos en nombre de sus hijos, con la promesa de que la educación honrará la historia familiar.
Esta realidad de superación de la adversidad, sin embargo, no es exclusiva del Noreste. En el extremo este de São Paulo, en las afueras de uno de los barrios más poblados, conocido como “barrio dormitorio”, la distancia de las políticas públicas agrava la vulnerabilidad social.
La tasa de analfabetismo en la región es alarmante. Los datos indican que la Zona Este concentra altas tasas de analfabetismo, alcanzando niveles históricos del 27% en algunas áreas, lo que evidencia una profunda barrera social [1].
Además, la proporción de personas analfabetas funcionales en las periferias alcanza el 25%, lo que demuestra la urgencia de intervenciones educativas efectivas [2].
En el Proyecto Carolinas, esta realidad se observa a diario. Además de proporcionar alimentos, el proyecto apoya a la comunidad en la búsqueda de derechos fundamentales. Sin embargo, la lucha por los derechos se ve obstaculizada por la falta de lectura y alfabetización. Diariamente, se solicita la ayuda del equipo para leer documentos, ya que incluso quienes tienen cierta educación enfrentan serias dificultades de interpretación. En este contexto, la llegada del programa “Sí, puedo enseñar a leer y escribir en las periferias” aportó una nueva perspectiva. La demanda del programa en São Paulo fue significativa, especialmente entre mujeres mayores de 50 años con trayectorias similares: trabajaron en el campo desde jóvenes, sus padres les impidieron estudiar y fueron obligadas a contraer matrimonios concertados.
Mujeres con muchos hijos y sin perspectivas de futuro más allá del ciclo impuesto de sumisión y maternidad forzada. A pesar de estas formas de violencia, no se rindieron. El sueño de aprender a leer para poder tomar el autobús, ir al banco y comprender mejor el mundo los motivó.
Durante seis meses, las aulas se convirtieron en espacios para compartir historias y recuerdos. El proceso no estuvo exento de dificultades; muchos consideraron rendirse por sentirse incapaces, reflejo de años de abuso verbal y la internalización del estigma de la incapacidad. Sin embargo, cada día trajo un nuevo logro: una letra, una sílaba, una palabra. La construcción colectiva, basada en los conocimientos previos de los estudiantes, fue esencial para el éxito del método.
La Academia Carolinas, que surgió en 2020 en medio de la crisis pandémica con una biblioteca improvisada para niños, ahora tiene el privilegio de ver a mujeres y niños participando en el proyecto para satisfacer su sed de conocimiento. El logro más reciente es la formalización del curso preparatorio popular. Anteriormente realizado completamente de forma voluntaria, el proyecto ahora cuenta con el apoyo de la Red Nacional de Cursos Preparatorios Populares (CPOP) del Ministerio de Educación (MEC). Lanzada con importantes inversiones para apoyar más de 1200 iniciativas en todo el país, la CPOP brinda apoyo técnico y financiero, incluyendo becas para educadores y asistencia de transporte para estudiantes, democratizando el acceso al Examen Nacional de Bachillerato (ENEM) y a la educación superior [3].
Estas experiencias, desde Recife hasta São Paulo, demuestran que la educación, la lucha por los derechos y la defensa de la democracia son inseparables para devolver la dignidad al pueblo brasileño.
La verdadera transformación se produce cuando el proceso educativo reconoce y valora la experiencia del estudiante, promoviendo no solo la alfabetización, sino también la conciencia cívica. Como enseñó Paulo Freire, el mecenas de la educación brasileña, en su reflexión sobre la educación popular y liberadora: “Nadie educa a nadie, nadie se educa a sí mismo; los hombres se educan unos a otros, mediados por el mundo”. [4] Brasil, con toda su diversidad y sus desafíos, se revela como un país intrínsecamente bello y poderoso.

