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Por: Maria Cristina Achcar
La Venus Bolita
Qual não foi a minha surpresa ao deparar-me com a arte de Flor Alvarado! A pintura “La Venus Bolita” é avassaladora. E é nossa. Latinoamericana. Estava pesquisando sobre a porcentagem de obras de autoria feminina nos museus da América Latina e ao entrar no site do MALBA(Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires) me deparo com uma nota sobre a aquisição da obra desta jovem artista argentina. Flor é estudante do último ano do curso de Artes da UNA(Universidad de las Artes) em Buenos Aires e expôs a obra no Festival FAUNA, promovido pela UNA. Provavelmente foi aí que a Comissão de Aquisições do Malba teve contato com esta Vênus esplêndida que emana latinidade, história, legado e força. Há pouco mais de dois meses, La Vênus Bolita é parte do acervo do museu argentino.
Trata-se de algo revolucionário e completamente necessário: um museu dar espaço a jovens artistas, acreditando neles e adquirindo suas obras. Olhando nossa Vênus com atenção, percebemos nela elementos que traduzem valores e a cultura latinoamericana.
Enquanto a Vênus da obra de Boticelli carrega com o ideal de Beleza Ideal e Pureza – e isso se comprova através de Sua pose, conhecida como Venus Pudica (Vênus Púdica), onde ela tenta cobrir a nudez com as mãos e os longos cabelos ruivos, ressalta uma pureza e castidade quase divina, em vez de erotismo. Ela representa a Venus Coelestis (Vênus Celeste) — o amor platônico, espiritual e a beleza ideal. Esta Vênus nos remete ao Símbolo clássico da deusa, ao seu nascimento da espuma do mar e, em contextos mais amplos, à fertilidade e ao prazer. Pode também ser interpretada como uma pia batismal, sugerindo um renascimento cristão.
Do lado esquerdo a Vênus italiana/europeia conta com a companhia de Zéfiro, o deus do vento oeste (abraçado a uma ninfa, possivelmente Clóris/Aura), sopra em o que poderíamos interpretar como o sopro da vida ou o poder da paixão que a impulsiona. As rosas que caem com o sopro são as flores sagradas de Vênus e simbolizam o amor. Do lado direito temos uma das deusas das estações, representando a Primavera (pelos trajes floridos e a guirlanda), espera para cobrir Vênus com um manto. Ela simboliza a aceitação de Vênus na Terra e o eterno ciclo de renovação da natureza. Digamos que esta imagem de mulher simboliza um ideal europeizado de beleza e recato, mesmo estando nua, pois esta mulher não nos olha diretamente, seu olhar pende para o lado direito, ele não encara o espectador da obra, isso nos diz muito sobre o comportamento desta mulher. (O olhar feminino nos retratos daria outro texto!)
Por outro lado, nossa Vênus latioamericana é desafiadora e real. Ela tem a pele marrom, enaltecendo a marronidade dos nossos povos. Ela tem o cabelo preto, comprido, trançado. Seu rosto parece não ter uma expressão definida, não sabemos se ela nos julga ou desafia com seu olhar tão direto, tão profundo. Seu corpo é um corpo real, uma mulher que encanta enquanto reivindica o direito de ser e de estar. Enquanto a Vênus de Botticelli está cercada de ninfas que nunca pudemos ver com os nossos olhos porque são seres que habitam o universo da mitologia, a Vênus Bolita está acompanhada de mulheres que carregam em suas vestes, em seus rostos, em seus corpos uma parte da história do nosso continente. São mulheres também reais com as que podemos nos encontrar a qualquer momento.
Flor é filha de migrantes bolivianos que hoje vivem em Buenos Aires, no bairro Villa Soldati, e por isso uma das mulheres que acompanha essa Vênus faz um gesto de cobrir seu corpo - que está nu - com as duas bandeiras dos dois países que representam a história da Flor e a história da sua família: Bolívia e Argentina.
E na exposição FAUNA, esta pintura de 98 x 78 cm, um óleo sobre tela, foi posicionada junto a caixotes de madeira, aqueles que vemos nas feiras livres e estão sempre cheios de verduras ou frutas e isso nos remete ao ambiente da agricul - tura. Na Argentina, especialmente em Buenos Aires, muitos dos que estão envolvidos no comércio de frutas e verduras são da coletividade boliviana.
E pensando no ato de migrar, da circulação dos povos entre os países, observamos o porquê a nossa Vênus não nasce de uma lenda, do mar ou de uma concha. Ela nasce de uma mala de viagem! Quando mudamos de cidade, de país, nossas malas carregam um pouco de nós, das nossas histórias, das nossas lembranças, nossa essência. Migrar é deixar uma parte nossa pra trás, colocar o que cabe dentro de uma mala (às vezes pode-se escolher o que levar, às vezes não) e ter um vazio que em breve se preencherá com o novo. O desconhecido. Uma nova vida, uma nova rotina, novas pessoas, novos lugares. E esse vazio começa a diminuir, faz-se pequeno porque em determinado momento já não somos quem éramos. Já não somos de um lugar, mas de vários. Os pais da Flor saíram da Bolívia escolhendo a Argentina para viver e agora certamente Flor carrega toda a história de sua família e a história da cultura argentina. Argentina é parte da América Latina, assim como a Bolívia. Falam o mesmo idioma. Mas suas histórias em algum ponto se distanciaram.
Bolívia tem uma rica mescla de culturas pré-colombianas que precisaram lutar pra sobreviver ao massacre espanhol que chegou a estas terras para explorar, saquear e submeter. Se observamos atentamente a mala da qual nasce a nossa Vênus Bolita, veremos uma nota de dinheiro e outros elementos em miniatura que representa a festa Alasitas uma festa cultural ancestral boliviana que celebra a abundância e a esperança, onde a compra e bênção de objetos em miniatura que representam desejos (casas, carros, dinheiro), torna-se o centro da comemoração que ocorre a cada 24 de janeiro, o dia da fertilidade andina. E por isso, durante o período em que esteve exposta no festival, além dos caixotes podemos observar junto à obra diversas outras miniaturas.
Esta festa, Alasitas, foi declarada Patrimônio Cultural Imaterial pela UNESCO. Voltando à mala, esta contém uma nota de dinheiro, um pote(que pode conter ouro u alguma outra riqueza) e um Ekeko: uma imagem em miniatura de um homem que sempre está sorridente e que representa a abundância, a sorte e a fertilidade. Segundo a crença que envolve a festa, as miniaturas representam os desejos que alimentamos para um novo ciclo. Sendo assim, neste caso seria dinheiro, abundância, sorte. E a frase estampada na nota é outro desejo: “Morir antes que esclavos vivir”. Morrer antes que viver como escravos. É preferível morrer do que viver uma vida sem liberdade.
É o desejo de muitas nações pré-colombianas andinas (e hoje ainda é o de tantas outras nações, infelizmente) que foram submetidas, escravizadas e de alguma forma apagadas; algumas puderam, com muita luta e muito sangue derramado, sobreviver e deixar seu legado. Uma frase que encoraja e nos coloca frente a uma realidade quase nunca pensada: quantas lutas, quantas mortes, quantos conflitos foram necessários para que hoje possamos saber algo destas culturas cujos povos foram massacrados. E quantas lutas mais serão necessárias para que muitas nações sejam livres. Livres da ambição, livres da violência, livres de seus algozes.
O desejo da artista representado nestes objetos que habitam a mala aberta de onde sai essa figura de mulher tão real quanto mística é o desejo que devemos cultivar pra todo o nosso continente. E pro mundo. Abundância, riquezas (não só materiais) e liberdade. Poder viver sem desejar morrer. Porque perder a liberdade é uma forma de morrer.
Viva nossa Vênus latinoamericana! Viva o Malba que respaldou esta artista incrível que é a Flor Alvarado e agora compartilha com o mundo esta joia!
Maria Cristina Achcar
Mestra e doutoranda em História da Arte pela UNIFESP e com a pesquisa “Dama de Honore e Maestra de Pittura de la Regina: a (anônima) leitura imagética de Sofonisba Anguissola sobre a corte espanhola de Felipe II”, estudou os retratos feitos pela artista cremonense em seu período na corte espanhola de 1559 a1573. Pesquisa mulheres artistas dos séculos XVI ao XIX. Em seu doutorado estudará os autorretratos femininos e como estes contribuem para uma construção de identidade das artistas, em especial de Sofonisba Anguissola. É formada em Letras e além de pesquisadora atua como tradutora e intérprete nos idiomas português-espanhol há 20 anos.
La Venis Bolita
¡Quedé verdaderamente maravillada cuando descubrí el arte de Flor Alvarado! La pintura La Venus Bolita es impresionante. Y es nuestra: latinoamericana. Estaba investigando el porcentaje de obras de mujeres artistas en los museos latinoamericanos cuando, al visitar el sitio web del MALBA (Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires), me topé con un anuncio sobre la adquisición de una obra de esta joven artista argentina. Flor cursa el último año de la carrera de Artes en la UNA (Universidad Nacional de las Artes) de Buenos Aires y expuso la obra en el Festival FAUNA, organizado por dicha institución. Probablemente fue allí donde el Comité de Adquisiciones del MALBA vio por primera vez esta espléndida Venus, que irradia identidad, historia, legado y fortaleza latinoamericanos. Desde hace poco más de dos meses, La Venus Bolita forma parte de la colección del museo argentino.
Es un paso revolucionario y absolutamente necesario que un museo abra espacios a los jóvenes artistas, confiando en ellos y adquiriendo sus obras. Al observar detenidamente nuestra Venus, percibimos elementos que reflejan los valores y la cultura de América Latina.
Mientras que la Venus de la obra de Botticelli encarna el ideal de belleza y pureza —evidente en su postura, conocida como “Venus Púdica”, en la que intenta cubrir su desnudez con las manos y su larga cabellera roja, resaltando una pureza y castidad casi divinas más que eróticas—, ella representa a la “Venus Coelestis” (Venus celeste): el amor platónico y espiritual y la belleza ideal. Esta Venus evoca el símbolo clásico de la diosa, su nacimiento de la espuma del mar y, en contextos más amplios, la fertilidad y el placer. También puede interpretarse como una pila bautismal, sugiriendo un renacimiento cristiano.
A la izquierda, la Venus italiana o europea aparece acompañada por Céfiro, el dios del viento del oeste; mientras abraza a una ninfa —posiblemente Cloris o Aura—, exhala lo que podría interpretarse como el aliento de vida o el poder de la pasión que la impulsa hacia adelante. Las rosas que caen con su aliento son las flores sagradas de Venus y simbolizan el amor. A la derecha se encuentra una de las diosas de las estaciones, que representa la Primavera (como evidencian su atuendo floral y su guirnalda), aguardando para cubrir a Venus con un manto. Ella simboliza la acogida de Venus en la Tierra y el ciclo eterno de renovación de la naturaleza. Esta figura femenina encarna un ideal europeo de belleza ymodestia —a pesar de su desnudez—, pues no nos mira directamente; su mirada se desvía hacia la derecha en lugar de encontrarse con la del espectador, lo que revela mucho sobre su actitud. (¡La mirada femenina en el retrato es tema para otro ensayo!)
En cambio, nuestra Venus latinoamericana es desafiante y real. Posee una piel morena que celebra la tez de nuestros pueblos. Lleva el largo cabello negro trenzado. Su expresión es ambigua; no podemos saber si nos juzga o nos desafía con una mirada tan directa y profunda. Es un cuerpo real: el de una mujer que cautiva al tiempo que reivindica su derecho a existir y a ocupar un espacio.
Mientras que la Venus de Botticelli está rodeada de ninfas — seres mitológicos que jamás podríamos ver con nuestros propios ojos—, la “Venus Bolita” está acompañada por mujeres que llevan consigo parte de la historia de nuestro continente en sus vestimentas, sus rostros y sus cuerpos. Ellas también son mujeres reales con las que podríamos cruzarnos en cualquier momento.
Flor es hija de migrantes bolivianos que ahora residen en el barrio de Villa Soldati, en Buenos Aires; por ello, una de las mujeres que acompañan a esta figura de Venus hace el gesto de cubrir su cuerpo desnudo con las dos banderas que representan la historia de Flor y la de su familia: las de Bolivia y Argentina.
En la exposición FAUNA, este óleo sobre lienzo de 98 x 78 cm se colocó junto a cajones de madera —del tipo que se ve en los mercados al aire libre, siempre llenos de frutas o verduras—, evo - cando así un entorno agrícola. En Argentina, y particularmente en Buenos Aires, muchas de las personas dedicadas al comercio de frutas y verduras pertenecen a la comunidad boliviana.
Al reflexionar sobre el acto de migrar —el desplazamiento de personas entre países—, comprendemos por qué nuestra Venus no nace de la leyenda, del mar ni de una concha marina: ¡nace de una maleta! Cuando nos mudamos a una nueva ciudad o país, nuestras maletas transportan una parte de nosotros: nuestras his - torias, nuestros recuerdos, nuestra esencia. Migrar implica dejar atrás una parte de nuestra identidad, empacar lo que cabe en una valija (a veces elegimos qué llevar y otras no) y enfrentarnos a un vacío que pronto se llenará con lo nuevo. Lo desconocido. Una vida nueva, una rutina nueva, gente nueva, lugares nuevos. Y ese vacío comienza a reducirse, a disminuir, porque llega un momento en que ya no somos quienes éramos antes; ya no pertenecemos a un solo lugar, sino a muchos. Los padres de Flor dejaron Bolivia para establecerse en Argentina, y ahora ella seguramente lleva consigo tanto la historia de su familia como la de la cultura argentina. Argentina forma parte de América Latina, al igual que Bolivia, y ambos países comparten el mismo idioma. Sin embargo, en algún momento, sus historias siguieron caminos distintos.
Bolivia posee una rica mezcla de culturas precolombinas que tuvieron que luchar para sobrevivir a la masacre española: una invasión impulsada por el deseo de explotar, saquear y someter.
Si observamos detenidamente la maleta de la que emerge nuestra Venus Bolita veremos un billete y otros elementos en miniatura que representan la festividad de las Alasitas, una celebración cultural boliviana ancestral que simboliza la abundancia y la esperanza. La compra y bendición de objetos en miniatura que representan deseos (como casas, automóviles y dinero) constituyen el núcleo de este evento, que tiene lugar cada 24 de enero, día de la fertilidad andina. Por ello, mientras la obra estuvo expuesta en el festival, se podían ver otras miniaturas junto a la pieza artística, además de los cajones de madera.
Este festival, Alasitas, ha sido declarado Patrimonio Cultural Inmaterial por la UNESCO. Volviendo a la maleta, esta contiene un billete, una vasija (que podría albergar oro u otra forma de riqueza) y un Ekeko: una figura en miniatura de un hombre sonriente que representa la abundancia, la buena fortuna y la fertilidad. Según las creencias que rodean al festival, estas miniaturas representan los deseos que albergamos para un nuevo ciclo; en este caso, dinero, abundancia y suerte. La frase impresa en el billete expresa otro deseo más: “Morir antes que esclavos vivir”. Es mejor morir que vivir una vida sin libertad.
Esta es la aspiración de muchas naciones andinas precolombinas —y, lamentablemente, de tantas otras naciones actuales— que fueron subyugadas, esclavizadas y, en cierto modo, borradas; sin embargo, algunas lograron, tras grandes luchas y mucho derramamiento de sangre, sobrevivir y dejar su legado. Es una frase que nos inspira y nos enfrenta a una realidad que rara vez consideramos: ¿cuántas luchas, muertes y conflictos fueron necesarios para que hoy sepamos algo sobre estas culturas cuyos pueblos fueron masacrados? ¿Y cuántas luchas más harán falta para que tantas naciones sean libres? Libres de la codicia, libres dela violencia, libres de sus opresores.
El deseo de la artista —plasmado en los objetos que llenan la maleta abierta, de la cual emerge una figura femenina tan real como mística— es precisamente el deseo que deberíamos cultivar para todo nuestro continente. Y para el mundo. Abundancia, riqueza (no meramente material) y libertad. Poder vivir sin desear la muerte.
Porque perder la libertad es una forma de morir. ¡Viva nuestra Venus latinoamericana! ¡Viva el Malba por defender a la increíble artista Flor Alvarado y compartir esta joya con el mundo!
Cristina Achcar
Magíster y doctoranda en Historia del Arte por la UNIFESP y, con la investigación Dama de Honor y Maestra de Pintura de la Reina: la (anónima) lectura imagética de Sofonisba Anguissola sobre la corte española de Felipe II, estudió los retratos realizados por la artista cremonesa en su período en la corte española de 1559 a 1573. Investiga a mujeres artistas de los siglos XVI al XIX. En su doctorado estudiará los autorretratos femeninos y cómo estos contribuyen a una construcción de identidad de las artistas, en especial de Sofonisba Anguissola. Es graduada en Letras y, además de investigadora, se desempeña como traductora-intérprete de los idiomas españolportugués desde hace 20 años
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