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Por: Paulo Baudouin
Rock Nacional
Era 1976 e estávamos voltando para a Argentina: meu pai, minha mãe, minha irmã e eu. Para Olivos, na província de Buenos Aires, depois de três anos morando em São Paulo.
As vicissitudes dessas viagens de ida e volta entre o Brasil — onde nasci — e a Argentina, que não se encaixam exatamente nesta história, extrapolam o escopo desta entrada no meu mundo do rock internacional e argentino, o que chamamos de Rock Nacional por aqui.
Não me lembro do mês exato do nosso retorno. E, sendo o único sobrevivente da minha família original, não tenho a quem perguntar sobre esses pequenos detalhes, essas datas que parecem insignificantes; porque, infelizmente, não há mais ninguém que possa respondê-las. Meus pais nasceram em 1934 e, mesmo assim — ou talvez por causa disso —, fui exposto ao rock internacional desde muito cedo: os LPs de Creedence Clearwater Revival, Alice Cooper, The Beatles, Johnny Rivers, Jimi Hendrix e, claro, Elvis Presley. O espinho já se descortinava na entrada de uma nova era que talvez esteja terminando hoje, como se preparasse o terreno para outra: talvez a segunda grande revolução da humanidade depois do Neolítico.
Mas o que realmente impressionou meu pai foi o Pink Floyd. Ainda consigo vê-lo debruçado sobre o toca-discos, como se o próprio tempo estivesse prestes a disparar numa revelação. Ele, que quando criança só conhecera o rádio como uma fronteira tecnológica, onde o mundo começava a convergir. Talvez por isso, quando pôde, já com pouco mais de trinta anos, comprou um dos melhores sistemas de som da época. Era bem o estilo dele: comprar menos, mas melhor. “Você recebe o que paga”, ouvi-o dizer mais de uma vez.
Meu primeiro contato com o rock argentino, por outro lado, foi quando meu pai apareceu com um LP do Almendra. A capa, desenhada pelo próprio Luis Alberto Spinetta, e dentro, girando, aquela música que se tornou atemporal: “Muchacha ojos de papel” (Garota de Olhos de Papel). Algo mudou ali, embora eu ainda não soubesse o quê. Naqueles dias, as palavras eram descobertas — não sem admiração — uma a uma, na minha infância, na minha vida pré-adolescente, à beira de uma biblioteca que parecia infinita.
Meu pai ouvia outras coisas, é claro. Minha mãe e ele eram adolescentes na década de 1950 e, embora o rock and roll já estivesse surgindo, sua sensibilidade era feita de outros ritmos: boleros, jazz, soul, cantores e compositores; um Piazzolla aqui, um José Larralde ali, e música clássica, sempre, especialmente Bach, que lhe abria as portas para uma divindade na qual ele não acreditava.
Mas o disco de vinil girava em casa. E nessa rotação, nostalgia, sonhos, desejos e imagens que a música traz de volta sem pedir permissão se misturavam. Ali também estavam minhas desco - bertas, em um mundo ainda encantado. Meu breve passado e aquele presente nebuloso — ainda incapaz de imaginar um futuro — compartilhavam a mesma sala de estar em Olivos, lado a lado.
Assim começou minha mitologia sonora: naquela coexistên - cia involuntária de gerações, naquela mistura heterodoxa que mais tarde se tornaria minha maneira de ver o mundo. Naquele ritual doméstico onde cada lado do disco era também um lado da história — como em “O Lado Oculto da Lua” — algo de mim já estava sendo escrito sem que eu soubesse.
Muito mais tarde, entendi que a música não era apenas som: era linhagem, herança, ruptura e ponte. Era, em última análise, cultura.
E o rock — que naqueles anos parecia estar no ar — gradual - mente me chamou, como alguém abrindo uma porta e depois outra. Naquele mesmo ano, os vizinhos hippies com quem divi - díamos o terreno também voltaram do Brasil: Verdi, brasileiro, e Meli, argentino, com seus filhos Paulinho —meu xará—, Maria Ramahã e Dulce Virginia, que ainda se debatia na barriga de Meli.
Inconscientemente, adotei Verdi, que tinha cerca de 27 anos, como um irmão mais velho. Eu o admirava: seus longos cabelos loiros, seu jeito de ser no mundo e a capacidade de falar com ele em português como se eu também pertencesse a outro mundo. Comecei a passar horas em sua casa, cercado por discos, conversas e aquela liberdade um tanto caótica que eles traziam consigo.
Meli me contou que havia conhecido Javier Martínez — voca - lista, baterista e um compositor feroz — que, junto com Claudio Gabis e Alejandro “el Negro” Medina, formara a banda Manal. Eles haviam lançado El León (1971). Lembro-me de ter ficado profundamente tocado por “Paula (Quiero ver dónde estás)” e “Doña Laura”. Foi meu primeiro contato com o rock em espanhol: aquele blues cru, aquela voz grave, aquele jeito de falar que parecia mais próximo, mais pessoal.
Meu pai, até então, provavelmente nem sabia que era possível cantar rock em espanhol. Talvez ele o tenha descoberto por minha causa, ou melhor, por meio de Verdi.
Durante aqueles meses de 76 e 77, enquanto o rock agitava meu turbilhão interior junto com meus hormônios, meu pai ouviu “Muchacha ojos de papel” no rádio e descobriu Almendra por conta própria. Aquele primeiro álbum, composto inteiramente por Spinetta, com Del Guercio, Molinari e García, permanece — para muitos — o melhor do rock argentino. Eu ainda acredito nisso.
Faltava a tríade fundamental do rock argentino. E descobri Los Gatos graças a Fernando, um colega da escola primária. Seu irmão Luis, de quinze anos — um adulto aos meus olhos —, baterista, tinha uma coleção de discos que era uma biblioteca sagrada.
Ali descobri não só Los Gatos, mas também Moris, autor do que é considerado o primeiro álbum de rock em espanhol, anterior até mesmo ao do grupo de Rosário. Também me impressionou Billy Bond y La Pesada del Rock and Roll, com o primeiro violinista do rock argentino, Jorge Pinchevsky, a quem conheci anos depois em outra viagem a São Paulo, onde ele já havia se consagrado tocando com a banda paulista Ira!
Conheci-o quando eu tinha 22 anos e ele 45. Não éramos amigos, mas compartilhamos queijo e vinho — na casa onde ele morava com a companheira. Eu o admirava: para mim, ele era um Paganini. Não se viam seus dedos quando ele tocava; O arco parecia incendiar-se no ar, e o ouvido mal conseguia acompanhar aquele vertiginoso e quase infinito fluxo de notas que transbordavam energia elétrica, como se o instrumento não conseguisse contê-la.
Voltando ao assunto, na casa do irmão de Fernando, vi seu trio pela primeira vez — como eu disse, ele era o baterista — tocando rock ao vivo. Eles não estavam tocando músicas: estavam improvisando. Olhavam-se, seguiam-se mutuamente. A bateria e o baixo criavam a paisagem sonora; a guitarra falava. Não sei se eram bons, mas eram eletrizantes. Anos depois, eu teria minha própria banda, mas essa é outra história.
Los Gatos, com Litto Nebbia à frente, estabeleceram uma maneira de cantar em espanhol que muitos imitaram, até mesmo Spinetta. Por muito tempo, acreditou-se que Nebbia havia sido o primeiro a fazê-lo, até que Moris apareceu, à frente de seu tempo sem cerimônia, com Treinta minutos de vida (Trinta Minutos de Vida). “El oso” (O Urso), “De nada sirve” (Não Adianta), “Ayer nomás” (Apenas Ontem)... canções que o tempo não diminui, apenas as torna mais pessoais.
Mas Los Gatos foram um fenômeno daqueles primeiros anos e deixaram um legado fundamental, um grande sucesso: “La Balsa”, composta por Tanguito, que também escreveu “Amor de primavera” (“…que continua girando…”), muito popular na versão de Spinetta. Tango Feroz foi feita sobre a vida de Tanguito (José Alberto Iglesias), outra figura fundamental. Embora tenha sido Nebbia quem deu à canção sua forma definitiva, como a conhecemos hoje e continuamos a cantá-la: “na minha jangada irei à deriva…”. Quem não iria?
De certa forma, foi uma espécie de Beatlemania do Rio da Prata. Não houve outra banda tão popular até a chegada do Sui Generis. Charly García — nosso pequeno Mozart — e Nito Mestre, com sua voz clara e frágil, preencheram uma era com canções: canções que pareciam simples, mas que abriam novos caminhos, como se a própria juventude estivesse buscando uma saída.
Hoje em dia, o Google torna certos detalhes desnecessários, mas vale a pena lembrar: Los Gatos era formado por Nebbia nos vocais e na gaita, Fogliatta nos teclados, Alfredo Toth no baixo e o imenso Oscar Moro.
Até agora, o trio: Los Gatos, Manal, Almendra.
Depois vieram Sui Generis, Pastoral e a própria evolução de Spinetta: Artaud, Invisible, El jardín de los presentes (O Jardim dos Presentes). Lembro-me de quando Verdi comprou esse álbum e meu pai comprou o primeiro álbum do Invisible. “El anillo del Capitán Beto” (O Anel do Capitão Beto), “Los libros de la buena memoria” (Os Livros da Boa Memória)... e aquele verso que ainda ressoa: “...ouvindo como um cego diante do mar...”. El Jardín de los presentes também é considerado uma das obras-primas de Spinetta.
Também faltou mencionar o impacto da descoberta de Pappo. El Carpo. Blues levado a uma forma quase selvagem. Encontrei- -o por acaso, entrando em “La Toldería” na Rua Florida: estava tocando “El blues de Santa Fe” (Blues de Santa Fé). Perguntei e logo depois tinha Pappo’s Blues II em minhas mãos. Algum tempo depois, fiz amizade com Negro Adrián, aquele que pintava as camisetas, e com quem mais tarde formei um trio de rock e uma amizade que terminou com sua morte durante a pandemia.
Acompanhei Pappo até o cemitério. Caminhei com o cortejo de La Paternal até Chacarita, cantando. Nunca vi tanta emoção de uma só vez, tanta tristeza compartilhada.
Paro em 1977. Depois vieram os anos 80, o punk, a queda dos dinossauros do rock sinfônico e psicodélico, e mais uma transformação. Como sempre.
Porque este país — talvez — nunca esteja totalmente habitado. Vive em tensão, em suas próprias contradições, nessa intensidade que nos define: exagerada no amor, exagerada no ódio. Onde, no fim, como alguém disse, “…não estamos unidos pelo amor, mas pelo horror”.
Deixo meu poema dedicado a El Flaco Spinetta no dia em que soube de sua morte, em 2012, aos 62 anos, idade que alcançarei em 2026.
Lembrarei a você a aspereza
do meu ser,
diante de tanto horror de um riacho
fragmentado e castigado;
o crepúsculo e a ponte amarela
(Spinetta).
A parábola em seus passos
após meu sinal
e as sombras diante de seus olhos
e a canção de ninar no ninho;
A graça dos voos
que me desviam em minha busca por você,
e a planura de sua sombra
me emoldura
em deleite.
Rock Nacional
Corría el año 1976 y volvíamos a la Argentina: mi
padre, mi madre, mi hermana y yo. A Olivos, provincia de Buenos Aires, después de tres años viviendo
en São Paulo.
Las vicisitudes de aquellas idas y vueltas entre
Brasil —donde nací— y la Argentina, que no terminan de caber
en este relato, exceden esta entrada en mi mundo del rock internacional y argentino, eso que acá llamamos Rock Nacional.
No recuerdo el mes exacto del regreso. Y siendo hoy el único
sobreviviente de mi familia original, no tengo a quién preguntarle por esos detalles menores, por esas fechas que parecen
insignificantes; porque, dolorosamente, ya no hay nadie que
pueda responderlas. Mis padres habían nacido ambos en el 34,
y aun así —o tal vez por eso— tuve contacto con el rock internacional desde muy temprano: los LPs de Creedence Clearwater
Revival, Alice Cooper, The Beatles, Johnny Rivers, Jimi Hendrix
y, claro, Elvis Presley. La púa ya giraba en la entrada de una
nueva era que acaso hoy esté terminando, como si se preparara
para otra: quizá la segunda gran revolución de la humanidad
después del Neolítico.
Pero lo que verdaderamente le voló la cabeza a mi padre fue
Pink Floyd. Todavía puedo verlo inclinado sobre el tocadiscos,
como si allí el tiempo fuera a precipitarse en una revelación.
Él, que de niño solo había conocido la radio como frontera
tecnológica, donde el mundo empezaba a acercarse. Tal vez
por eso, cuando pudo, ya con treinta y pocos, compró uno de
los mejores equipos de música de la época. Era muy suyo eso:
comprar menos, pero mejor. “Lo barato sale caro”, lo escuché
decir más de una vez.
Mi primer contacto con el Rock Nacional, en cambio, fue
cuando el viejo apareció con un LP de Almendra. La tapa, dibujada por el propio Luis Alberto Spinetta, y adentro, girando,
ese tema que se volvió eterno: “Muchacha ojos de papel”. Algo
cambió ahí, aunque yo todavía no supiera nombrarlo. En esos
días, las palabras eran descubrimientos —no sin asombro—,
una a una, en mi vida infantil, preadolescente, al borde de una
biblioteca que parecía infinita.
Mi padre escuchaba otras cosas, claro. Con mi madre habían
sido adolescentes en los años 50 y, aunque el rock and roll
ya asomaba, su sensibilidad estaba hecha de otras cadencias:
boleros, jazz, soul, cancionistas; un Piazzolla por aquí, un José
Larralde por allá, y la música clásica, siempre, sobre todo Bach,
que le abría las puertas de una divinidad en la que no creía.
Pero el vinilo giraba en casa. Y en ese giro se mezclaban
nostalgias, sueños, deseos, imágenes que la música devuelve
sin pedir permiso. Ahí estaban también mis descubrimientos, en
un mundo todavía encantado. Mi breve pasado y ese presente
borroso —incapaz aún de imaginar un futuro— compartían el
mismo living de Olivos, junto a ellos.
Así empezó mi mitología sonora: en esa convivencia involun
-
taria de generaciones, en esa mezcla heterodoxa que después
sería mi manera de ver el mundo. En ese ritual doméstico donde
cada lado del disco era también un lado de la historia —como
El lado oscuro de la luna—, algo de mí ya se estaba escribiendo
sin saberlo.
Mucho después entendí que la música no era solo sonido: era
filiación, herencia, ruptura y puente. Era, en definitiva, cultura.
Y el rock —que en aquellos años parecía respirarse en el
aire— me fue llamando de a poco, como quien abre una puerta
y después otra. Ese mismo año regresaron, también desde Brasil,
los vecinos hippies con quienes compartíamos terreno: Verdi,
brasileño, y Meli, argentina, con sus hijos Paulinho —mi tocayo—,
María Ramahã y Dulce Virginia, que todavía latía en la panza
de Meli.
A Verdi, que tendría unos 27 años, lo fui adoptando como
un hermano mayor sin darme cuenta. Lo admiraba: sus cabellos rubios, largos, su manera de estar en el mundo, y esa
posibilidad de hablar con él en portugués como si yo también
perteneciera a otro lado. Empecé a pasar horas en su casa,
entre discos, conversaciones y esa libertad un poco caótica
que traían consigo.
Meli me contó que había conocido a Javier Martínez —voz,
batería y pluma feroz—, quien junto a Claudio Gabis y Alejandro “el Negro” Medina había formado Manal. Tenían El León
(1971). Recuerdo haber quedado atravesado por “Paula (Quiero
ver dónde estás)” y “Doña Laura”. Era mi primer encuentro con
el rock en castellano: ese blues áspero, esa voz grave, ese decir
que parecía más cercano, más propio.
Mi padre, hasta entonces, quizá ni siquiera sabía que el rock
podía cantarse en español. Tal vez lo descubrió a través mío, o
mejor dicho, a través de Verdi.
En esos meses del 76 y el 77, mientras el rock me desordenaba
por dentro junto con las hormonas, mi padre escuchó en la radio
“Muchacha ojos de papel” y llegó, por su cuenta, a Almendra.
Ese primer disco, compuesto íntegramente por Spinetta, con Del
Guercio, Molinari y García, sigue siendo —para muchos— el
mejor del Rock Nacional. Yo todavía lo creo.
Faltaba la tríada fundacional del Rock argento. Y llegué
a Los Gatos gracias a Fernando, un compañero de la pri
-
maria. Su hermano Luis, de quince años —un adulto para
mí—, baterista, tenía una colección de discos que era una
biblioteca sagrada.
Allí conocí no solamente a Los Gatos, sino también a Moris,
autor de lo que se considera el primer disco de rock en castellano,
anterior incluso al del grupo rosarino. Me impresionó también
Billy Bond y La Pesada del Rock and Roll, con la presencia del
primer violín del rock argentino, Jorge Pinchevsky, a quien años
más tarde llegué a conocer en otra de mis idas a São Paulo, donde
se había hecho un nombre tocando con la banda paulista Ira!
Lo conocí yo con 22 años y él con 45. No fuimos amigos, pero
compartimos —en la casa donde vivía con su compañera— un queso y un vino. Yo lo admiraba: era un Paganini para mí. No se
le veían los dedos al tocar; el arco parecía encenderse en el aire,
y el oído apenas alcanzaba a seguir esa deriva vertiginosa, casi
infinita, de notas que se desbordaban con una energía eléctrica,
como si el instrumento no pudiera contenerlo del todo.
Retomando, en la casa del hermano de Fernando, vi por
primera vez a su trío, como dije, él batero, tocando rock en
vivo. No tocaban temas: zapaban. Se miraban, se seguían. La
batería y el bajo armaban la cocina; la guitarra hablaba. No sé
si eran buenos, pero eran eléctricos. Años después yo tendría
mi propia banda, pero esa es otra historia.
Los Gatos, con Litto Nebbia al frente, marcaron un modo de
cantar en español que muchos imitaron, incluso Spinetta. Durante
mucho tiempo se creyó que Nebbia había sido el primero en
hacerlo, hasta que apareció Moris, adelantado sin ceremonia, con
Treinta minutos de vida. “El oso”, “De nada sirve”, “Ayer nomás”…
canciones que el tiempo no gasta, apenas las vuelve más propias.
Pero Los Gatos fueron un fenómeno de aquellos años iniciales
y dejaron para siempre el gran gesto fundacional, el gran hit: “La
Balsa”, compuesta por Tanguito, quien también escribió “Amor
de primavera” (“…que anda dando vueltas…”), muy difundido
en la versión que le dio Spinetta. Sobre la vida de Tanguito
(José Alberto Iglesias), otra figura fundacional, se hizo Tango
Feroz. Aunque fue Nebbia quien le dio a la canción su forma
definitiva, tal como hoy la conocemos y seguimos cantando:
“en mi balsa yo me iré a naufragar…”. ¿Quién no?
Salvando distancias, fue una suerte de beatlemanía rioplatense. No hubo otra banda tan popular hasta la llegada de
Sui Generis. Charly García —nuestro pequeño Mozart— y
Nito Mestre, con su voz limpia y frágil, llenaron de canciones una época: canciones que parecían simples, pero
que abrían caminos, como si la juventud misma estuviera
buscando salida.
Hoy Google vuelve innecesarios ciertos datos, pero vale
recordar: Los Gatos eran Nebbia en voz y armónica, Fogliatta
en teclados Alfredo Toth en bajo y el inmenso Oscar Moro.
Hasta acá, la tríada: Los Gatos, Manal, Almendra.
Después vendrían Sui Generis, Pastoral, y el propio Spinetta
mutando: Artaud, Invisible, El jardín de los presentes. Recuerdo
cuando Verdi compró ese disco y mi viejo el primero de Invisible.
“El anillo del Capitán Beto”, “Los libros de la buena memoria”…
y esa línea que todavía resuena: “…oyendo como un ciego frente
al mar…”. El Jardín de los presentes también es considerado una
de las obras cumbres del Spinetta.
También quedará afuera el impacto de descubrir a Pappo. El
Carpo. El blues llevado a una forma casi salvaje. Lo encontré
por azar, entrando a “La Toldería”, en la calle Florida: sonaba
“El blues de Santa Fe”. Pregunté, y al poco tiempo tenía Pappo’s
Blues II en mis manos. Tiempo después me hice amigo del Negro
Adrián, el que pintaba las remeras y con quien luego formé
un trio de Rock y una amistad que terminó con su muerte en
tiempos de pandemia.
A Pappo lo seguí hasta el cementerio. Caminé esa procesión
desde La Paternal hasta la Chacarita, cantando. Nunca vi tanta
emoción junta, tanta tristeza compartida.
Me detengo en 1977. Después vendrían los 80, el punk, la
caída de los dinosaurios del rock sinfónico y psicodélico, y otra
transformación más. Como siempre.
Porque este país —quizá— nunca termina de habitarse del
todo. Vive en tensión, en sus propias contradicciones, en esa
intensidad que nos define: exagerados para amar, exagerados
para odiar. Donde, al final, como alguien dijo, “…no nos une el
amor, sino el espanto”.
Dejo mi poema dedicado a El Flaco Spinetta el día que me
enteré de su muerte en 2012 a los 62 años, edad que cumpliré
en este 2026.
Te haré acordar a lo accidentado
de mi ser,
hacia tanto espanto de maltratado
arroyo fragmentario;
la penumbra y el puente amarillo
(Spinetta).
La parábola en tus pasos
después de mi señal
y las sombras antes que tus ojos
y el arrullo en el nido;
la gracia de los vuelos
que me bifurcan en tu búsqueda,
y la planicie de tu sombra
me enmarca
en la delicia.
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