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Por: Javier Villanueva
Relações e contrastes entre o Brasil e a hispano-américa
“A cultura da língua espanhola não foi criada
na Espanha, mas sim em toda a América Latina”,
afirma Luis García Montero, diretor do Insti
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tuto Cervantes, em conversa com o escritor
mexicano Gonzalo Celorio, vencedor do Prêmio
Cervantes de 2025. E a história mostra que,
realmente, o idioma não foi criado na Espanha,
mas sim na relação — tumultuada durante os
períodos de conquista e colonização, e mais
pacífica depois que as novas nações se eman
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ciparam e seguiram seus próprios caminhos
republicanos — com a América Latina.
“Há 12.000 km entre o Rio Grande e a Patagônia, e é possível cruzar 20 fronteiras sem perder a inteligibilidade; isso é realmente prodigioso. Nada semelhante existe em qual - quer outro idioma”, diz Celorio. E essa longa jornada se estende para o norte, até mesmo para o interior dos Estados Unidos, onde quase 60 milhões de outros falantes de espanhol vol - tam ao que foi seu território e são perseguidos, entre outras coisas, por falarem seu idioma.
Ea língua e suas culturas mais antigas, como já mencionamos, nasceram na Espanha, é claro, mas foram moldadas e remodeladas nas Américas. Através do contato com diversas línguas indígenas e suas culturas, o espanhol adquiriu múltiples variantes, sotaques, expressões idio - máticas, vocabulários novos e características gramaticais que hoje constituem a riqueza do espanhol americano. Essa riqueza foi enriquecida por inúmeras palavras de línguas como o náuatle, o quíchua, o aimará, o taino, o guarani e o mapudungun, entre muitas outras, que foram integradas ao léxico comum da língua. Hoje, a maioria dos falantes de espanhol está nas Américas — cerca de 550 milhões — portanto, a evolução viva e dinâmica da língua ocorre principalmente neste continente, onde novas formas de expressão e adaptações continuam a surgir.
Isso, por si só, confere ao grupo de nações que chamamos de América Latina uma grande unidade dentro da diversidade territorial lógica em que essa vasta população de 550 milhões de habitantes está subdividida. Mas, por outro lado, quando vemos no mapa das Américas o enorme território brasileiro, cercado pelas repúblicas que mencionamos anteriormente, algumas delas muito extensas, tentamos compreender o que diferencia, dentro do que chamamos de América Latina, o setor luso-brasileiro em relação ao setor hispano-americano.
A primeira coisa que se nota ao comparar a geografia e a história de ambos os lados do antigo Tratado de Tordesilhas é que a conquista portuguesa das Américas não guarda qualquer semelhança com a extrema violência da chegada espanhola ao Caribe, México, Peru ou Chile. Além disso, as revoluções de independência e as guerras civis no Brasil nunca apresentaram a repetição, a duração ou a crueldade de lutas semelhantes nas colônias espanholas, seja antes ou depois da independência.
A experiência portuguesa na ocupação e colonização do Brasil, distinta da experiência espanhola, já trazia consigo uma compreensão da alteridade — isto é, o reconhecimento e, de uma certa forma, a aceitação do “outro”. Os portugueses já haviam convivido com outras línguas, culturas e religiões; por outro lado, o continente recém-descoberto não tinha a mesma importância para Portugal que seus territórios asiáticos, e sua relação com a colônia brasileira era mais tranquila do que a da Espanha com a sua própria. Portugal encarou esta nova realidade do século XVI com um catolicismo mais aberto e menos fundamentalista do que o espanhol, e viu a miscigenação com menos relutância, embora este processo fosse, tanto para os ibéricos como para os outros europeus que chegaram mais tarde, meros atos de violação e opressão sexual. As sinistras visitas da Inquisição chegaram ao Brasil apenas para confirmar o que já esperavam. E como ambos os impérios — o espanhol e o português — chegaram com as suas visões de mundo herdadas de vários períodos históricos desde a antiguidade, por estas e outras razões, estes mundos imaginados tinham significados diferentes.
A partir disto, o surgimento paralelo das nossas duas culturas — nascidas no contexto colonial e da ocupação territorial, ocorrendo num novo continente que foi cada vez mais relegado à periferia dos centros de poder europeus — produziu dois modelos de evolução que, até hoje, combinam a complexidade da convergência e, ao mesmo tempo, da divergência, do reconhecimento e do estranhamento.
Isso também produziu desenvolvimentos paralelos dentro do espaço hegemônico das culturas metropolitanas, que se estabeleciam, especialmente durante os processos de independência, como pontos de referência para as elites crioulas: Espanha e Portugal foram relegados a um segundo plano, enquanto França e Inglaterra — e, posteriormente, nos séculos XX e XXI, os Estados Unidos — emergiram como modelos a serem imitados pelas classes dominantes.
Paradoxalmente, isso gerou novos centros simbólicos compartilhados, com processos bastante semelhantes; e também novas operações culturais dentro de suas comunidades, levando a um conjunto de imaginários com estruturas bastante similares.
O primeiro simbolismo é a construção de um discurso no qual as culturas portuguesa e hispânica são apresentadas como alternativas à cultura europeia. A América é um espaço que, se possui algum traço comum desde a conquista e colonização por ambas as nações ibéricas, é o de ser um território de encruzilhadas culturais e linguísticas, vivenciando um vertiginoso processo de construção cultural. Esse espaço imenso é impossível de ser compreendido sem lembrar que era um lugar imerso em mitos, e a partir desses mitos, mapas foram criados, e a partir desses mapas, narrativas, cartas e relatos foram construídos — alguns verdadeiros, outros imaginários, e outros ainda simplesmente uma mistura de verdade e fantasia. O mundo indígena enraizou-se no imaginário latino-americano que se formava e crescia em ambos os lados de Tordesilhas, e a partir desse imaginário, a rebelião foi por vezes reprimida, e esses povos nativos gradualmente se renderam aos conquistadores. Mas, por outro lado, como no caso dos Mapuche, a rebelião e a resistência cresceram.
O primeiro confronto foi a arena inicial para o choque de imaginários, da visão que cada povo tinha de seu entorno, de suas paisagens e da própria sociedade que estavam construindo. Textos literários na forma de crônicas ou romances épicos como La Araucana, de Ercilla, assim como obras de arte do período de ambas as conquistas, revelam as diversas fraturas, deslocamentos e sobreposições, a pluralidade de dimensões e as diferentes velocidades com que a criatividade coletiva inicia uma transformação violenta. Foi isso que Serge Gruzinski (historiador e antropólogo francês especializado em estudos latino-americanos) chamou de “colonização do imaginário”. As fantasias levam as vontades ao reino da loucura, e os “homens iludidos” de quem Cecilia Meireles fala aventuram-se na selva em busca das cidades de ouro e das fontes da eterna juventude em seus Eldorados.
Portanto, os textos dos estágios iniciais da colonização evocamas múltiplas cenas dessa intersecção, como na guerra de resistência do povo Mapuche (La Araucana), enquanto simultaneamente constroem a gramática que suas aventuras geram. Essa gramática não é mais de Nebrija, mas sim uma outra, formada pelo diálogo com as novas línguas francas indígenas utilizadas para o comércio e a diplomacia. Várias dessas línguas já funcionavam como línguas francas em grande parte do continente — como o náuatle, o quíchua e o guarani — e permitiam que se sobrepusessem, repelissem e se integrassem tanto ao espanhol quanto ao português. O mesmo ocorre no Caribe, embora em menor escala, com o francês no Haiti e as chamadas línguas crioulas.
Ali, os deslocamentos e as imposições começam a dar origem, no sujeito colonizado, a uma presença diferente; e no sujeito colonizador, a um discurso distinto da sua constituição original: tanto o colonizador espanhol ou português como o colonizado, a leste e a oeste da Linha de Tordesilhas, alteram as suas percepções da realidade, e isto modifica gradualmente os seus argumentos, a sua fala, a sua sintaxe discursiva. Os novos deslocamentos e ocupações geográficas, com as suas constantes imposições, dão origem a um discurso diferente e a uma subjetividade alternativa que emerge da linguagem e toma forma na literatura e na cultura.
Juan Ruiz de Alarcón e Sor Juana Inés de la Cruz representam um passo decisivo, juntamente com os textos dos historiadores mestiços Felipe Guamán Poma de Ayala e Pablo González de la Rosa, cruciais para o registo das perspetivas indígenas, a denúncia dos abusos coloniais (a mita, a encomienda e o yanaconazgo) e a preservação da memória cultural. Eles frequentemente utilizavam a escrita europeia (espanhol) juntamente com o quíchua e o náuatle, ou estabeleciam uma nova língua jesuíta, o guarani escrito das missões, para criar obras híbridas como crônicas e códices.
O “saudadismo” dos jesuítas, expulsos das Américas e dos territórios ibéricos no século XVIII, fomentou um discurso de identidade americana e de afirmação da natureza dentro de um discurso de nostalgia e melancolia. Isso, por sua vez, facilitou o desenvolvimento de um discurso de identidade hispano-americana e brasileira entre os exilados, à medida que contrastavam sua nova realidade com a sua própria. Esse sentimento se manifesta em obras que homenageiam esse período, como o filme A Missão, de 1986.
A chegada das novas repúblicas entre 1810 e 1820 inaugurou uma nova era. A memória coletiva sobre a qual se fundaram as novas comunidades e a nascente burguesia criou uma tradição com seus heróis e eventos memoráveis, estabelecendo as línguas oficiais e simultaneamente híbridas do continente: o espanhol e o português em cada uma das duas principais regiões. Esse imaginário coletivo deu origem a suas bandeiras e hinos como símbolos de afirmação dos novos territórios e suas histórias.
O século XIX foi o século da independência, da língua e da literatura, como se vê nos dois retratos do período que revelam a precária estabilidade das nações nascentes, marcando seus projetos nacionais em obras fundacionais, em ensaios que definiram a identidade e o futuro da América Latina. Exemplos-chave são Facundo, ou Civilização e Barbárie (1845), de Domingo Faustino Sarmiento, e o ensaio fundacional Nossa América (1891), de José Martí. Mas, enquanto Martí rejeitava a dicotomia de Sarmiento entre “civilização ou barbárie” e defendia um projeto cultural e político genuinamente latino-americano, focado na emancipação e unidade dos povos do continente, valorizando o “homem natural” americano, Sarmiento via nas figuras do caudilho das províncias do interior, do gaúcho e dos povos indígenas os obstáculos a serem eliminados ao analisar o conflito entre a modernização europeia — que ele chamava de “civilização” — e os costumes rurais americanos — “barbárie” —, defendendo a educação e a imigração branca europeia como pilares do progresso social.
Esses projetos, por meio dos quais as elites crioulas buscavam manter sua dominância, coexistiram com os conflitos e intersecções de línguas e culturas, onde a identidade nacional se inseria no projeto político continental.
A evolução das duas línguas, tanto na América espanhola quanto no Brasil, demonstra a apropriação dos idiomas das antigas metrópoles pelas populações crioulas do Novo Mundo. A gramática e a ortografia que se desenvolveram em paralelo aos novos textos legislativos, como se observa na obra de Andrés Bello, revelam a importância da língua como pedra angular dos novos Estados. O espanhol e o português moldaram as nações, ao mesmo tempo que disciplinavam sociedades que, até então, eram multilíngues e multiétnicas, e que os novos poderes políticos enquadrariam em padrões comuns.
O espaço simbólico do romance exerceu uma função hege - mônica na literatura do século XIX, sempre em tensão com suas propostas desconstrutivistas que revelavam a “alteridade” estrutural das novas formações americanas. A partir do século XIX, um estilo literário regional emergiu na América Latina, atingindo seu pleno potencial no início do século XX. Essa foi a era do indigenismo, do afro-caribenho, da expressão crioula, do “romance rural” e, paralelamente, do regionalismo brasileiro. Tratava-se de um olhar sobre o mundo rural a partir da perspectiva de uma urbanização nascente e acelerada; uma perspectiva nacional expressa por meio de descrições de tipos humanos, do ambiente geográfico e da exploração econômica, na qual cres - ciam as denúncias do subdesenvolvimento. Essa visão positivista, nacionalista e desenvolvimentista às vezes se expressa no folclore. O século XX, com a urbanização a todo vapor e a transição para o modelo capitalista ocorrendo em velocidades diferentes em todo o continente, foi impulsionado pela imigração que explodiu durante o crescimento de Buenos Aires e São Paulo. Enquanto isso, a revolução tecnológica nos países centrais gerou uma modernização violenta que colocou a cultura entre o tradicional e o moderno. Os regionalismos se chocaram com os movimentos de vanguarda, representando dois lados da realidade da vertiginosa transformação social na qual o rural e o urbano se expressavam em um processo complexo. A modernização tecnológica entrou pelas cidades. Os movimentos de vanguarda na América Latina vivenciaram a política da luta antiditatorial e um discurso modernizador: Oliverio Girondo na Argentina, Vicente Huidobro no Chile e Oswald e Mário de Andrade no Brasil incorporaram a primeira revolução tecnológica do século. A eletricidade, o tele - fone e o cinema são as características definidoras de um tempo e lugar que, nas províncias ou no interior rural, são vivenciados de forma desigual e em um ritmo mais lento.
A entrada da América Latina na modernidade e na tecnologia expressa a cultura contemporânea internacional, e especificamente a literatura, desafiando estéticas anteriores em suas formas e modos de expressão. Tal foi o debate entre Anita Malfatti e Monteiro Lobato no Brasil, que marcou um ponto de virada no início do modernismo brasileiro. Lobato criticou duramente a exposição das obras de Mal - fatti, acusando-a de “paranoia ou mistificação”. Publicada em 1917, a crítica foi um dos catalisadores da Semana de Arte Moderna de 1922 e da renovação artística e cultural no Brasil. A explosão, sempre escandalosa, de movimentos de vanguarda em diferentes países revela a tensão entre regionalismo e cosmopolitismo. As expressões culturais do início do século XX em ambos os lados da América Latina se manifestam nas tensões entre respostas regionais e cosmopolitas, como observou Antonio Cândido, ou em confrontos claros entre perspectivas nativistas e modernistas.
(Continua em ACyS-Brasil, edição 5)
Relaciones y contrastes entre Brasil e hispanoamérica
“La cultura en español no se hace en España, sino en toda América Latina”, dice Luis García Montero, director del Instituto Cervantes conversando con el escritor mexi - cano Gonzalo Celorio, ganador del Premio Cervantes 2025. Y la historia muestra que el idioma no se hizo en España sino en la relación, -totalmente tumultuosa en tiempos de conquista y de colonia, y más tranquila cuando las nuevas naciones ya se habían emancipado y seguían sus propios rumbos republicanos- con Hispanoamérica.
“Hay 12.000 km entre el río bravo y la Patagonia y puede uno atravesar 20 fronteras sin perder inteligibilidad, eso es verda - deramente prodigioso, no existe en ninguna otra lengua algo semejante”, dice Celorio. Y este largo viaje se prolonga, hacia el norte, incluso bien a dentro del territorio estadou - nidense, donde otros casi 60 millones de hablantes del español son perseguidos, entre otras cosas, también por hablar su idioma.
Y el idioma y sus primeras culturas, como dijimos más arriba, nacieron en España, claro, pero se fueron haciendo y rehaciendo en América; al entrar en con - tacto con diversas lenguas indígenas y sus culturas, el español adquirió múltiples acentos, modismos, voca - bularios y giros gramaticales que hoy conforman la riqueza del español americano que se nutrió de innumerables palabras provenientes de lenguas como el náhuatl, el quechua, el taíno, el guaraní, y el mapudungun, entre muchas otras, que se integraron al léxico común del idioma. Hoy la mayoría de los hablantes de español están en América -unos 550 millones-, por lo que la evolución viva y dinámica del idioma ocurre sobre todo en este continente, donde se siguen generando nuevas formas de expresión y adaptaciones.
Esto, de por sí, ya le da al conjunto de naciones que llama - mos Hispanoamérica, una unidad muy grande dentro de las lógicas diversidades territoriales en las que este enorme pueblo de 550 millones de habitantes se subdivide. Pero, por otro lado, cuando vemos en el mapa de las Américas el enorme territorio brasileño, rodeado de las repúblicas que antes mencionamos, algunas de gran tamaño, tratamos de entender qué es lo que diferencia, dentro de lo que llamamos Latinoamérica al sector luso brasileño en relación al hispanoamericano.
Lo primero que se ve al comparar geografía e historia a ambos lados de la antigua Línea de Tordesillas, es que no hay en la conquista portuguesa de América nada semejante a la violencia de la llegada española al Caribe, a México, al Perú o a Chile. Las propias revoluciones de la independencia, por otro lado, y las luchas civiles en Brasil no han tenido jamás la repetición, la duración y la crueldad de luchas parecidas en las colonias españolas, antes o después de sus independencias.
La experiencia portuguesa en la ocupación y colonización de Brasil, diferente de la española, ya traía el conocimiento de la alteridad -que es reconocer y de algún modo aceptar al “otro”: los lusitanos ya habían convivido con otras lenguas, culturas y religiones; el continente recién descubierto no tenía para Portugal la importancia de sus dominios asiáticos, y su relación con su colonia Brasil fue más laxa que la de España con las suyas. Encaraba Portugal esa nueva realidad del siglo XVI con un catolicismo que era más abierto y menos fundamentalista que el de España, y veía al mestizaje con menor reticencia al contacto, aunque este proceso fuera, tanto para los ibéricos como para los otros europeos que llegaron después, meros actos de violación y opresión sexual. Las tenebrosas visitas de la Inquisición llegaban a Brasil solo para constatar lo que ya se esperaban. Y como ambos imperios -el español y el lusitano- llegaron con sus imaginarios heredados de diversos momentos históricos desde la antigüedad, por estas y otras razones, esos mundos imaginarios tenían diferentes sentidos.
A partir de ello, la emergencia paralela de nuestras dos culturas -nacidas dentro del estatus colonial y de ocupación territorial, ocurría en un nuevo continente que cada vez quedaba más en la periferia de los centros del poder europeo- y produjo dos modelos de evolución que hasta hoy unen la complejidad de la convergencia y, a la vez, de la divergencia, del reconocimiento y de la extrañeza. Y también produjo desarrollos paralelos en el espacio hegemónico de las culturas metropolitanas que se iban constituyendo, durante los procesos de independencia sobre todo, en polos de referencia de las elites criollas: España y Portugal eran relegados, mientras que Francia e Inglaterra, -y más tarde, en el siglo XX y XXI los Estados Unidos- surgían como modelos a imitar por parte de las clases dominantes.
Esto produce, contradictoriamente, nuevos centros simbólicos comunes, con procesos bastante próximos; y también genera nuevas operaciones culturales de sus comunidades, hacia un conjunto de imaginarios con estructuras bastante similares.
El primer simbolismo es la construcción de un discurso en que ambas, la lusitana y la hispánica, son alternativas a la cultura europea. América es un espacio que, si tiene algún rasgo común desde la conquista y la colonización por parte de ambas naciones ibéricas, es el de ser un territorio de cruces culturales y lingüísticos, que vive en un vertiginoso movimiento de construcción cultural. Este enorme espacio es imposible de ser entendido por la mera reflexión; en un principio fue un lugar de muchos mitos, y de ellos se hizo una cartografía, y con ellos se construyeron relatos, cartas e informes, que a veces eran verídicos, otras tantas imaginarios u otras el simple producto de una mezcla de verdades y fantasías. El mundo indígena se afincó en el imaginario latinoamericano que se formaba y crecía a ambos lados de Tordesillas, y a partir de ese imaginario a veces se desestimó la rebeldía y esos pueblos nativos fueron rindiéndose de a poco a los conquistadores o, al contrario, creció como en el caso mapuche, la rebelión y la resistencia.
El primer enfrentamiento fue el ámbito inicial del cruce de los imaginarios, de la visión de las realidades que cada pueblo tenía de su entorno, sus paisajes, y de la misma sociedad que se iba construyendo. Los textos literarios en forma de crónicas, o de novelas épicas como en La Araucana de Ercilla, como también ocurre con el arte a la época de ambas conquistas, ponen en juego las diferentes fracturas, los desplazamientos y superposiciones, la pluralidad de dimensiones y la diversidad de velocidades con los que la creatividad colectiva inicia una violenta transformación. Es lo que Serge Gruzinski (historiador y antropólogo francés, especialista en temas latinoamericanos) llamó “colonización de lo imaginario”. Las fantasías impulsan a las voluntades a terrenos de locura y los “hombres alucinados” de los que habla Cecilia Meireles se internan en la selva buscando en los Eldorado las ciudades del oro y las fuentes de la juventud eterna.
Por eso, los textos de inicios de la colonización convocan las múltiples escenas de esa intersección, como en la guerra de resistencia del pueblo Mapuche (La Araucana), al mismo tiempo que construyen la gramática a la que dan origen sus aventuras, que ya no es la de Nebrija, sino que va constituyéndose a partir del diálogo con las nuevas linguas francas indígenas usadas para el comercio y la diplomacia, que ya funcionaban como lenguas vehiculares en grandes extensiones del continente, -como el náhuatl, el quechua y el guaraní- y que les permiten superponerse, y repelerse, solaparse, e integrarse tanto con el español como con el portugués. Y lo mismo ocurre en el Caribe, aunque en menor medida, con el francés en Haití y las lenguas criollas o crioulas. Allí los desplazamientos y las imposiciones empiezan a dar lugar, en el sujeto colonizado, a una presencia diferente; y en el sujeto colonizador, a un discurso diferente de lo que era su constitución original: tanto el colonizador español o portugués, como el colonizado, a este y a oeste de la Línea de Tordesillas cambia sus apreciaciones de la realidad, y esto modifica de a poco sus argumentos, su habla, su sintaxis discursiva. Los nuevos desplazamientos y ocupaciones geográficas, con sus permanentes imposiciones dan lugar a un discurso diferente y a una subjetividad alternativa que emerge de la lengua, y se va plasmando en la literatura y la cultura.
Juan Ruiz de Alarcón y Sor Juana son un paso decisivo, a los
que se suman los textos de los historiadores mestizos: Felipe
Guamán Poma de Ayala y Don Pablo González de la Rosa,
cruciales para registrar las perspectivas nativas, denunciar los
abusos coloniales (la mita, la encomienda y el yanaconazgo) y
preservar la memoria cultural, usando frecuentemente la escritura europea (castellano) junto con el quechua y náhuatl, o
estableciendo un nuevo lenguaje guaraní jesuítico para crear
obras híbridas, como crónicas y códices.
El “saudadismo” de los jesuitas, expulsados de América y de
los territorios ibéricos en el siglo XVIII, propicia un discurso
de americanidad y de afirmación de la naturaleza, dentro de
un discurso de nostalgia y melancolía y propició el desarrollo
de un discurso de identidad hispanoamericana y brasileña por
parte de los exiliados, al contrastar su nueva realidad. Este
sentimiento se ve en obras de homenaje a aquel período, como
en la película La Misión, de 1986.
La llegada de las nuevas repúblicas entre 1810 y 1820 va
a instaurar un tiempo diferente. La memoria sobre la cual se
asientan las nuevas comunidades y las nacientes burguesías
criollas, crean una tradición con sus héroes y hechos memorables
y establece las lenguas oficiales y a la vez mestizas del continente:
el español y el portugués en cada una de las dos grandes áreas.
Este imaginario crea sus banderas e himnos como distintivos
de afirmación de los nuevos territorios y de sus historias.
El siglo XIX es el de las independencias, de la lengua y la
literatura, como en los dos retratos de la época que mostrarán
la precaria solidez de las naciones en nacimiento marcando sus
proyectos nacionales en obras fundacionales, en ensayos que
definieron la identidad y el futuro de América Latina. Ejemplos
clave son Facundo o Civilización y Barbarie (1845) de Domingo
Faustino Sarmiento y José Martí con su ensayo fundamental
Nuestra América (1891). Mientras que Martí rechazó la dicotomía sarmientina de “civilización o barbarie” y reivindicó un
proyecto cultural y político genuinamente latinoamericano, con
foco en la emancipación y la unidad de los pueblos del continente,
valorando al “hombre natural” americano, Sarmiento usaba
la figura del caudillo de las provincias del interior, al gaucho
y al indígena como obstáculos a ser eliminados al analizar el
conflicto entre la modernización europea -a la que él llamaba
“civilización”- en contra de las costumbres rurales americanas
-la “barbarie”-, defendiendo la educación y la inmigración blanca
europea como pilares del progreso social.
Estos proyectos, con los cuales las elites criollas tratan de mantener el dominio, conviven con los conflictos y las intersecciones de las lenguas y culturas en donde lo nacional entrará en juego con el proyecto político continental.
Las evoluciones de los dos idiomas, tanto en Hispanoamérica como en Brasil, muestran la apropiación que las poblaciones crio - llas del nuevo continente hacen de las lenguas de las antiguas metrópolis. La gramática y la ortografía que se desarrollan a la par de los nuevos textos legislativos muestran, en la obra de Andrés Bello, la importancia del idioma como una piedra fundacional de los nuevos estados. El español y el portugués son los formadores de las naciones al mismo tiempo que disciplinan las sociedades que hasta ese entonces eran plurilingües y multiétnicas, y que los nuevos poderes políticos van a encuadrar dentro patrones comunes.
El espacio simbólico de la novela tiene una función hegemónica en las letras durante el siglo XIX, siempre en tensión con sus propuestas desestructuradoras que muestran la “otredad” estructural de las nuevas formaciones americanas.
Desde el siglo XIX iba naciendo en Hispanoamérica una escritura regional que crece hacia inicios del XX. Es la hora de los indigenismos, los afro-antillanismos, los criollismos, la novela “de la tierra” y, paralelamente, de los regionalismos brasileños. Es la mirada al mundo rural desde la perspectiva de una urbanización naciente y veloz; es el mirar nacional en descripciones de tipos humanos, medio geográfico, de la explo - tación económica, en la que crece la denuncia al subdesarrollo.
Esta visión positivista, nacionalista y desarrollista a veces se expresa en lo folclórico. El siglo XX, con la urbanización en plena marcha, y la transición al modelo capitalista en velocidades distintas en los diferentes sectores del continente, se favorece con la inmigración que estalla en el crecimiento de Buenos Aires y São Paulo; la revolución tecnológica en los países centrales genera, mientras tanto, una modernización violenta que coloca a la cultura entre lo tradicional y la modernización. Los regio - nalismos se enfrentan a las vanguardias, como dos lados de la realidad de transformación social vertiginosa en el que lo rural y lo urbano, se expresan en un proceso complejo. Por las ciudades entra la modernización tecnológica. Las vanguardias en América Latina viven la política de la lucha antidictatorial y un discurso modernizador: Oliverio Girondo en Argentina, Vicente Huidobro en Chile, Oswald y Mario de Andrade en Brasil, incorporan la primera revolución tecnológica del siglo. La electricidad, el teléfono, el cine, son los diferenciales en el un tiempo-espacio, que en provincias o en los interiores rurales se vive de un modo desigual y más atrasado.
El ingreso de América Latina a lo moderno y tecnológico expresa lo contemporáneo internacional en lo cultural y, específicamente en lo literario, cuestiona la estética anterior en sus formas y modos expresivos. Así fue la discusión entre Anita Malfatti y Monteiro Lobato en Brasil, que marcó un hito al inicio del modernismo brasileño. Lobato criticó duramente la exposición de las obras de Malfatti, acusándola de “paranoia o mistificación”. Publicada en 1917, la crítica fue uno de los disparadores de la Semana de Arte Moderno de 1922, y de la renovación artística y cultural en Brasil. La siempre escandalosa explosión de las vanguardias en los distintos países muestra la tensión entre regionalismo y cosmopolitismo. Las expresiones culturales de inicios de siglo en ambos lados de América Latina aparecen en las tensiones entre las respuestas regionales y las cosmopolitas, según la observación de Antonio Cándido, o en términos de claras confrontaciones, entre la nativista y las modernistas.
(Continuará en el ACyS-Brasil, número 5)
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