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Por: Paulo Baudouin
Os Antimatéria
Todas as manhãs, pego a linha B do metrô, em um horário menos lotado, e raramente consigo um assento; minhas pernas ainda são jovens e bem treinadas. Dito isso, eu penso, o que é o que prefiro. Nada de ficar rolando a tela do celular; e ultimamente também não leio, algo que costumava fazer, mas os vendedores ambulantes e os músicos se apresentando — todos tentando ganhar algumas moedas honestamente — me distraem. Mesmo assim, gosto de alguns artistas, e se me sobra algum trocado, dou a eles; embora a verdade seja que não tenho nenhum para dar. Com o que ganho, mal consigo pagar as contas, vivendo uma vida frugal, na qual não vejo muita possibilidade de meu destino mudar tão cedo. Embora eu participe de reuniões sindicais, e se decidirem por uma greve, meu voto sempre estará lá. Mas não tenho o caráter nem a personalidade para ser um delegado; prefiro ficar fora do caminho e manter um perfil discreto. Minha vida é relativamente tranquila, com exceção da morte de dois dos meus avós e do meu tio Alberto, irmão da minha mãe. Ele adorava a vida noturna, álcool, cigarros e dormir mal. Um dia, seu corpo finalmente não aguentou mais. Mas ele viveu a vida ao máximo, e foi isso que escolheu para si.
Mas um dia algo aconteceu que mudou minha visão da vida, que até então eu considerava previsível, regida por leis inflexíveis, entre as quais eu poderia citar a matemática, da qual se pode deduzir altas probabilidades de eventos incomuns. No entanto, às vezes os números não parecem bater, e tudo o que resta é um mundo misterioso, inalcançável, sem um ponto de Arquimedes, sem nada que contenha algo que precise de uma forma ou fórmula.
Havia muito do que se duplicava diante dos meus olhos, e aparentemente apenas diante dos meus. Eu, que nunca fui chamado de louco, que nem sequer tomo remédios para dormir, que não uso drogas e mal bebo álcool nos fins de semana, e em doses infantis; e que não tem nada de artista em mim — embora uma vez eu tenha desenhado um mamute com sua pelagem e neve, mas eu era criança —, esse meu eu quase idílico os viu no metrô.
Quando entrei no segundo vagão — porque eu sempre gostei de viajar na frente — vi dois caras, dois homens perto dos quarenta. Um deles vestia um terno marrom claro, gravata azul e vermelha, camisa branca e sapatos marrons de amarrar; tinha cabelo curto e estava barbeado. O outro tinha uma aparência radicalmente diferente, até mesmo naquilo que transmitia ideologicamente: era um típico fã de heavy metal, com cabelo comprido, barba por fazer e vestindo uma camiseta com o nome daquela que se tornaria sua banda favorita, Megadeth. Usava jaqueta de couro, pulseiras, anéis de monstro com chifres epresas, um cinto cravejado de tachas, calça jeans e botas de couro estilo motociclista.
O contraste chamou minha atenção imediatamente: estavam sentados lado a lado, e eu nem percebi na hora que não estavam conversando nem se olhando. Afinal, o que aquelas duas pessoas poderiam ter em comum?
Mas foi então que percebi o quão surpreendente tudo aquilo era, junto com todas as perguntas que o cercavam. Um arre - pio percorreu minha espinha quando senti algo muito estranho ao olhar para seus rostos, olhar para eles novamente, observar seus corpos, como estavam sentados — ambos com o tronco ligeiramente curvado e os antebraços apoiados nas pernas. Eram idênticos em tudo, exceto pelas roupas.
Comecei a comparar cada detalhe de seus rostos: seus nari - zes, bocas, olhos, cor do cabelo, largura dos ombros, alturas… e embora seus sapatos fossem diferentes, era evidente que eram do mesmo tamanho. Bastante grandes, como suas mãos: dedos grossos, unhas da mesma espessura. Suas mãos também sugeriam que eram ossudas; seus queixos grandes bastavam para confirmar isso. Eles não eram gordos, talvez um pouco barrigudos, mas eram homens que, embora não fossem altos, aparentavam ter bastante peso. Pareciam ter uma boa quantidade de massa muscular.
Eu não tinha dúvidas: eram gêmeos viajando juntos, vestidos de maneira muito diferente. Mas algo me chamou a atenção: era evidente que seu comportamento era o de duas pessoas que nunca haviam se encontrado antes. Por sete estações, permaneceram imóveis, lado a lado, completamente alheios um ao outro.
Estariam eles brigados? E por que estavam viajando lado a lado, então? Olhei em volta, procurando saber se mais alguém estava vendo o mesmo que eu. Tão diferentes na aparência, mas tão idênticos na essência, naquela suposta nudez de seus corpos.
De repente, me perguntei se não seriam a antimatéria um do outro, e então fiquei apavorado ao imaginar que, se fosse esse o caso, e se tocassem, tudo explodiria em mil pedaços. Mantinham uma distância mínima, tão mínima que, no balanço do metrô, nem se aproximaram o suficiente para se roçarem por milímetros. Desesperei-me.
Se não haviam se olhado ou falado em todas aquelas estações, não se conheciam. Então era bem possível que fossem dois seres de antimatéria que se encontraram e que, a qualquer momento, pode - riam se tocar, por exemplo, se um deles se levantasse para descer.
Tudo explodiria
Senti pânico. A chegada à próxima estação pareceu uma eterni - dade. Assim que as portas se abriram, corri para a escada rolante, subindo-a como um louco, empurrando as pessoas. Cheguei à outra escada — esta não era uma escada rolante — que dava para a rua, pulando os degraus. Passaram-se cerca de vinte segundos e, em aproximadamente mais um minuto, o metrô chegaria, com sorte, à próxima estação.
Eu ficava pensando que, se alguém se levantasse, poderia esbarrar em outra pessoa e, então, seria uma verdadeira tragédia.
Continuei correndo pela avenida, na direção oposta à do metrô que passava por baixo. Pensei que deveria tê-los avisado, mas eles teriam me achado louco.
Passaram-se trinta segundos, talvez um pouco mais, e então houve a explosão, a cerca de quatrocentos metros de onde eu estava. Foi como o apocalipse. Uma cratera vulcânica se abriu na avenida e tudo voava para fora: uma roda, a mão de uma mulher, um pedaço do braço de um violão, a cabeça do garoto que estava cantando uma música do Sui Generis no vagão do metrô.
Vi toda a erupção. Continuei correndo por mais um ou dois quilômetros até parar, e então segui a pé. Peguei um táxi para casa; provavelmente levei mais meia hora para chegar.
Aos poucos, as notícias da tragédia foram chegando. Me senti um covarde, porque quando me acalmei um pouco, pensei que deveria ter voltado para ajudar. Mas na TV, bombeiros, ambulâncias e pes - soas ao redor tentavam fazer o que podiam, em completo horror.
“Ataque do Estado Islâmico”, diziam alguns. “Terrorismo islâ - mico”, diziam outros.
Nenhuma organização havia reivindicado a autoria do ataque até então.
“Já temos o suspeito”, anunciaram.
Dias depois, ninguém duvidava que fosse eu. Todas as câmeras me viram descendo as escadas correndo. Ninguém acreditou em mim quando, em minha defesa, tentei contar a verdade. Não havia câmeras dentro do metrô. Prisão perpétua. E como eu não era de ascendência árabe, concluíram que eu era um contato local, o que gerou grandes debates, com todos preocupados que células terroristas supostamente já tivessem infiltrados como eu em nosso país pacífico.
Mas eu não conseguia provar que se tratava de um acidente natu - ral: uma colisão raríssima entre matéria e antimatéria, que causou uma explosão em um raio de centenas de metros, com o epicentro na esquina da Avenida Corrientes com a Rua Libertad. Um, ou ambos, certamente queriam descer na estação Carlos Pellegrini.
Tentei me lembrar da música do Sui Generis que o coitado estava cantando naquele dia no metrô, mas não consigo. Acho que era “Confissões de Inverno”.
Los Antimateria
Todas las mañanas me tomo el subte de la línea B, en un horario no muy lleno, y raras veces puedo sentarme; mis piernas son aún jóvenes y bien entrenadas. Eso sí, voy pensando, que es lo que prefiero. Nada de andar navegando con el celular, y hoy por hoy tampoco leer, algo que hice un tiempo, pero los vendedores ambulantes y los músicos que hacen sus números —todos para llevarse unas monedas honestamente— me desconcentran. Aun así, disfruto de algunos artistas, y si me sobra alguna moneda, les doy; aunque la verdad es que no me sobra nada. Con lo que gano apenas llego a fin de mes, haciendo una vida austera, en la que no veo demasiadas posibilidades de que mi destino vaya a cambiar algún día. Aunque cuando hay asamblea del sindicato asisto, y si se decide por la huelga, ahí siempre está mi voto a favor. Pero no tengo el carácter ni la personalidad para ser delegado; soy más bien de andar por la base y pasar medio desapercibido. Llevo una vida sin sobresaltos, fuera de la muerte que me llevó a dos de mis abuelos y al tío Alberto, el hermano de mi madre. Le gustaba mucho la noche, el alcohol, el cigarrillo, dormir mal. Un día el cuerpo le dijo basta. Eso sí, la vivió intensamente, y es lo que eligió para sí.
Pero un día sucedió algo que me cambió la visión de la vida, que hasta entonces veía como algo previsible, con leyes de hierro, entre las que podría citar las matemáticas, desde donde se pueden deducir altas probabilidades de hechos inusuales. Sin embargo, a veces los números parecen no cerrar y solo queda un mundo misterioso, sin alcance, sin punto arquimédico, sin nada que contenga algo que necesite de una forma o fórmula.
Hubo demasiado de lo que se duplicaría frente a mis ojos, y aparentemente solo ante los míos. Yo, que nunca fui tildado de loco, que no tomo pastillas siquiera para dormir, que no me drogo y apenas tomo alcohol algún fin de semana, y en dosis infantiles; y que de artista no tengo nada —aunque una vez dibujé un mamut con sus pelos y su nieve, pero era chico—, ese yo casi idílico los vio en el subte.
Cuando subí al segundo vagón —porque siempre me gustó viajar adelante— vi a dos tipos, dos hombres de unos treinta y largos, pisando los cuarenta. Uno vestía traje marrón claro, corbata con azules y rojos, camisa blanca, zapatos marrones con cordones; llevaba el pelo corto y estaba bien afeitado. El otro tenía una apariencia radicalmente distinta, incluso en lo que transmitía ideológicamente: era un perfecto heavy metal, de pelo largo, mal afeitado, remera con la inscripción de la que sería su banda preferida, Megadeth. Llevaba campera de cuero, muñequeras, anillos de monstruos con cuernos y colmillos, cinturón con tachas, jeans y botas de cuero tipo motociclista
Enseguida me llamó la atención el contraste: uno sentado al lado del otro, y ni advertí en ese momento que no se hablaban ni se miraban. Al fin de cuentas, ¿qué podrían tener en común esas dos personas?
Pero fue entonces cuando advertí lo asombroso, con todos los interrogantes. De repente me vino un escalofrío, cuando intuí algo muy extraño al mirarles los rostros, volver a mirarlos, observar sus cuerpos, cómo estaban sentados —los dos con los torsos levemente encorvados y los antebrazos apo - yados en las piernas—. Eran idénticos en todo, salvo en sus vestimentas.
Empecé a comparar rasgo por rasgo de sus rostros, sus narices, bocas, ojos, color de pelo, ancho de espaldas, alturas… y aunque sus calzados fueran distintos, se notaba que eran del mismo número. Más bien grandes, como sus manos: dedos gruesos, uñas acordes. También por sus manos se podía deducir que eran huesudos; bastaba observar sus grandes mandíbulas. No eran gordos, quizá algo de panza, pero sí hombres que, sin ser altos, transmitían peso. No parecían exentos de buena masa muscular.
No tuve dudas: eran gemelos viajando juntos, con muy distintas formas de vestir. Pero algo me llamaba la atención: se notaba que sus actitudes eran las de dos personas que jamás se hubieran visto en sus vidas. Estuvieron durante siete estaciones inconmovibles, uno junto al otro, en total ignorancia mutua.
¿Estarían peleados? ¿Y por qué viajaban entonces uno al lado del otro? Miré alrededor, buscando si alguien más estaba viendo lo mismo que yo. Tan distintos en apariencia, pero tan idénticos en lo esencial, en esa supuesta desnudez de los cuerpos.
De pronto pensé si no serían la justa antimateria uno del otro, y entonces me aterrorizó imaginar que, si así fuese, y llegaban a tocarse, todo volaría en mil pedazos.
Mantenían una mínima distancia, que en el vaivén del subte no llegaban a rozarse por milímetros o menos. Me desesperé.
Si en todas esas estaciones no se miraron ni hablaron, no se conocían. Entonces era muy posible que fuesen dos antimaterias que se habían encontrado, y que en cualquier momento podían tocarse, por ejemplo, si uno se levantaba para bajarse.
Todo volaría por los aires.
Sentí pánico. La llegada a la siguiente estación se me hizo eterna. Apenas se abrieron las puertas, corrí hasta la escalera mecánica, subiendo como un loco, empujando gente. Llegué a la otra escalera —ya no mecánica— que daba a la calle, saltando los escalones. Habrían pasado unos veinte segundos, y más o menos en un minuto más el subte estaría llegando, con suerte, a la otra estación.
Seguía con la idea de que si alguno se levantaba, podía rozar al otro, y entonces, la gran tragedia.
Seguí corriendo por la avenida, en la dirección contraria a la que iba el subte por abajo. Pensé que tendría que haber avisado, pero me habrían tomado por loco.
Pasaron treinta segundos, quizá un poco más, y se sintió el estallido, a unos cuatrocientos metros de donde estaba. Fue como el apocalipsis. Se había abierto un cráter volcánico en la avenida, desde el cual volaba de todo: una rueda, una mano de mujer, un pedazo de diapasón de guitarra, la cabeza del pibe que cantaba en el vagón una canción de Sui Generis.
Vi toda la erupción. Seguí corriendo uno o dos kilómetros hasta que paré, y seguí a pie. Me tomé un taxi hasta mi casa; habré tardado otra media hora en llegar.
De a poco, las noticias de la tragedia. Me sentí un cobarde, porque cuando bajé un poco lo emocional, pensé que tendría que haber vuelto para ayudar.
Pero en la tele se veían bomberos, ambulancias, gente alre - dedor intentando hacer lo que podían, en un completo espanto.
“Atentado del ISIS”, decían unos. “Del terrorismo islámico”, otros.
Ninguna organización se había atribuido el hecho hasta entonces. “Tenemos al sospechoso”, decían.
Días después nadie dudaba de que había sido yo. Todas las cámaras me vieron correr por las escaleras. Nadie me creyó cuando, en mi defensa, quise contar la verdad. No había cámaras dentro del subte. Cadena perpetua. Y como no era descendiente de árabes, quedó instalado que fui una conexión local, lo que generó grandes debates, con todos preocupados porque las células terroristas supues - tamente ya tendrían infiltrados como yo en nuestro pacífico país.
Pero no pude probar que aquello fue un accidente verdade - ramente natural: un rarísimo cruce entre materia y antimateria, que hizo explotar todo a cientos de metros a la redonda, con epicentro en la avenida Corrientes esquina Libertad. Uno, o los dos, seguramente quiso bajarse en la estación Carlos Pellegrini.
Quise recordar la canción de Sui Generis que el pobre mucha - cho cantaba aquel día en el subte, y no logro recordarla. Creo que era “Confesiones de invierno.”
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