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Por: Paulo Baudouin
Happening
A carga era pesada, um embrulho disforme, como um saco gigante do Papai Noel com apenas uma rena. Ele a carregaria escada acima, muitos andares, subindo lentamente para não se cansar na metade do caminho. Usar o elevador seria suspeito, e talvez o zelador do prédio não o deixasse subir com uma coisa tão enorme, visto que o espaço era necessário para as muitas pessoas que o utilizavam para acessar todos os escritórios daquele imponente edifício. O elevador de serviço era muito pequeno, destinado à equipe de limpeza e a todos os tipos de empregados. Além disso, se ele tentasse usar o elevador principal, o zelador poderia perguntar- -lhe, com suspeita justificada, o que ele carregava naquela sacola gigante, e poderia até querer inspecioná-la. Se ele se recusasse, chamaria a segurança do prédio.
Melhor usar a escada de serviço. Era difícil passar pela porta que dava para a escada de emergência, apesar de ser bastante larga, assim como a própria escada. Sim, ele chegaria ao terraço; ele já sabia como abrir a porta. Ele tinha as ferramentas. A entrada naquele lugar era proibida. Alguns anos antes, um psicopata se posicionou ali e, com um rifle de precisão, começou a matar pessoas. Ele matou dezesseis homens, treze mulheres e quatro crianças: três meninas e um bebê.
Mas ele chegaria ao topo, desceria até o terraço e jogaria a sacola na avenida. Depois, desceria correndo, enxugando o suor, borrifando desodorante... Em resumo, chegaria à calçada o mais rápido possível para ver como as pessoas se aglomerariam em torno do conteúdo: onde as chaves do consumo, as formas da felicidade, os símbolos do poder, o Santo Graal, talismãs, o Aleph apareceriam, brilhando... de tudo isso a bonecas de borracha e brinquedos para fazer amor sem envolvimento emocional.
E sim, ele conseguiu. Eram quinze andares. Ele havia treinado muito para carregar o peso para cima e descer rapidamente qualquer tipo de escada de prédio sem ele. Ele conseguiu abrir a porta do terraço. Certificou-se de que não havia ninguém lá. A máscara — para que não fosse reconhecido pelas câmeras mais tarde — e o macacão laranja poderiam ser descartados rapidamente assim que ele voltasse para dentro do prédio. Ele conhecia o lugar e todo o seu sistema de segurança. Ela trabalhara lá por doze anos e aproveitou suas férias para realizar o que vinha planejando há muito tempo: mostrar ao futuro da humanidade a voracidade desses seres criados por um sistema que os deixou insaciavelmente desesperados pela “coisa em si”, à qual sempre foi atribuída uma qualidade mágica preexistente, graças à publicidade, que se tornara tão sofisticada nos últimos tempos.
Todos eles iriam atrás daquilo que prometia curar seus diferentes e insuportáveis anseios, desejos e obsessões. Acima de tudo, iriam atrás de tudo que os tirasse daquele anonimato aterrador do qual apenas aqueles que possuem a marca mais visível de seu objeto de desejo se salvam.
Ele atirou a enorme sacola, o pacote divino. Observou-a cair como um meteorito em direção a um buraco negro, e quando atingiu o asfalto, o ruído foi um enxame de notas musicais, certas dissonâncias beirando o som puro e simples de colisões. A sacola havia sido feita de modo que, ao cair, se abriria completamente e revelaria seu conteúdo: seu exército reificador e salvífico.
Admiração, estupefação, medo. Então, a sensação de uma revelação celestial na forma de objetos cobiçáveis, despertando libidos reprimidos, sonhos frustrados, fracassos da vida. Lá estavam todos, todas as coisas e objetos, radiantes de alma. E os transeuntes, os motoristas e seus passageiros saíram de seus carros, atraídos por aquela esfera de tudo. As pessoas nos ônibus saíram em uma correria caótica. Todas em direção à cratera, em direção à colisão de todos os desejos com formas e funções quase infinitas.
Eles agarraram tudo o que puderam: empurrando, batendo, puxando uns aos outros. Aqueles que encontraram armas — ele se certificou de que havia algumas, e carregadas — usaram-nas para assassinar seus colecionadores rivais. Os homens não se importavam com o gênero e usavam sua força física superior para arrebatar os prêmios de mulheres, crianças e idosos. E as mulheres e os idosos não se importavam com as crianças: também arrebatavam objetos delas, de acordo com seu tamanho. Embora algumas das crianças mais rápidas tenham conseguido pegar um desses objetos de poder — os aparelhos de televisão.
A guerra pela “coisa” em uma esquina movimentada. A mídia chegou, as ambulâncias, a polícia. Mas todos abandonaram seu dever e se renderam. Feriram-se uns aos outros, mataram-se uns aos outros, alguns se mutilaram porque também havia facas afiadas — bisturis (ele fez questão de incluir armas brancas).
Mas a magia começava a se dissipar. Os gritos, os insultos, o desespero pelo tempo perdido, daqueles nas últimas fileiras de carros parados na avenida bloqueada... aqueles que não viram o que estava acontecendo e não entenderam nada. Sempre há aqueles que não saem para ver o que está acontecendo. Aqueles que continuariam sendo motoristas de seus carros, passageiros de ônibus, pedestres que ainda estavam longe e que nunca deixariam de ser pedestres no mundo do consumo.
Os bens espalhados — aqueles que caíram como uma bomba milagrosa do céu — começaram a diminuir à medida que as pessoas pegavam tudo, deixando muitos como cadáveres, tendo lutado para se libertar para sempre. Finalmente, os usurpadores daquela graça celestial começaram a ver suas chances de posse diminuírem, até que nada restou. Todos começaram a partir, mas estavam fugindo. Ao longo do caminho, emboscaram uns aos outros: a luta continuava. Alguns conseguiram escapar roubando uns dos outros durante a diáspora.
Apenas o dono daquele céu milagroso permaneceu, observando da calçada, fumando um cigarro, bastante satisfeito com o ocorrido. Os corpos foram removidos logo em seguida. Nada mais restou, exceto a cabeça de uma boneca, que se desprendera durante alguma luta. O artista a pegou e a levou consigo, como um talismã.
Ninguém jamais soube o que aconteceu naquele dia ensolarado.
Paulobaudouin64@gmail.com
Happening
Era pesada la carga, un bulto deforme, como una bolsa de Papá Noel gigante cuyo único reno era él. Lo llevaría escaleras arriba, muchos pisos, subiendo lentamente para no quedar exhausto a mitad del viaje. Usar el ascensor sería sospechoso, y quizá el encargado del edificio no lo dejaría subir con aquella inmensidad, dado que el espacio se necesitaba para mucha gente que lo utilizaba para acceder a todas las oficinas de ese edificio tan imponente. El ascensor de servicio era muy pequeño, destinado al personal de limpieza y a todo tipo de servidumbre. Además, si intentaba usar el ascensor principal, el encargado podría preguntarle, con justificada sospecha, qué llevaba en esa bolsa gigante, e incluso querría revisarla. De negarse, llamaría a la seguridad del edificio.
Mejor tomar la escalera de servicio. Fue difícil pasar por la puerta que daba a la escalera de emergencia, a pesar de ser bastante ancha, así como la misma escalera. Sí, llegaría a la terraza; ya sabía cómo abrir la puerta. Tenía las herramientas. No estaba permitida la entrada a ese lugar, desde donde, un par de años atrás, se apostó un psicópata que, con un fusil de francotirador, se dedicó a matar gente. Mató dieciséis hombres, trece mujeres y cuatro niños: tres nenas y un varoncito de meses.
Pero él llegaría arriba, entraría a la terraza y arrojaría la bolsa a la avenida. Luego bajaría rápidamente, secándose el sudor, rociándose con desodorante... En fin, llegar cuanto antes a la vereda para ver cómo la gente se abalanzaría sobre el contenido: donde aparecían coruscantes las llaves del consumo, las formas de la felicidad, los símbolos del poder, el Santo Grial, talismanes, el Aleph... desde todo eso hasta muñequitas de goma y juguetes para hacer el amor sin involucrarse sentimentalmente.
Y sí, logró llegar. Fueron quince pisos. Había entrenado mucho para subir con peso y bajar sin él rápidamente por cualquier tipo de escaleras de edificio. Pudo abrir la puerta de acceso a la terraza. Se aseguró de que no hubiera nadie. La máscara —para no ser reconocido por las cámaras después— y el mameluco naranja podrían ser descartados rápidamente una vez de vuelta en el edificio. Conocía el lugar y todo su sistema de seguridad. Trabajaba allí desde hacía doce años, y aprovechó sus vacaciones para llevar a cabo lo que venía planeando desde mucho tiempo atrás: mostrarle al futuro de la humanidad la voracidad de estos seres creados por un sistema que los dejaba insaciablemente desesperados ante “la cosa en sí”, a la cual se le otorgaba siempre una calidad mágica previa, gracias a la publicidad, que se había sofisticado tanto en estos últimos tiempos.
Todos irían por aquello que prometía sanar sus diferentes e insoportables anhelos, deseos, obsesiones. Sobre todo, por poseer todo aquello que los sacara de ese terrorífico anonimato del que solo se salva quien ostenta la marca más visible de su objeto de deseo.
Arrojó la enorme bolsa, el bulto divino. Lo vio caer como un meteorito hacia un agujero negro, y cuando llegó al pavimento, el ruido fue un enjambre de notas musicales, ciertas disonancias que lindaban con el ruido puro y simple de las colisiones. La bolsa había sido hecha para que, al caer, se abriera por completo y revelara su contenido: su ejército cosificante y salvador.
El asombro, el estupor, el miedo. Después, la sensación de una revelación celestial en forma de objetos codiciables, azuzando libidos reprimidos, sueños frustrados, fracasos de vida. Allí estaban todos los cosos y las cosas, radiantes de alma. Y los transeúntes, los conductores y sus acompañantes bajaron de los coches, atraídos por aquella esfera de todo. La gente de los colectivos descendió descontrolada. Todos hacia el cráter, hacia la colisión de todos los deseos con formas y funciones casi infinitas.
Fueron agarrando lo que podían: empujándose, golpeándose, tironeándose. Los que encontraron armas —se había encargado de que las hubiera, y cargadas— las usaron para asesinar a sus colectores rivales. A los hombres no les importaban las cuestiones de género y aprovecharon su mayor fuerza física para arrebatarles las conquistas a mujeres, niños y ancianos. Y a las mujeres y a los ancianos no les importaron los niños: también les arrebataron objetos, según su tamaño. Aunque algunos niños más veloces lograron llevarse uno de esos cosos del poder, los de la televisión.
La guerra por “la cosa” en una esquina concurrida. Llegaron los medios de comunicación, las ambulancias, la policía. Pero todos abandonaron su deber-ser y se entregaron. Se lastimaron, se mataron, algunos se mutilaron porque también había cuchillos filosos —los de los cirujanos (se había encargado de incluir armas blancas).
Pero la magia comenzaba a agotarse. El griterío, los insultos, la desesperación por el tiempo perdido, por parte de quienes estaban en las últimas filas de coches detenidos por la avenida cortada... los que no veían lo que pasaba y no entendían nada. Siempre están esos que no bajan a mirar qué pasa. Los que seguirían siendo choferes de sus coches, viajantes en colectivos, transeúntes que aún estaban lejos y que no dejarían nunca de ser pedestres del mundo del consumo.
Las cosas esparcidas —lo que había caído como una bomba milagrosa del cielo— comenzaron a escasear a medida que la gente se llevaba todo, y muchos quedaban como cadáveres, habiendo luchado por liberarse para siempre. Finalmente, los usurpadores de esa gracia celestial empezaron a ver reducidas sus posibilidades de posesión, hasta que no quedó nada. Todos comenzaron a irse, pero escapando. En el camino se emboscaban: todavía había lucha. Algunos lograron marcharse robando a otros durante la diáspora.
Solo quedó el dueño de ese cielo milagroso, mirando desde la acera, fumándose un cigarrillo, bastante satisfecho con su happening. Los cadáveres pronto fueron removidos. No quedaba objeto alguno, salvo la cabeza de una muñeca, caída por algún forcejeo. El artista la recogió y se la llevó consigo, como un talismán.
Nunca nadie supo explicar qué pasó ese día soleado.
Paulobaudouin64@gmail.com
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