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Por: Javier Villanueva
Fantasmário, do escritor paraguaio Javier Viveros
A Guerra do Chaco foi um conflito militar entre
a Bolívia e o Paraguai que durou de setembro
de 1932 a junho de 1935. Surgiu de uma disputa territorial sobre a região do Chaco Boreal,
devido à suposta descoberta de petróleo no sopé
da Cordilheira dos Andes. Foi a maior guerra
da América do Sul no século XX e resultou na
conquista, pelo Paraguai, da maior parte do
território disputado.
No século XIX, uma guerra mais longa e ainda
mais destrutiva também devastou o povo paraguaio: a Guerra da Tríplice Aliança, ou Guerra
Paraguaia, ou Grande Guerra — Guerra Guazú,
como é chamada no país Guarani —, que durou
de dezembro de 1864 a março de 1870. Foi o
conflito militar no qual a coalizão formada pelo
Império do Brasil, Uruguai e Argentina — uma
Tríplice Aliança que muitos chamam de Tríplice
Infâmia — terminou com a vitória da Aliança e
deixou um povo dizimado, com sua população
masculina aniquilada em 70%, incluindo crianças,
e uma economia dependente de empréstimos e
dívidas intermináveis. Os motivos dessa guerra de
destruição do século XIX estavam enraizados na
luta hegemônica pela supremacia na Bacia do Rio
da Prata, na qual o Império Britânico apoiava as
reivindicações do partido liberal em Buenos Aires
e do império sediado no Rio de Janeiro para abrir
os grandes rios à navegação e eliminar o governante paraguaio. Os aliados, assim, destruíram, em
sua essência, a crescente superioridade industrial
e militar do Paraguai e sua autonomia em relação
à economia e aos projetos políticos.
Em seu livro Fantasmario, o escritor paraguaio Javier
Viveros — membro da Academia Paraguaia da Língua
Espanhola, da Real Academia Espanhola e da Academia
da Língua Guarani, e atual Ministro da Secretaria de
Políticas Linguísticas do Paraguai — explora diversos
gêneros, incluindo poesia, contos e romances, além de libretos
de ópera, roteiros teatrais, histórias em quadrinhos e cinema.
Tudo isso permite que
ele, em Fantasmario, se concentre no
conto, que beira o
fantástico e ameaça
se tornar uma novela
monumental — um
conceito aparentemente contraditório
— por meio da justaposição de histórias,
sempre humanistas
e nunca patrióticas,
sobre o espinhoso
tema da Guerra do
Chaco. Trata-se de
um assunto que reabre feridas que nunca
cicatrizaram completamente e que Viveros já havia abordado
em Pólvora y polvo
(Pólvora e Poeira), a
novela grafica sobre
o conflito do Chaco
publicada semanalmente pelo jornal
Última Hora.
Sua vasta e versátil experiência literária orgulha a literatura
paraguaia com contos como “Ingenierías del insomnio” (2008),
“Urbano, muito urbano” (2009) e “Manual de esgrima para elefantes” (2012). Fantasmario - Contos da Guerra do Chaco - 2015
– que discutiremos aqui, e também Vríngo luisõ - 2021, Páginas
de hierro - 2023 e Omombe’uva’ekue Jasy ikerañe’eme - 2025.
Os dezoito contos de Fantasmario nos apresentam homens,
mulheres, jovens e idosos, assim como mortos e vivos, que coexistem nestas páginas e nos permitem conhecer, através de suas
histórias de fantasmas vivos na memória, as feridas e cicatrizes
que a guerra fratricida gravou para sempre em seus corpos, suas
mentes e suas almas. Essas histórias são como pequenas pinturas
nas quais Javier Viveros retrata a condição humana sob diferentes
perspectivas.
O homem, meus filhos, é como um rio. Ele tem uma margem
e uma costa. Ele nasce e deságua em outros rios: ele deve servir
a algum propósito. Um rio ruim é aquele que morre em um
estuário.... (Roa Bastos 2007b: 16).
O Paraguai é um país sem litoral e, ironicamente, junto com
a Bolívia, são os únicos dois países sem saída ao mar de todo o
continente americano. A Bolívia, três vezes maior que o Paraguai,
foi palco da Guerra do Chaco. Dividido por dois rios de mesmo
nome, o Paraná e o Paraguai, o país tem uma história de conflitos com esses gigantes da natureza. Serviu de porta de entrada
para conquistadores e imigrantes europeus, palco de sangrentos
conflitos comerciais e político-militares e rota sombria para o
exílio de opositores de diversos regimes. Causa de destruição
com suas frequentes cheias, suas águas imponentes moldam a
vida e o desenvolvimento do país. Mas sua presença não resolve,
em algumas regiões, os frequentes períodos de seca, que também
podem afetar conflitos militares, como o ocorrido na chamada
“Guerra do Chaco”, um conflito cruel travado entre 1932 e 1935
contra a Bolívia na vasta região do Chaco.
Ao contrário do que se poderia esperar, o Rio Paraguai, um dos
mais importantes e quase totalmente navegáveis da América do Sul, é um abismo que corta o país, dividindo-o em dois mundos
distintos: a região leste, mais próxima da Argentina e do Brasil, e
o Chaco. Isso cria uma “dualidade física desconcertante, porém
de destino paralelo indissolúvel”, uma “espinha dorsal líquida
do país”, como alguns estudiosos por um lado e outros tantos
poetas por outro, o descreveram.
Tudo isso está presente nas narrativas de muitos escritores
paraguaios, como demonstram as diversas interpretações do
tema em contos, romances e poemas de alguns dos nomes mais
famosos da literatura paraguaia, como Augusto Roa Bastos, em
“Carpincheros”, da coletânea “El trueno entre las hojas” (1953),
e no romance “Hijo de hombre” (1960); também em “La seca”,
retirado de “La seca y otros cuentos” (1986) de Renée Ferrer,
que, assim como Roa Bastos e Viveros, era paraguaia. São todas
histórias que, como em toda literatura “fundacional”, seguem os
traços do século XIX que são extraídos das obras escritas e se
estendem até meados do século XX, retratando o território, suas
paisagens e seus homens e mulheres. Essas histórias abordam a
opressão, o choque entre culturas nativas e estrangeiras, a guerra
e a luta pela sobrevivência, narrando, em grande parte de maneira
quase mítica, a história do país. É então que a literatura lança os
alicerces estruturais de uma nação, como ocorreu na Argentina
de Sarmiento em Facundo, civilização e barbárie e, ainda que
de naturezas opostas, como em Nossa América, de José Martí.
Todas as histórias anteriores a Javier Viveros compartilham
esse mesmo tema dominante em torno da presença do grande rio:
a ruptura trágica da ordem mágica da vida em uma comunidade
paraguaia com a chegada da civilização europeia e seus excessos,
que levam à violência e à escravidão.
Em Fantasmario, em dezoito contos que podemos imaginar
como capítulos de um romance infinito, Viveros nos apresenta “O
Novo Irmão”, “Prematuro”, “Intratável”, “El Cid Estigarribia”, “Flor
de Coco”, “Deslocamento do Campo de Batalha”, “A Sentença”,
“Melhor Assim”, “Encontro”, “Linhas Coplanares”, “Lembrando o
Soldado Vargas”, “A Última Ceia”, “Equilíbrio Positivo”, “Visão”,
“O Motivo”, “Yvy’a”, “Um Segredo” e “Registro de Serviço”. E em
todos eles, a linguagem do conquistador espanhol se entrelaça
com a fala popular em guarani, o idioma do povo subjugado.
Prêmio Edward e Lily Tuck de Literatura Paraguaia de 2018,
concedido pelo PEN Club dos Estados Unidos a Fantasmario -
Contos da Guerra do Chaco.
“O júri decidiu por unanimidade atribuir o Prêmio Tuck a
Fantasmario, de Javier Viveros. Nestas histórias sobre a Guerra
do Chaco entre o Paraguai e a Bolívia, não se trata de uma defesa
patriótica “paraguaia” da guerra, mas sim de uma narrativa sobre
a própria questão da guerra, seus corpos sofredores e a marca
que deixa na consciência de seus sobreviventes. Para alcançar o
efeito desejado, Viveros reconhece que um dos fantasmas que
precisa confrontar é a própria literatura.”
Uma excelente combinação de memórias de combate e ficção
histórica, Fantasmario confronta constantemente a condição
humana com situações extremas na luta contínua pela sobrevivência. Como toda a obra de Javier Viveros, este livro é leitura
obrigatória.
La Guerra del Chaco fue un conflicto militar
entre Bolivia y Paraguay, que duró del mes de septiembre de 1932 a junio de 1935. Nació a partir de
una disputa territorial sobre la región del Chaco
Boreal, a causa del descubrimiento de petróleo en
las estribaciones de la Cordillera de los Andes. Fue
la guerra más grande de Sudamérica en el siglo
XX, y resultó en la conquista de la mayor parte
del territorio en disputa por parte del Paraguay.
En el siglo XIX, un conflicto bélico de más
larga duración y aún más destructor también había
asolado al pueblo paraguayo: la Guerra de la Triple Alianza o Guerra del Paraguay, o la Guerra
Grande-Guerra Guazú, como la llaman en el país
guaraní, que duró de diciembre de 1864 a marzo
de 1870. Fue el conflicto militar en el que la coalición formada por el Imperio de Brasil, Uruguay
y Argentina — Triple Alianza que muchos llaman
la Triple Infamia—, terminó con la victoria de la
Alianza y dejó un pueblo diezmado, con su población masculina aniquilada en un 70%, incluyendo
niños, y una economía dependiente de préstamos y
deudas interminables. Los motivos para esta guerra
de destrucción del siglo XIX se concentraban en
la disputa hegemónica por la supremacía en la
Cuenca del Plata, en la que el Imperio Británico
apoyaba la exigencia del partido liberal de Buenos
Aires y el imperio con sede en Río de Janeiro de
abrir la navegación de los grandes ríos y eliminar
al gobernante paraguayo. Los aliados mataban
así, en la raíz, la superioridad industrial y militar
creciente y el autonomismo del Paraguay en relación a sus economías y sus proyectos políticos.
E
n su libro Fantasmario, el escritor paraguayo Javier Viveros, —miembro de la Academia Paraguaya de la Lengua
Española, académico de la Real Academia Española, y
de la Academia de la Lengua Guaraní, y actual ministro
de la Secretaría de Políticas Lingüísticas de Paraguay—
transita por diversos géneros, como la poesía, el cuento, la novela,
aparte de libretos de ópera, guiones de teatro, historieta y cine. Y todo esto le permite,
en su Fantasmario,
concentrarse en el
cuento que bordea lo
fantástico y amenaza
con una monumental
novela corta -valga
la aparente contradicción- por medio
de la yuxtaposición
de historias, siempre humanistas y
nada patrióticas, en
el espinoso tema de
la Guerra del Chaco.
Un asunto que abre
heridas nunca bien
cicatrizadas y que
Viveros ya había
tratado en Pólvora y
polvo, la obra de historieta bélica sobre el
conflicto del Chaco
publicada en fascículos semanales por el
diario Última Hora.
Su enorme y muy plástica experiencia literaria enorgullece
a la literatura paraguaya con cuentos como Ingenierías del
insomnio -2008, Urbano, demasiado urbano -2009, Manual
de esgrima para elefantes -2012, Fantasmario - Cuentos de la
Guerra del Chaco -2015 – del cual hablaremos acá, y además
Vríngo luisõ -2021, Páginas de hierro -2023, y Omombe’uva’ekue
Jasy ikerañe’eme, -2025.
Sus dieciocho cuentos cortos nos presentan hombres, mujeres,
jóvenes y viejos, así como muertos y vivos que cohabitan en estas
páginas y nos dejan conocer, con sus historias de fantasmas vivos
en la memoria las heridas y las cicatrices que la guerra fraticida
grabó para siempre en sus cuerpos, sus mentes y en sus almas.
Estos cuentos son como pequeños cuadros en los que Javier
Viveros pinta la condición humana desde sus distintos ángulos.
El hombre, mis hijos, es como un río. Tiene barranca y orilla.
Nace y desemboca en otros ríos: alguna utilidad debe prestar.
Mal río el que muere en un estero.... (Roa Bastos 2007b: 16).
Paraguay es un país mediterráneo y por ironía del destino,
junto con Bolivia, es el único sin salida al mar en todo el enorme
continente americano. Y son estos dos países mediterráneos,
Bolivia, casi tres veces más grande que Paraguay, que se irán a
enfrentar en la Guerra del Chaco. País dividido en dos por el río
del mismo nombre y contorneado al este por el Paraná, Paraguay
vive una relación de conflictos con estos gigantes de la naturaleza
a lo largo de los siglos. Fue la vía de entrada de conquistadores
e inmigrantes europeos, el escenario de sangrientos conflictos
comerciales y político-militares, triste camino al exilio para
opositores a sus diversos regímenes. Causa de destrucción en
las recurrentes inundaciones, sus imponentes aguas marcan la
vida y el desarrollo del país. Pero su presencia no resuelve, en
algunas regiones, los frecuentes períodos de sequía, que también
pueden afectar a los conflictos militares, como ocurrió en la
llamada “guerra de la sed”, conflicto cruel ocurrido entre 1932
y 1935 contra Bolivia, en la vasta región del Chaco.
Al contrario de lo que se podría esperar, el Paraguay, que es uno
de los ríos más importantes de Sudamérica, y casi en su totalidad
navegable, es un tajo que corta la nación paraguaya y la separa en dos mundos distintos, el oriental, más cercano a Argentina
y Brasil, y el Chaco; y esto crea una “desconcertante dualidad
física, pero de indisoluble destino paralelo”, una “líquida columna
vertebral del país”, como han dicho algunos estudiosos del tema.
Todo esto está vivo en las narrativas de muchos escritores
paraguayos, pues hay ejemplos de diversas interpretaciones
del tema en cuentos, novelas y poemas de los más famosos
nombres de la literatura paraguaya, como Augusto Roa Bastos,
en su Carpincheros, de la colección El trueno entre las hojas
(1953) y en la novela Hijo de hombre (1960); También en La
seca, tomado de La seca y otros cuentos (1986) de Renée Ferrer,
paraguaya, como Roa Bastos y Viveros. Son todos ellos cuentos
que, como en toda literatura “fundacional”, sigue los trazos del
siglo XIX y los prolonga hasta avanzada la mitad del siglo XX
al retratar el territorio, sus paisajes y sus mujeres y hombres; y
tratan sobre la opresión, el choque de las culturas nativa y las
extranjeras, la guerra y la lucha por la sobrevivencia en gran
medida y así van contando, de un modo casi mítico, la historia
del país. Y es entonces cuando la literatura sienta las bases
estructurales de una nación, como ocurrió en la Argentina de
Facundo, civilización y barbarie, aunque de signo contrario,
como en Nuestra América, de José Martí.
Todos los relatos anteriores a Javier Viveros tienen ese mismo
tema dominante alrededor de la presencia del gran río: la trágica
ruptura del orden mágico de la vida de una comunidad paraguaya con la llegada de la civilización europea con sus excesos
con que conducen a la violencia y la esclavitud.
En Fantasmario, en dieciocho cuentos, que podríamos imaginar que son como capítulos de una novela sin fin, Viveros
nos presenta a El nuevo cofrade, Deshora, Intratable, El Cid
Estigarribia, Flor de coco, Desplazamiento del campo de batalla,
La sentencia, Mejor así, Encuentro, Rectas coplanarias, Recordando al soldado Vargas, La última cena, Saldo positivo, Visión,
El motivo, Yvy’a, Un secreto y Foja de servicios. Y en todos, el
idioma del conquistador español se va mechando con hablas
populares en el guaraní del pueblo dominado.
Edward and Lily Tuck Award for Paraguayan Literature 2018,
otorgado por el PEN Club de Estados Unidos a Fantasmario -
Cuentos de la Guerra del Chaco.
“El jurado ha decidido por unanimidad reconocer a Fantasmario, de Javier Viveros, con el Premio Tuck. En estos relatos
sobre la Guerra del Chaco entre Paraguay y Bolivia, no se trata
de una defensa patriótica “paraguaya” de la guerra, sino de
un relato sobre la cuestión de la guerra misma, de sus cuerpos
sufrientes y de la huella que deja en la conciencia de sus sobrevivientes. Para lograr el efecto que busca, Viveros reconoce que
uno de los fantasmas que debe afrontar es la literatura misma”.
Mezcla fina de memorias de combatientes y de ficción histórica,
en Fantasmario la condición humana es siempre enfrentada a una
situación límite, en el ejercicio permanente de la sobrevivencia.
Un libro, como toda la obra de Javier Viveros, que no debe dejar
de ser visitada
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