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Fantasmário, do escritor paraguaio Javier Viveros | JAVIER VILLANUEVA | Octubre 2026

Por: Javier Villanueva


Fantasmário, do escritor paraguaio Javier Viveros

A Guerra do Chaco foi um conflito militar entre a Bolívia e o Paraguai que durou de setembro de 1932 a junho de 1935. Surgiu de uma disputa territorial sobre a região do Chaco Boreal, devido à suposta descoberta de petróleo no sopé da Cordilheira dos Andes. Foi a maior guerra da América do Sul no século XX e resultou na conquista, pelo Paraguai, da maior parte do território disputado.

No século XIX, uma guerra mais longa e ainda mais destrutiva também devastou o povo paraguaio: a Guerra da Tríplice Aliança, ou Guerra Paraguaia, ou Grande Guerra — Guerra Guazú, como é chamada no país Guarani —, que durou de dezembro de 1864 a março de 1870. Foi o conflito militar no qual a coalizão formada pelo Império do Brasil, Uruguai e Argentina — uma Tríplice Aliança que muitos chamam de Tríplice Infâmia — terminou com a vitória da Aliança e deixou um povo dizimado, com sua população masculina aniquilada em 70%, incluindo crianças, e uma economia dependente de empréstimos e dívidas intermináveis. Os motivos dessa guerra de destruição do século XIX estavam enraizados na luta hegemônica pela supremacia na Bacia do Rio da Prata, na qual o Império Britânico apoiava as reivindicações do partido liberal em Buenos Aires e do império sediado no Rio de Janeiro para abrir os grandes rios à navegação e eliminar o governante paraguaio. Os aliados, assim, destruíram, em sua essência, a crescente superioridade industrial e militar do Paraguai e sua autonomia em relação à economia e aos projetos políticos.

Em seu livro Fantasmario, o escritor paraguaio Javier Viveros — membro da Academia Paraguaia da Língua Espanhola, da Real Academia Espanhola e da Academia da Língua Guarani, e atual Ministro da Secretaria de Políticas Linguísticas do Paraguai — explora diversos gêneros, incluindo poesia, contos e romances, além de libretos de ópera, roteiros teatrais, histórias em quadrinhos e cinema.  

Tudo isso permite que ele, em Fantasmario, se concentre no conto, que beira o fantástico e ameaça se tornar uma novela monumental — um conceito aparentemente contraditório — por meio da justaposição de histórias, sempre humanistas e nunca patrióticas, sobre o espinhoso tema da Guerra do Chaco. Trata-se de um assunto que reabre feridas que nunca cicatrizaram completamente e que Viveros já havia abordado em Pólvora y polvo (Pólvora e Poeira), a novela grafica sobre o conflito do Chaco publicada semanalmente pelo jornal Última Hora.

Sua vasta e versátil experiência literária orgulha a literatura paraguaia com contos como “Ingenierías del insomnio” (2008), “Urbano, muito urbano” (2009) e “Manual de esgrima para elefantes” (2012). Fantasmario - Contos da Guerra do Chaco - 2015 – que discutiremos aqui, e também Vríngo luisõ - 2021, Páginas de hierro - 2023 e Omombe’uva’ekue Jasy ikerañe’eme - 2025.

Os dezoito contos de Fantasmario nos apresentam homens, mulheres, jovens e idosos, assim como mortos e vivos, que coexistem nestas páginas e nos permitem conhecer, através de suas histórias de fantasmas vivos na memória, as feridas e cicatrizes que a guerra fratricida gravou para sempre em seus corpos, suas mentes e suas almas. Essas histórias são como pequenas pinturas nas quais Javier Viveros retrata a condição humana sob diferentes perspectivas.

O homem, meus filhos, é como um rio. Ele tem uma margem e uma costa. Ele nasce e deságua em outros rios: ele deve servir a algum propósito. Um rio ruim é aquele que morre em um estuário.... (Roa Bastos 2007b: 16).

O Paraguai é um país sem litoral e, ironicamente, junto com a Bolívia, são os únicos dois países sem saída ao mar de todo o continente americano. A Bolívia, três vezes maior que o Paraguai, foi palco da Guerra do Chaco. Dividido por dois rios de mesmo nome, o Paraná e o Paraguai, o país tem uma história de conflitos com esses gigantes da natureza. Serviu de porta de entrada para conquistadores e imigrantes europeus, palco de sangrentos conflitos comerciais e político-militares e rota sombria para o exílio de opositores de diversos regimes. Causa de destruição com suas frequentes cheias, suas águas imponentes moldam a vida e o desenvolvimento do país. Mas sua presença não resolve, em algumas regiões, os frequentes períodos de seca, que também podem afetar conflitos militares, como o ocorrido na chamada “Guerra do Chaco”, um conflito cruel travado entre 1932 e 1935 contra a Bolívia na vasta região do Chaco.

Ao contrário do que se poderia esperar, o Rio Paraguai, um dos mais importantes e quase totalmente navegáveis da América do Sul, é um abismo que corta o país, dividindo-o em dois mundos distintos: a região leste, mais próxima da Argentina e do Brasil, e o Chaco. Isso cria uma “dualidade física desconcertante, porém de destino paralelo indissolúvel”, uma “espinha dorsal líquida do país”, como alguns estudiosos por um lado e outros tantos poetas por outro, o descreveram.

Tudo isso está presente nas narrativas de muitos escritores paraguaios, como demonstram as diversas interpretações do tema em contos, romances e poemas de alguns dos nomes mais famosos da literatura paraguaia, como Augusto Roa Bastos, em “Carpincheros”, da coletânea “El trueno entre las hojas” (1953), e no romance “Hijo de hombre” (1960); também em “La seca”, retirado de “La seca y otros cuentos” (1986) de Renée Ferrer, que, assim como Roa Bastos e Viveros, era paraguaia. São todas histórias que, como em toda literatura “fundacional”, seguem os traços do século XIX que são extraídos das obras escritas e se estendem até meados do século XX, retratando o território, suas paisagens e seus homens e mulheres. Essas histórias abordam a opressão, o choque entre culturas nativas e estrangeiras, a guerra e a luta pela sobrevivência, narrando, em grande parte de maneira quase mítica, a história do país. É então que a literatura lança os alicerces estruturais de uma nação, como ocorreu na Argentina de Sarmiento em Facundo, civilização e barbárie e, ainda que de naturezas opostas, como em Nossa América, de José Martí.

Todas as histórias anteriores a Javier Viveros compartilham esse mesmo tema dominante em torno da presença do grande rio: a ruptura trágica da ordem mágica da vida em uma comunidade paraguaia com a chegada da civilização europeia e seus excessos, que levam à violência e à escravidão.

Em Fantasmario, em dezoito contos que podemos imaginar como capítulos de um romance infinito, Viveros nos apresenta “O Novo Irmão”, “Prematuro”, “Intratável”, “El Cid Estigarribia”, “Flor de Coco”, “Deslocamento do Campo de Batalha”, “A Sentença”, “Melhor Assim”, “Encontro”, “Linhas Coplanares”, “Lembrando o Soldado Vargas”, “A Última Ceia”, “Equilíbrio Positivo”, “Visão”, “O Motivo”, “Yvy’a”, “Um Segredo” e “Registro de Serviço”. E em todos eles, a linguagem do conquistador espanhol se entrelaça com a fala popular em guarani, o idioma do povo subjugado.

Prêmio Edward e Lily Tuck de Literatura Paraguaia de 2018, concedido pelo PEN Club dos Estados Unidos a Fantasmario - Contos da Guerra do Chaco.

“O júri decidiu por unanimidade atribuir o Prêmio Tuck a Fantasmario, de Javier Viveros. Nestas histórias sobre a Guerra do Chaco entre o Paraguai e a Bolívia, não se trata de uma defesa patriótica “paraguaia” da guerra, mas sim de uma narrativa sobre a própria questão da guerra, seus corpos sofredores e a marca que deixa na consciência de seus sobreviventes. Para alcançar o efeito desejado, Viveros reconhece que um dos fantasmas que precisa confrontar é a própria literatura.”

Uma excelente combinação de memórias de combate e ficção histórica, Fantasmario confronta constantemente a condição humana com situações extremas na luta contínua pela sobrevivência. Como toda a obra de Javier Viveros, este livro é leitura obrigatória.
 Fantasmario, del escritor paraguayo Javier Viveros

La Guerra del Chaco fue un conflicto militar entre Bolivia y Paraguay, que duró del mes de septiembre de 1932 a junio de 1935. Nació a partir de una disputa territorial sobre la región del Chaco Boreal, a causa del descubrimiento de petróleo en las estribaciones de la Cordillera de los Andes. Fue la guerra más grande de Sudamérica en el siglo XX, y resultó en la conquista de la mayor parte del territorio en disputa por parte del Paraguay.

En el siglo XIX, un conflicto bélico de más larga duración y aún más destructor también había asolado al pueblo paraguayo: la Guerra de la Triple Alianza o Guerra del Paraguay, o la Guerra Grande-Guerra Guazú, como la llaman en el país guaraní, que duró de diciembre de 1864 a marzo de 1870. Fue el conflicto militar en el que la coalición formada por el Imperio de Brasil, Uruguay y Argentina — Triple Alianza que muchos llaman la Triple Infamia—, terminó con la victoria de la Alianza y dejó un pueblo diezmado, con su población masculina aniquilada en un 70%, incluyendo niños, y una economía dependiente de préstamos y deudas interminables. Los motivos para esta guerra de destrucción del siglo XIX se concentraban en la disputa hegemónica por la supremacía en la Cuenca del Plata, en la que el Imperio Británico apoyaba la exigencia del partido liberal de Buenos Aires y el imperio con sede en Río de Janeiro de abrir la navegación de los grandes ríos y eliminar al gobernante paraguayo. Los aliados mataban así, en la raíz, la superioridad industrial y militar creciente y el autonomismo del Paraguay en relación a sus economías y sus proyectos políticos.  

E n su libro Fantasmario, el escritor paraguayo Javier Viveros, —miembro de la Academia Paraguaya de la Lengua Española, académico de la Real Academia Española, y de la Academia de la Lengua Guaraní, y actual ministro de la Secretaría de Políticas Lingüísticas de Paraguay— transita por diversos géneros, como la poesía, el cuento, la novela, aparte de libretos de ópera, guiones de teatro, historieta y cine. Y todo esto le permite, en su Fantasmario, concentrarse en el cuento que bordea lo fantástico y amenaza con una monumental novela corta -valga la aparente contradicción- por medio de la yuxtaposición de historias, siempre humanistas y nada patrióticas, en el espinoso tema de la Guerra del Chaco. Un asunto que abre heridas nunca bien cicatrizadas y que Viveros ya había tratado en Pólvora y polvo, la obra de historieta bélica sobre el conflicto del Chaco publicada en fascículos semanales por el diario Última Hora.

Su enorme y muy plástica experiencia literaria enorgullece a la literatura paraguaya con cuentos como Ingenierías del insomnio -2008, Urbano, demasiado urbano -2009, Manual de esgrima para elefantes -2012, Fantasmario - Cuentos de la Guerra del Chaco -2015 – del cual hablaremos acá, y además Vríngo luisõ -2021, Páginas de hierro -2023, y Omombe’uva’ekue Jasy ikerañe’eme, -2025.

Sus dieciocho cuentos cortos nos presentan hombres, mujeres, jóvenes y viejos, así como muertos y vivos que cohabitan en estas páginas y nos dejan conocer, con sus historias de fantasmas vivos en la memoria las heridas y las cicatrices que la guerra fraticida grabó para siempre en sus cuerpos, sus mentes y en sus almas. Estos cuentos son como pequeños cuadros en los que Javier Viveros pinta la condición humana desde sus distintos ángulos.

El hombre, mis hijos, es como un río. Tiene barranca y orilla. Nace y desemboca en otros ríos: alguna utilidad debe prestar. Mal río el que muere en un estero.... (Roa Bastos 2007b: 16).  

Paraguay es un país mediterráneo y por ironía del destino, junto con Bolivia, es el único sin salida al mar en todo el enorme continente americano. Y son estos dos países mediterráneos, Bolivia, casi tres veces más grande que Paraguay, que se irán a enfrentar en la Guerra del Chaco. País dividido en dos por el río del mismo nombre y contorneado al este por el Paraná, Paraguay vive una relación de conflictos con estos gigantes de la naturaleza a lo largo de los siglos. Fue la vía de entrada de conquistadores e inmigrantes europeos, el escenario de sangrientos conflictos comerciales y político-militares, triste camino al exilio para opositores a sus diversos regímenes. Causa de destrucción en las recurrentes inundaciones, sus imponentes aguas marcan la vida y el desarrollo del país. Pero su presencia no resuelve, en algunas regiones, los frecuentes períodos de sequía, que también pueden afectar a los conflictos militares, como ocurrió en la llamada “guerra de la sed”, conflicto cruel ocurrido entre 1932 y 1935 contra Bolivia, en la vasta región del Chaco.

Al contrario de lo que se podría esperar, el Paraguay, que es uno de los ríos más importantes de Sudamérica, y casi en su totalidad navegable, es un tajo que corta la nación paraguaya y la separa en dos mundos distintos, el oriental, más cercano a Argentina y Brasil, y el Chaco; y esto crea una “desconcertante dualidad física, pero de indisoluble destino paralelo”, una “líquida columna vertebral del país”, como han dicho algunos estudiosos del tema.

Todo esto está vivo en las narrativas de muchos escritores paraguayos, pues hay ejemplos de diversas interpretaciones del tema en cuentos, novelas y poemas de los más famosos nombres de la literatura paraguaya, como Augusto Roa Bastos, en su Carpincheros, de la colección El trueno entre las hojas (1953) y en la novela Hijo de hombre (1960); También en La seca, tomado de La seca y otros cuentos (1986) de Renée Ferrer, paraguaya, como Roa Bastos y Viveros. Son todos ellos cuentos que, como en toda literatura “fundacional”, sigue los trazos del siglo XIX y los prolonga hasta avanzada la mitad del siglo XX al retratar el territorio, sus paisajes y sus mujeres y hombres; y tratan sobre la opresión, el choque de las culturas nativa y las extranjeras, la guerra y la lucha por la sobrevivencia en gran medida y así van contando, de un modo casi mítico, la historia del país. Y es entonces cuando la literatura sienta las bases estructurales de una nación, como ocurrió en la Argentina de Facundo, civilización y barbarie, aunque de signo contrario, como en Nuestra América, de José Martí. 

Todos los relatos anteriores a Javier Viveros tienen ese mismo tema dominante alrededor de la presencia del gran río: la trágica ruptura del orden mágico de la vida de una comunidad paraguaya con la llegada de la civilización europea con sus excesos con que conducen a la violencia y la esclavitud.

En Fantasmario, en dieciocho cuentos, que podríamos imaginar que son como capítulos de una novela sin fin, Viveros nos presenta a El nuevo cofrade, Deshora, Intratable, El Cid Estigarribia, Flor de coco, Desplazamiento del campo de batalla, La sentencia, Mejor así, Encuentro, Rectas coplanarias, Recordando al soldado Vargas, La última cena, Saldo positivo, Visión, El motivo, Yvy’a, Un secreto y Foja de servicios. Y en todos, el idioma del conquistador español se va mechando con hablas populares en el guaraní del pueblo dominado. 

Edward and Lily Tuck Award for Paraguayan Literature 2018, otorgado por el PEN Club de Estados Unidos a Fantasmario - Cuentos de la Guerra del Chaco.

“El jurado ha decidido por unanimidad reconocer a Fantasmario, de Javier Viveros, con el Premio Tuck. En estos relatos sobre la Guerra del Chaco entre Paraguay y Bolivia, no se trata de una defensa patriótica “paraguaya” de la guerra, sino de un relato sobre la cuestión de la guerra misma, de sus cuerpos sufrientes y de la huella que deja en la conciencia de sus sobrevivientes. Para lograr el efecto que busca, Viveros reconoce que uno de los fantasmas que debe afrontar es la literatura misma”.

Mezcla fina de memorias de combatientes y de ficción histórica, en Fantasmario la condición humana es siempre enfrentada a una situación límite, en el ejercicio permanente de la sobrevivencia.

Un libro, como toda la obra de Javier Viveros, que no debe dejar de ser visitada